. NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 15 ago. 1915, p.2. - Egba

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 15 ago. 1915, p.2.

De Egba

EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES - Podemos falar mais calmamente da atual exposição, sem exaltações fáceis do primeiro momento em que o nosso desejo nos faz ver as coisas através de um prisma que a inspeção fria não confirma.

Fazendo abstração da encenação hábil e ruidosa com que a apresentou a comissão organizadora, a atual exposição é uma das mais pobres a que temos assistido.

Apesar do grande número de trabalhos que compõem a seção de pintura, muito pouco há que destacar.

Tirem-se as paisagens do Professor João Baptista da Costa, e não são as melhores nem as mais individuais que tem saído do pincel do ilustre artista; os dois retratos do distinto pintor Eugenio Latour, inquestionavelmente muito interessantes como fatura, como apresentação e como modelos, mas que não denotam tudo quanto o Sr. Latour pode fazer; os dois retratos de crianças do jovem artista Rodolpho Chambelland que […] tre; e os dois trabalhos da Sra. D. Georgina de Albuquerque, - o que é que se pode citar mais?...

Talvez, algumas das paisagens do Sr. Augusto Petit, que vieram da recente mostra individual desse amável e modesto artista e que demonstram que nunca se é velho para estudar e para progredir; um ou dois trabalhos do Sr. Dias Junior e do Sr. Guttman Bicho.

Que é isso em comparação com alguns dos “salões” passados em que Henrique Bernardelli se fazia representar por meia dúzia de sólidos retratos; Rodolpho Amoedo, com algum trabalho do seu notável pincel; Elyseo Visconti, com obras notáveis e atraentes tanto pela concepção como pela finura de execução; Helios Seelinger, com trabalhos cujos originais temas e maneira singular de interpretá-los nos fizeram pressagiar um artista do valor de Franz Stuck; e bem assim o nosso mestre da paisagem, com espécimes da nossa natureza, transplantados com igual frescura e mais espontaneidade do que agora, e os jovens artistas como os próprios Srs. Latour, Chambelland e o Sr. Lucilio de Albuquerque, com trabalhos em que cada qual à porfia queria mostrar o muito que haviam aprendido e o muito que tinham dentro de si para externar.

Da atual exposição não há positivamente, na seção de pintura, um trabalho de fôlego, uma dessas obras que o artista executou trabalhando sob o estímulo de uma forte comoção, na excitação febril da inspiração. Talvez de todos os quadros expostos, aquele em que se encontre mais pronunciada a impressão desse sentimento, seja o denominado “Única Esperança” do jovem artista Sr. Pedro Bruno; mas, se a sua concepção foi sinceramente sentida, não possui ele ainda o preparo técnico necessário para que se dê a perfeita fusão da ideia visual e da boa execução que constitui a obra de arte.

Tanto esse moço como os Srs. João Baptista Bordon, o Sr. Guttman Bicho, o Sr. Gaspar de Magalhães, e os demais jovens artistas merecem louvores pelos esforços envidados, contribuindo para que a exposição não se deixasse de realizar este ano; mas, a verdade transparente é que a riqueza do número não encobre a relativa mediania da qualidade.

Nas outras secções, o mesmo se pode dizer, pouco ou nada tendo a acrescentar ao que já se escreveu aqui na primeira notícia.

Na de escultura, o Sr. Correia Lima é facile princeps com uma obra que domina tudo o mais; na de gravura de medalhas, os trabalhos do Sr. Adalberto de Mattos e os estudos, estudos interessantes mas sempre estudos, dos discípulos do Sr. A . Girardet na casa da Moeda, devendo talvez ser destacado o nome do Sr. Jorge Soubre; na de gravura e litografia, só um expositor, o Sr. Carlos Oswald, que tem três águas-fortes, interessantes e finas, e na de arquitetura dois expositores tão somente, com trabalhos que demonstram estudo e inventiva.

O que surpreende, não é que a exposição seja o que é; mas, sim, que tenha sido possível realizá-la, dado o pouco ou nenhum estímulo que os artistas têm entre nós para produzirem.

Não podem esperar, quer dos governos federal ou municipal, quer de particulares, que adquiram quaisquer obra de valor em que ponham o melhor do seu talento e de sua habilidade técnica; e sem esse forte incentivo, o de ver a sua obra apreciada e dignamente remunerada, já muito fazem apresentando o que constitui a exposição deste ano.

Deus queira que em 1916 seja possível realizar-se exposição, pelo menos, igual.

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O ilustre artista Sr. João Baptista da Costa deve estar bastante lisonjeado com a consagração que acaba de receber de seus pares.

Depois da reforma por que passou o ensino das belas artes no Rio de Janeiro, têm-se realizado na Escola de Belas Artes vinte e duas exposições: no entanto, foi este ano conferida pela primeira a Grande Medalha de Honra.

Dadas, pois as circunstâncias em que isso ocorreu, a distinção feita ao ilustre paisagista, além de constituir uma justa e nobre recompensa de uma obra artística numerosa e de valor, equivale a sagraá-lo entre os artistas nacionais o primus inter pares.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 15 ago. 1915, p.2.

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