. NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 13 set. 1904, p.3. - Egba

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 13 set. 1904, p.3.

De Egba

'Exposição de Belas-Artes - Uma nota característica da atual exposição, nota muito agradável de observar e registrar, é o aparecimento de muitos artistas novos, de trabalhos reveladores de inquestionáveis qualidades de talento e de aplicação por parte de moços, uns alunos da Escola, outros de professores particulares, mas demonstrando todos o mesmo espírito de amor à arte, certo, desenvolvimento de cultura artística que surpreende agradavelmente.

É fora de dúvida que muitos desses trabalhos não são isentos de senões, de inexperiências; mas em quase todos se torna saliente o desejo sincero de estudar, de adiantar-se, de progredir, e esse estímulo, esse esforço de emulação constitui um bom sintoma.

Destes novos o que se apresenta com a obra mais importante, tanto pelo número como pela qualidade, é o Sr. Rodolpho Chambelland, que já se fizera notar na exposição do ano passado.

Expõe seis trabalhos, e naturalmente o que se impõe logo ao visitante é o de n. 50 Uma noite de espetáculo, que representa uma rua diante de um teatro, com carros parados e todo esse fervedouro de gente que se aglomera, que se move em noite de espetáculo. O assunto inquestionavelmente devia atrair um moço desejoso de impressionar o publico, e oferecia certos problemas de observação, de efeitos de luz e de movimento, próprios para deixar entrever os adiantamentos de técnica de um moço trabalhador.

A impressão que o quadro causa é, sem dúvida alguma, a mais agradável: é bem iluminado, é tratado com certa ousadia, tem bastante perspectiva, o agrupamento das pessoas é feito com arte, dando bem a sensação de movimento e revela certa facilidade de execução. É, todavia, pintado com chic e impressiona mais como sendo reprodução de uma cena passada em alguma cidade da Europa do que no Rio de Janeiro.

Os seus dois retratos são também muito bons, com os valores bem expressados e com certos efeitos de contrastes bem interessantes. Em ambos a pose tem certo ar e desenvoltura, e o mesmo recurso do chic.

Todos estes trabalhos são revelações positivas de um talento artístico não pequeno e mostram que se vai apoderando dos segredos da técnica da sua arte. A par de hesitações, há atrevimentos próprios da idade, mas que requerem ser bem governados para não redundarem em exceções que lhe possam ser mais tarde prejudiciais. Tem certa facilidade e largueza de execução; e procura efeitos que requerem, para sua justeza, observação aturada e própria.

Se os futuros trabalhos do Sr. Chambelland vierem confirmar as promessas contidas nos seus quadros deste ano, poderemos contar com mais um artista que honrará as tradições da casa onde aprendeu.

O Sr. Eduardo Bevilacqua, outro filho da nossa escola, que também já o ano passado se fizera notar, tem na exposição deste ano um retrato e três paisagens.

O retrato, em corte longitudinal, representa um moço assentado à sua mesa de trabalho, manuseando um livro. É um bom trabalho, pintado com certa franqueza, boa cor e regular desenho, e certa graça na pose.

A paisagem n. 34, um tanto original no corte, tem uma figura bem metida e é bem estudada.

É também um moço de talento, do qual há a esperar muito.

O Sr. Lucilio de Albuquerque, outro moço com inegável talento, enviou quatro trabalhos, todos de figura, dois a óleo e dois a pastel.

O retrato (n. 109) é um bom trabalho, e pintado com certo rigor. A figura tem expressão; a carnação bem feita, exigindo talvez mais cuidadoso tratamento no colo, em que a grande bóa de arminho lhe faz uma moldura muito vistosa.

A roupagem da qual o busto emerge donairosamente, é tratada com certa largueza, e o retrato, visto da distância própria, produz muito belo efeito.

Há certa delicadeza e garça nos dois pastéis e o pequeno quadro Adoração tem sentimento.

É uma família de artistas a do atual Diretor do Instituto Nacional de Música. Músico eminente, tem dois filhos que acabam de revelar, um em música e outro na pintura, aptidões artísticas não comuns. Este último, o Sr. Carlos Oswaldo, que tem na atual exposição diversos trabalhos de paisagem, é um artista dotado de sentimento poético. As suas duas paisagens (ns. 145 e 146) acusam muita firmeza de técnica e uma visão imaginosa. Dão-nos o céu, as águas, as relvas e as montanhas feitas com um toque delicadíssimo e em um ambiente acinzentado.

O Sr. José Monteiro da França tem uns estudos de figura, em que se notam execução desenvolta, boa cor, expressão e desenho.

O Sr. Jorge de Mendonça, na sua paisagem Pedra do Mirante, pintada com observação e estudo, revela incontestável progresso, e o Sr. J. Xavier tem duas paisagens, que são duas interessantes notas impressionistas.

A. Supparo é o nome de um artista francês, que não sabemos se é moço, mas que expõe um delicioso pastel, uma encantadora cabecinha feita com muita delicadeza.

Podemos aqui também falar de Augusto Luiz de Freitas, que já não é dos mais moços, mas que está trabalhando na Itália e mandou umas paisagens muito interessantes, com bom colorido, muita observação e bons estudos de efeito de luz.

Não gostamos tanto das suas aquarelas, em que há certa pobreza de cor.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 13 set. 1904, p.3.

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