. NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 12 set. 1902, p.3. - Egba

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 12 set. 1902, p.3.

De Egba

Exposição Geral de Belas-Artes - Da seção de pintura resta-nos apenas falar das paisagens.

O Sr. Souza Pinto enviou de Paris uma - Vascas [sic] bebendo em um trecho do rio Tua -, em que se notam os seus estudos de luz refletida, com o fundo magnificamente iluminado, mas com o primeiro plano tratado com certas durezas; e uma marinha - Um trecho do rio Douro, perto da cidade do Porto -. Desta última gostamos mais pelo excelente tratamento das águas; mas, afigura-se-nos que a linha do horizonte tem qualquer defeito que dá a impressão de um desequilíbrio no nível das águas, que a princípio tomamos como o efeito da vazante da maré. Ambos os quadros são pintados com a maestria de técnica, a simplicidade de fatura e os brilhantes efeitos peculiares ao exímio artista, mas os quadros expostos não são os melhores que ele nos tem enviado.

O Sr. Henrique Bernardelli tem uma série de vistas a óleo e à aquarela, impressões da cidade de Diamantina, estudos feitos no local na viagem por ele empreendido ao Estado de Minas, no ano decorrido. Todos esse trabalhos, a par da sua superior técnica em ambos os veículos que empregou, possuem bem o caráter local, denotam grande observação e efeito pitoresco, se bem que por vezes um tanto frio. O quadro Um serviço diamantífero (42), bem estudado e bem tratado, pinta, com muita felicidade, o processo da lavagem das areias diamantíferas à beira do rio.

O Sr. João Baptista da Costa, o artista que melhor sabe ver a nossa natureza, tem quatro trabalhos que se distinguem por uma boa interpretação da paisagem, fiel e verdadeira, principalmente do nosso verde. Sente-se neles o alfombrado da relva, a umidade de que está ela impregnada, o cheiro acre e penetrante das matas, e a impressão que eles nos causam é profunda e comocional. São das coisas melhores da Exposição.

O Sr. Aurelio de Figueiredo manda quatro quadros em que trai a sua natureza de poeta. São todos de impressão boa, suavemente enternecedora. O primeiro plano é relativamente pouco tratado, mas os fundos são belos, com a luz difusamente espalhada, bem iluminados, produzindo o mais agradável efeito a espécie de véu diáfano e transparente do que envolve toda a paisagem.

O Sr. Gustavo Dall'ara envia duas paisagens feitas nos arrabaldes desta Capital. Dos seus dois quadros, gostamos mais do n.77, Chácara Magalhães Castro - ambos revelam a mesma sinceridade de percepção. O quadro acima indicado é um belo estudo de um dia luminoso e intenso de sol. Todos os planos muito trabalhados e bem desenvolvidos tomam as suas distâncias verdadeiras e dão ao quadro singular largueza de horizonte. A paisagem tem ar, tem ambiente, tem luz muito intensa e produz impressão agradabilíssima, apesar de um vizinho que de algum modo lhe prejudica o efeito. Talvez se possa reparar um demasiado abuso dos azuis nas sombras e nos contrastes.

No n.79 - Hospital do Exército em S. Francisco Xavier - dominam os corpos simétricos do edifício, mas os arredores deste, que são característicos, são pintados com igual sinceridade.

Do Sr. Modesto Brocos há duas visitas de Teresópolis, tiradas de pontos vizinhos do local denominado Barreira, na estrada que conduz aquela pitoresca e aprazível cidade. São feitas na hora melancólica e nostálgica do crepúsculo, e despertam certa sensação de tristeza e de saudade, principalmente em quem tiver trazido recordações de dias felizes passados naquele delicioso recanto.

O Sr. Eugenio Latour ainda aqui dá mais uma amostra do seu talento e temperamento artístico. A sua paisagem (n.103), A tarde - é bem observada, muito quente e dá mais agradável impressão.

O Sr. Joaquim Insley Pacheco, o veterano artista tão apreciado, enche a exposição com uma numerosa contribuição de pequenos trabalhos a óleo e a gouache, mostrando que a idade não lhe arrefeceu o entusiasmo nem lhe quebrantou a atividade. São na sua maioria estudos dos arredores desta cidade em que a tendência de poetizar a paisagem se trai de modo sedutor, mas dos quais se destacam por vezes algumas impressos exatas e fiéis do natural.

