. NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 14 ago. 1927, p. 10. - Egba

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 14 ago. 1927, p. 10.

De Egba

EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES - A exposição que ontem se inaugurou na Escola de Belas Artes é uma manifestação de trabalho intenso dos nossos artistas e uma expressão de cultura que se afirma no nosso meio de modo que não deixa de surpreender.

Efetivamente - apraz-nos registrar - nestes últimos tempos, de ano para ano aumenta o número de expositores e, mais do que os expositores, aumenta o trabalho dos concorrentes, apurando-se o seu entusiasmo e o seu labor que mostram, em relação a cada artista, progresso e evolução.

É um fato que registramos com o maior prazer e para o qual, dentro das nossas forças, teremos sempre palavras de estímulo e de carinho animador.

A exposição que ontem se inaugurou é a XXXIV da nossa escola oficial, o que vale dizer, que é a arte acadêmica, que não admite os grandes surtos fora do “academicismo” estabelecido, muita vez [sic] cometendo injustiças e desanimando os que poderão triunfar em vôos esplêndidos...

A exibição de ontem compareceu todo o nosso mundo oficial; o Sr. Presidente da República representou-se pelo Sr. Ferreira Braga; o Ministro do Interior e o da Agricultura lá estiveram; o Sr. Dr. Aloysio de Castro, também a visitou e, como estes, muitas outras autoridades e, além destas, um número infinito de convidados que encheram as vastas e numerosas dependências da Escola. Na confusão natural da assistência, no cruzar das salas, interrompidas pelos conhecidos que reclamam uma opinião, nas interjeições dos que parecem querer externar a sua emoção, na crítica sussurrada, nos encontrões dos apressados que tudo querem ver num relançar d’olhos, em tal confusão é-nos humanamente impossível, dentro das horas em que está aberta a Exposição, dela fazer uma ideia, e, muito menos, transmitir ao público a impressão detalhada da exibição, com citação dos trabalhos - dos numerosíssimos trabalhos - oferecidos à curiosidade pública como atestado de quanto se trabalhou este ano em arte no Brasil e de que sorte se trabalhou.

Assim o melhor caminho que encontramos para desobrigar-nos do dever jornalístico é registrar apenas os surtos que ali tem a sua melhor expressão, em artigos que iremos dando, na análise ainda que ligeira, da Exposição Geral de Belas Artes, ontem inaugurada.

Por hoje limitamo-nos a citar as telas que mais se destacam em duas ou três das salas da Escola, sem que estas citações constituam preferência, pois é fácil compreender a impossibilidade em que ali nos encontramos de ver tudo, mesmo nestas duas ou três dependências.

Um fato, porém, que devemos frisar desde logo é o de terem concorrido ao Prêmio de Viagem nada menos de 15 artistas, assim distribuídos:

Na pintura:

Cadmo Fausto, Candido Portinari, Edith de Aguiar, Gastão Formenti, Gilda Moreira, Haydéa Lopes Santiago e Sarah Villela Figueredo.

Na escultura:

José Pereira Barreto, Paes Leme Vicente Larocca.

Na gravura:

Arlindo Bastos Francisco Gomes Marinho.

Um outro fato digno de registro, na Exposição, é o número de senhoras que se apresentam e a volta dos velhos mestres que quiseram honrá-la com os seus trabalhos.

Mas, voltando ao nosso papel de noticiarista, cumpre-nos, de acordo com o que dissemos acima, registrar, entre os numerosos trabalhos expostos, os seguintes, pela ordem do catálogo:

