. NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 13 set. 1903, p.3. - Egba

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 13 set. 1903, p.3.

De Egba

A quantidade de aquarelas na Exposição é bastante numerosa, mas o numero de seus expositores é apenas de sete.

São o Sr. Henrique Bernardelli e as duas irmãs senhoritas Anna [Anna Cunha Vasco] e Maria Cunha Vasco, que expõem o maior número desses trabalhos.

Quando se realizou a pequena Exposição da Associação dos Aquarelistas, mostramos qual nos parecia ser a maneira do Sr. H. Bernardelli. Os seus trabalhos na atual Exposição confirmam o que então dissemos. O seu estilo é sóbrio e harmônico; é tranquilo, mas atraente na sua serenidade. As suas paisagens, que procuram traduzir a expressão de certas horas menos brilhantes da Natureza, não chamam logo o olhar; mas, depois que este nelas se demora, possuem um encanto delicado, principalmente as suas vistas de Teresópolis, que trazem à memória dos que conhecem a pitoresca e aprazível cidade das montanhas, as recordações mais agradáveis.

As aquarelas das senhoritas Cunha Vasco, se não possuem a perfeição de desenho e a segurança de execução do artista consumado que é o Sr. H. Bernardelli, chamam logo a atenção pela sua cor garrida. Estas duas amadoras, discípulas de Benno Treidler, acusam incontestável progresso na maneira mais firme e mais ampla de manchar, e se bem que revelem ainda a influencia do professor, se nota tendência para tomarem direção própria e a predileção pela cor quente e rica, o amarelo e o vermelho, e luz brilhante e intensa.

Nos seus esboços de paisagens o efeito é de intensa e luminosa transparência. Nos estudos, porém, de interior, em que há bons efeitos de luz, esse gosto pelas tintas positivas transparece mais, em pequenos desenhos, que são evidentemente pintados com prazer.

O Sr. Amoedo apresenta, além dos trabalhos com que concorreu a Exposição dos Aquarelistas, um novo quadrinho - Embaraço - uma pequena figura desenhada com grande apuro, mas pintada com mais largueza do que os seus outros trabalhos no gênero, e impressionando agradavelmente, como quase tudo que sai do seu delicado pincel.

Gustavo Dall'Ara tem uma paisagem com as suas qualidades de colorista e o Sr. Alberto Childe quatro trabalhos que acusam a indecisão de quem tem andado arredio desse gênero de pintura.

Na seção de desenhos há em dois trabalhos do Sr. Elyseo Visconti, o emblema da Biblioteca Nacional e o Ex-Libris para a mesma.

Como tudo que faz o Sr. Visconti, esses desenhos têm um cunho artístico, tem propriedade para o fim a que se destinam e felicidade na escolha dos motivos. Os símbolos neles introduzidos acusam certa distinção no modo como são tratados e no seu caráter decorativo. Todas as suas linhas são feitas com grande firmeza de execução e produzem efeito vigoroso.

Com a barateza da fotogravura, que põe os ex-libris ao alcance, por assim dizer, de todos, seria de desejar que os possuidores de grandes bibliotecas tivessem os seus livros marcados por esses tão interessantes distintivos.

Das águas-fortes do Sr. M. Brocos, a que mais gostamos é o retrato do falecido Imperador, de um tratamento mais sóbrio do que as outras, muito fino de expressão e que tem grande caráter.

O retrato do Sr. Barão do Rio Branco também tem qualidades.

São dignas de louvor e animação a perseverança e a coragem com que o Sr. Brocos vai completando a galeria dos nossos homens ilustres e fazendo uma obra que o futuro saberá reconhecer agradecido.

O Sr. João Ricardi Cattaneo, um artista de merecimento, mas modesto, expõe três xilografias que tem qualidades de desenho e de observação.

Na seção de escultura, um sólido bronze de Rodolpho Bernardelli, um busto-retrato do Dr. Brissay, tratado com grande largueza e realismo; e uma interessante estátua em gesso, tamanho natural, Pescador, de Corrêa Lima. Bem estudada nas suas formas e no caráter do tipo que representa, tem expressão de movimento e merecia ser passada para o bronze.

Não nos agrada o Cupido da pensionista da Escola na Europa, a Sr. D. Julieta França.

Na seção de gravura de medalhas e pedras preciosas, o único expositor é, como sempre, o Sr. Augusto Girardet.

Os seus trabalhos salientam-se pela usual habilidade técnica e feliz composição.

Nesta seção há também uma preciosa coleção de medalhas, de artistas franceses na sua maioria, oferecida à Escola pelo Sr. Luiz de Rezende.

Estas medalhas serão assunto de uma notícia especial.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 13 set. 1903, p.3.

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