Do saudoso Benjamin Parlagreco, um quadro - Vegetação brasileira (n. 190), na sua maneira e com a nota bem característica da nossa paisagem, e uns estudos de animais, nos quais mostrava que, se a morte não o houvesse arrebatado tão cedo, viria a ser um animalista notável. O quadro - Em demanda do curral (n. 196) - tem dois bois muito bem estudados, e no n. 197 - Estábulo -, se a vaca é demasiada bojuda, o bezerrinho é admirável de observação, e muito bem feito.

Do Sr. Benno Treidler, quatro luminosas aquarelas manchadas com aquela largueza, aquela segurança e simplicidade de toque que há muito o sagraram mestre incontestado nesse gênero. O Sr. Treidler é um estudioso e excelente transcritor dos admiráveis e surpreendentes efeitos da luz intensa dos nossos dias luminosos e sempre nos apresenta trabalhos que nunca deixam de interessar.

O Sr. Elisêo Visconti expõe umas manchas azuis de uma nota impressionista demasiado forçada, dando efeitos que talvez seja ele o único que os tenha observado assim. Isso nada destoa em um artista que apresenta uma obra tão valiosa no seu conjunto, e que nos deu as finas e admiráveis paisagens da sua Gioventú e das suas Oréadas.

O Sr. Weingartner enviou de Roma diversos quadros de paisagem italiana com figuras e animais. As paisagens são todas agradáveis, bem feitas, muito bem iluminadas e dando agradável impressão que este artista sempre desperta. Em algumas, como a - Ceifa em Autreoli [sic] (n. 264) - as figuras são bem feitas e no - Pousada (n. 266) - o fundo é bem pintado e com amplo horizonte.

Os bois que introduz nos seus quadros é que são muito mal desenhados e muito duros.

Devemos ainda notar uns pequenos estudos de paisagem a óleo e a gouache do Sr. Jorge de Mendonça, que pela primeira vez se apresenta nas nossas exposições e revela qualidades de observação e de interpretação; e dois pequenos quadrinhos de Felix Bernardelli, dois cartões de visitas enviados do México, duas excelentes impressões com característica cor local.

O Sr. Carlos Balliester tem-se ultimamente dedicado à pintura de marinha, para a qual parece ter gosto. Os seus trabalhos não desagradam, mas afigura-se-nos que são um tanto falsos de cor e frios de impressão. Como é um artista ainda moço, somos de opinião que ganharia muito com mais aturada observação de natural e maior cuidado no desenho. Tem um quadro de frutas - Carambolas e damascos portugueses - que é bem regular.

No número dos quadros de natureza morta devemos ainda notar: umas excelentes - Rosas (n. 54) - do Sr. João Baptista da Costa; umas - flores - vigorosamente pintadas, de D. Julia Naegeli; - umas Cebolas, - excelentemente pintadas, do Sr. Nilo de Paula e as frutas do Sr. Petit.

O Sr. Antonio Valle expôs apenas um desenho à pena, retrato do próprio artista, que é de uma acabada perfeição de técnica.

O Sr. Valle tem feito deste gênero de trabalho uma especialidade em que não tem quem o exceda; e pela semelhança que sabe dar aos retratados, unida à correção do desenho e grande transparência, faz verdadeiros primores sendo de admirar que não sejam mais numerosos os retratos nesse gênero, de preferência às ampliações fotográficas, tão geralmente preferidas entre nós, mas que não tem o mesmo valor artístico.

É de surpreender que o Sr. Valle nunca tenha tentado fazer gravura à água-forte, parecendo-nos possuir uma técnica de desenho muito apropriada a esta especialidade.

Já que falamos em água-forte, tratemos já dos quatro belos retratos expostos pelo Sr. Modesto Brocos. Mais de uma vez temos posto em evidência nessas colunas a apreciação que temos dessas suas obras. Dos retratos expostos, o que preferimos é o do Sr. Dr. Martins Junior, de maior transparência. O retrato do ilustre Professor Rodolpho Bernardelli é excelente, de desenho e de expressão, mas algo [...]

