. NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 13-14 ago. 1928, p. 5. - Egba

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 13-14 ago. 1928, p. 5.

De Egba

SALÃO DE 1928 - O Palácio das Belas Artes esteve anteontem em festa com a abertura da XXXV exposição geral, que é em meios artísticos o que se convencionou chamar o “salão” oficial.

O “salão” de 1928 revela um fato auspicioso para a cultura nacional, desde que se tomem em consideração a concorrência e os valores dos trabalhos apresentados.

Ainda que se ponha de lado certo número de “peças” que lá se ostentam e que não nos parecem dignas de figurar numa mostra de arte, como as cópias de simples gravuras inexpressivas ou quadros que o júri de admissão deveria deixar de lado, pelo menos para não congestionar as salas nem prejudicar os bons trabalhos, ainda que postos de lado esses concorrentes, a exposição é apesar de tudo abundante e animadora.

Juntamente quando visitávamos as numerosas coleções do “salão” deparasse-nos, entre a multidão de que estavam repletas todas as dependências da Escola nacional de Belas Artes, onde nunca víramos tanta gente deparasse-nos a figura de mosqueteiro que tão vivo destaque dá à pessoa de Jorge Colaço. O ilustre artista, animador de cenas as mais belas, através dos seus “azulejos” e de sua cerâmica maravilhosa notava com as melhores expressões de sua alma aberta à animação da festa da arte brasileira e analisava os trabalhos, dedicando a alguns deles comentários amáveis.

Entretanto, nós que sabíamos das tendências de Colaço, na sua atual visita ao Brasil, pensamos em a revelia sua conduzi-lo a obras de caráter mais acentuadamente brasileiro. Foi pequena a nossa tarefa. A nossa pintura não tem ainda cunho nacional. Ela reflete-se e plasma-se na cultura europeia na França e na Itália, principalmente, e em seus processos quer se trate de “escolas”, quer se tenha em linha de conta a feitura e até a inspiração, são de feição europeia dominante.

Não chegaremos ao exagero doentio de pensar que só os símbolos nacionais são dignos de passar à tela. Mas ao lado das marinhas, das paisagens, dos “nus”, dos retratos, das composições de fantasia, muito assunto digno de ser pintado existe, dentro do cenário tropical, em certos tipos nossos e sobretudo nas nossas lendas, que são notas de vibração esplêndida para as paletas dos nossos artistas.

Deve-se repetir aqui: este reparo não exprime o desejo de só se ver pintado o “caboclo”, o caipira, o Pão de Açúcar, as florestas ou os frutos do país. Iríamos, se assim fosse, cair na mesma monotonia e teríamos dado atestado de pouca inteligência.

Mas, voltando à ordem de considerações que fazíamos, ao lado do artista português, pouco tivemos a mostrar-lhe, dentro do âmbito que parecia constituir objeto de suas pesquisas. Só encontráramos o trabalho de Theodoro Braga, “Bandeirante Antonio Raposo Tavares”, a “Feira Sertaneja”, de Balthazar Camara; “Sertanejo em desafio”, de Gonçalves de Souza e uma meia dúzia mais de quadros.

Deixando Jorge Collaço, prosseguimos na visita à exposição e muito abundante como ela se apresenta, embaraçados pela verdadeira multidão que acorreu à inauguração de ontem apertados por uns, interrompidos na nossa observação por outros. Logo se sente a impossibilidade em que nos encontramos de falar do “salão”, como expressão de arte.

Dela, evidentemente, nos ocuparemos em artigos sucessivos, pois que a obra exposta é grande e merece o registro a que faz jus pelas manifestações ali demonstradas de talento e do ingentíssimo trabalho da atual geração artística brasileira ou residente no Brasil.

O catálogo é longo. Acusa, para a pintura, nada menos de 426 telas; para a escultura 65 “peças”; na gravura de medalhas e pedras preciosas, litografias, arquitetura e arte aplicada, 89 peças.

Estes números dão ideia do que é a exposição e justificam a falta de uma apreciação em torno dos principais trabalhos como temos feito sempre e como faremos em outros artigos.

Nem de outro modo poderá ser. Todavia é ainda digno de nota mencionar o número de concorrentes aos prêmios de viagem que este ano são: Cadmo Fausto, Candido Portinari; Edith de Aguiar, Euclides Fonseca, Gastão Formonti [sic], Gilda Moreira, João de Azevedo, M. Constantino, Manoel Faria, Orlando Teruz, Orozio Belém, Sarah Villela de Figueiredo.

Estes expositores ocupam uma sala especial e em torno de seus trabalhos reuniram-se as atenções gerais.

À inauguração do “salão” compareceu o Sr. Ministro da Justiça e representante [sic] das altas autoridades da república.

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A comissão organizadora do “Salão” como nos anos anteriores, a fim de facilitar a visita do público àquele certame, resolveu que o mesmo permanecesse aberto à noite, das 19 às 22 horas, durante a semana corrente.

Por deliberação da Diretoria da Escola, tanto o “Salão”, como a Pinacoteca, estarão abertos das 12 às 17 horas, diariamente, menos a Pinacoteca, que às segundas-feiras, permanecerá fechada para limpeza.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 13-14 ago. 1928, p. 5.

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