A Sra. Adelaide Nascimento, “Recanto florido”, de muita vida e colorido; Almeida Junior [Luiz Fernandes de Almeida Júnior], “Risonha”, bela figura de mulher, de fisionomia expressiva; Americo Frederico da Rocha. “Estudo de nu”, bem modelado, anatomicamente impecável, e “Cabeça de Velho”, felicíssima; Annibal Motta [sic] [Annibal Mattos], “Crepúsculo de outono”, um belo cenário, e “Ancoradouro do Velho Mercado”, bem iluminado, de águas muito boas; “Odaliscas”, do Sr. Antonio Rocco, uma tela de grandes proporções, em que o autor mostra, dentro de um estilo tranquilo, uma técnica apurada, cheia de luz, com alta expressão no colorido e nos detalhes; os tapetes que ali figuram são uma rica prova do seu poder de sugestão, transmitida ao profano com naturalidade esplêndida; “Hercules e Prometeu”, do Sr. Cadmo Fausto, tem grande vida e execução feliz como a sua “Volta do pasto” é rica de tonalidades felizes; o Sr. Celso Kelly, apresenta-nos um “Colegial” e um “De mais alto”, com um bom céu e uma bela bruma; o Sr. Fiúza Guimarães dá-nos uma boa “Cabeça de Velho”; a Sra. Georgina de Albuquerque, sempre feliz nas suas figuras, apresenta-nos desta vez, “Um domingo na Quinta da Boa Vista”, de lindos relevos que suas cores fortes exageram. Boa luz nesta tela; sua “Brasileira” é um quadro bom, como o “Nu” é um pretexto magnífico para a exibição de uma cabeça e de um torso de mulher modelares. A senhorinha Gilda Moreira, uma esperança da pintura, não quis deixar de comparecer à Academia. Sua estreia há três anos e a volta, em outras exposições, justificam a sua presença com os dois quadros “Manhã de junho, em Santa Thereza” e “Retrato”. O primeiro, larga tela, de colorido bom, dá uma ideia da técnica da jovem artista. E notamos mais: um bem modelado “Nu”, da Sra. Hilda Eisenlohr, feliz em seus detalhes, sem grande acerto quanto à atitude da figura; um arrojado “Trecho do Rio de Janeiro”, do Sr. Lucilio de Albuquerque, lançado com vigor; “Paisagem”, do Sr. Luiz Christophe, de boas sombras e árvores magníficas. O Sr. Manoel de Faria dá, para o Prêmio de Viagem, os “Bandeirantes”, tela de enormes proporções, feliz em detalhes. Seguem-se mais; “Serra dos Órgãos”, belo quadro, desenvolto, de céu magnífico e planos rigorosos e do Sr. Orlando Teruz, concorrente ao Prêmio de Viagem, três belos trabalhos: “Tentação”, de grandes dimensões, em que a figura central é um modelo de perfeição anatômica de cores felizes e sombras precisas, fazendo ressaltar a carne palpitante, rigorosamente compatível com o tema: “Funeral”, quadro decorativo encerra belezas extraordinárias, não só pela ideia como pelo colorido e execução; e o “Retrato”, esplêndido na sua feitura quer da figura que é encantadora, quer nos detalhes do panejamento, nos tons que tanto impressionam pela sua justeza. O Sr. Petrus Verdier dá-nos um “La Cour”, natural e preciso nos seus tons; a Sra. Roselli Koch Torres comparece com uma “Primavera”, bem modelada, mas de fundo frio. A fisionomia da figura está bem iluminada. O Sr. Rodolpho Chambellen [sic] dá um expressivo “Retrato da senhorinha M. B.”. O Sr. Visconti compareceu com cinco telas entre as quais dois bons retratos e a “Igreja de Santa Thereza”, com uma tonalidade magnífica. A Sra. Yvonne Visconti dá um painel decorativo de efeitos magníficos, delicadíssimo na sua concepção e feliz na execução.

Muito há ainda que dizer da seção de pintura e a ela voltaremos.

A seção de escultura está belamente representada e dela teremos oportunidade de falar como pretendemos ocupar-nos das demais exibições; escultura, medalhas, arquitetura e arte aplicada, esta última cheia de novidades. Entretanto, como homenagem aos seus autores, é justo, desde já, destacar, na Escultura, dois trabalhos que reuniram ontem, em torno de si, viva curiosidade. É um busto do Sr. J. Antonio Coxito Granado, trabalho de grande precisão do Sr. Rodolpho Bernardelli que tem, nesse gesso, a confirmação do seu alto valor de artista, e ao qual imprimiu a sua técnica e a sua observação que dão à figura do modelo, Sr. Granado, verdadeira palpitação de vida.

O outro trabalho é o “Arrependimento de St. Hubert”, o belo bronze da senhorinha Josephina de Vasconcellos, de cuja personalidade se ocupou, largamente, este jornal há alguns dias, registrando seu talento de escultura, de poetisa e de musicista.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 14 ago. 1927, p. 10.

Ferramentas pessoais
sites relacionados