[…] dignos dos melhores encômios e constituem exemplo que merecia ser seguido por outros artistas.

Também merece palavras de louvor e encorajamento, pelos seus excelentes modelos de xilografia, o talentoso artista Sr. João Ricardi Cattaneo.

A seção de escultura compreende exclusivamente sete trabalhos do jovem artista José Octavio Corrêa Lima, recém-chegado da Europa, onde esteve dois anos em virtude do prêmio de viagem que alcançou na Exposição Geral de 1899.

Já o ano passado, com os trabalhos que enviou de Roma, deu provas de grandes estudos e progresso; e os trabalhos que tem na atual exposição, confirmam a impressão, então, produzida, de ser um moço de grande talento e que, se prosseguir com o mesmo afinco ao trabalho, há de dar um escultor que honrará a pátria. Para isso será necessário que da sua parte haja o esforço entusiástico, a perseverança no estudo que deve ter todo e verdadeiro artista; mas também será imprescindível que receba ele a proteção dos que possuem meios de fortuna e principalmente do Governo, sem a qual não poderá ele empreender obras em que possa pôr em contribuição toda a sua faculdade criadora e os fatores de técnica já adquiridos.

A escultura não tem ainda entre nós a apreciação que merece, porque demanda uma educação artística mais aprimorada, privada da atração e do enlevo que dá a cor. Na escultura, a forma não tem a cor, a atmosfera e o tom que constituem os elementos encantadores da pintura. Esta é uma arte de ilusão; a escultura depende rigorosamente da concepção e da combinação das linhas e das formas. É uma arte que nas suas mais elevadas manifestações, deve ser casta, severa e grave, e como é vista por todas as suas partes, precisa de agradar ao espectador de todos os pontos de vista, sendo que no caso de grupos, as dificuldades aumentam de força complicativa. Assim considerando, não se pode deixar de apreciar com entusiasmo os trabalhos do Sr. Correia Lima este ano. Destes destaca-se, pelo elevado valor da concepção, o gesso em tamanho natural denominado Mater Dolorosa, que representa uma angustiosa mãe debruçada sobre o cadáver do filho. Este grupo, belo nas suas proporções e nas suas linhas, significativo na sua forma e na sua posição, é uma admirável composição tanto pela ideia simbolizada como pela expressão do todo, e pela singular beleza das figuras, principalmente a da mulher que é muito bem modelada e sentida.

Talvez na saliência demais proeminente das extremidades do filho morto haja uma quebra na harmonia da composição, mas isto mesmo constitui um elemento de vitalidade e mostra que o jovem artista já se vai libertando de preceitos acadêmicos e se esforçando por afirmar a sua individualidade. É, em suma, uma bela obra tanto em primor de execução como em largueza de sentimento, e mereceria que o Governo, que tem elementos para isso na verba com que foram adquiridos ultimamente objetos de arte para a nossa galeria de belas-artes, comprasse esse grupo ao jovem artista e o mandasse executar em mármore. Sobre adquirir uma das mais admiráveis obras produzidas ultimamente por artista nacional, constituiria isso um grande auxílio para o desenvolvimento de um talento fadado a honrar a pátria brasileira. Esse ato seria um padrão de benemerência que aureolaria os nomes dos Srs. Presidente da República e Ministro do Interior e interino da Fazenda, do qual os pósteros lhes seriam gratos.

Os outros trabalhos do Sr. Corrêa Lima não são menos merecedores de exame e atraem todos pela sua força de expressão. O busto em mármore - Visionária - (7), é gracioso e suave de linhas, de um caráter delicadamente traduzido, com um sentimento de forma bem sugerido.

A Cabeça de menina, em terracota, é de grande ingenuidade de expressão. E as pequenas estatuetas de bronze, talvez mais esboçadas do que minuciosamente acabadas, são interessantes no modelado sugestivo e cheias de vitalidade e de caráter pitoresco. O Dueto (3) é uma figura arcaica, muito graciosa na sua intenção e finamente executada. Mas, dessas estatuetas de bronze, a que preferimos é a Eterna luta (5), de um realismo imaginativo, se assim se pode dizer. Aqui o escultor, não tendo o nu para interessá-lo, fez do movimento o motivo principal do seu trabalho. Tem força e naturalidade na postura e certa nobreza sugestiva das figuras de Jean François Millet.

O Sr. Corrêa Lima possui grandes qualidades de desenho e mesmo como modelador já é notável a sua perícia; e de que não lhe falta a faculdade de concepção tem dado já provas exuberantes; é um artista cujo futuro deve ser acompanhado com atenção.

Da escultura para a gravura de medalhas e pedras preciosas a transição não é muito grande. A arte do medalhista não é também ainda bem apreciada aqui. Poucos compreendem que uma bela medalha não é simplesmente um medalhão comum em miniatura, mas uma modificação de escultura em que os planos devem dizer mais do que as luzes e as sombras. E atualmente só na França é que esta arte, que Vasari dizia ser o elo entre a escultura e a pintura, tem atingido a elevado grau de perfeição.

A atual Exposição só um artista se fez representar: o Sr. Augusto Girardet, que é um mestre incontestado no seu métier, um verdadeiro artista que alia a uma perfeição de técnica uma delicadeza e sentimento artístico que só uma vocação especial e completa educação profissional podem dar.

Os seus projetos de medalha a Santos Dumont, a Vittorio Emmanuele e para o Instituto de Proteção à Infância são de excelente concepção, e o retrato de Vittorio Emmanuele e a Cabeça (13), de um grande primor de execução.

Muito finos e finamente esculpidos os dois retratos, e o grupo do monumento a Pedro Álvares Cabral, de Rodolpho Bernardelli, todos gravados em ágata.

O Sr. Girardet é um artista que em todas as exposições faz figura notável, sendo tanto mais de estranhar que a sua fina arte não tenha muitos amadores que a saibam apreciar.

A seção de arte aplicada é quase toda preenchida com trabalhos do Sr. Visconti. São desenhos aquarelados, para vidraçarias, para esmaltes, para panos impressos, para tecidos, para entalhes em madeira, para cerâmica, para porcelana, para ladrilhos, para lâmpadas elétricas, para marchetaria, para papéis pintados, para rendas, projetos para selos, etc., que todos ou quase todos figuraram na sua Exposição o ano passado, e dos quais então falamos minuciosamente.

O Sr. Visconti em tudo quanto fez sempre se revela um artista fino e isso se evidencia dos seus trabalhos nessa seção. Há uma coisa, porém, que convém salientar: é que em todos esses desenhos mostra ele que conhece a técnica como devem ser trabalhadas as matérias especiais respectivas a que eles se destinam, É pena que ainda não pudesse levar a efeito nenhum desses projetos, quando, pelo menos, os desenhos dos selos e os para papéis pintados já poderiam ter tido realização. Numa cidade em que já há tantas fabricas de papéis pintados, é realmente de surpreender que ainda se limitem à reprodução ou à imitação do que se faz na Europa, quando poderiam aproveitar as aptidões decorativas de artistas como o Sr. Visconti e outros. Produziram, com certeza, obras que teriam certo cunho de originalidade e de caráter nacional.

São também interessantes os trabalhos de pirogravura da Sra. Juliette Wencelins.

Na seção de arquitetura apenas três expositores.

O Sr. Ludovico Berna apresenta um estudo para projeto de edifício destinado a uma escola de direito, compreendendo os desenhos da “fachada principal, a planta do pavimento térreo e perspectiva do saguão de honra”, em que se acusa o savoir-faire do professor de arquitetura da Escola de Belas-Artes.

O Sr. Victor Dubugras mandou três desenhos (vestíbulo, rez-de-chão e pavimento alto) da opulenta casa que está construindo em S. Paulo, para o Dr. Flavio Uchôa; mas, que não aumenta a boa impressão da sua exposição o ano passado.

O Sr. J. C. Van Dorser, arquiteto holandês, residente em Paris, mandou, a convite do Sr. Ludovico Berna, três desenhos - Fachada principal do projeto para uma escola primária, que obteve o primeiro prêmio em um concurso, e foi construída em Paris, e desenhos de chaminé monumental construída em Bruxelas (estudo de conjunto e detalhe da construção).

Os seus trabalhos revelam um artista notável e com o seu exame muito terão a ganhar os alunos dessa especialidade.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 12 set. 1902, p.3.

Ferramentas pessoais
sites relacionados