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NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 12 ago. 1916, p.6.

De Egba

EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES - Inaugura-se hoje, dia que completa o centenário do início do ensino das belas artes no Brasil, a exposição geral do corrente ano.

Por exceção as duas cerimônias do vernissage e da inauguração oficial realizam-se hoje mesmo, a primeira às 2 horas da tarde e a segunda às 8 horas da noite.

Tivemos ocasião de visitar ontem as salas do edifício da Escola, onde se realiza a exposição; e apesar da azáfama que ali reinava, a arrumação dos trabalhos expostos já ia adiantada bastante para se poder formar ideia aproximada do que será o certame deste ano.

A impressão geral é boa e agradável. O número de expositores é bastante grande, na sua maioria de artistas novos e que comparecem pela primeira vez no nosso salão.

Dos velhos mestres só apareceu João Baptista da Costa, o atual Diretor da Escola - com meia dúzia de paisagens na sua fatura características e interessantes, como são todos os trabalhos que saem do seu provecto pincel.

Rodolpho Bernadelli, Rodolpho Amoedo, Henrique Bernadelli, Corrêa Lima, não enviaram nenhum trabalho; deixaram inteiramente o campo aos seus discípulos, e aos nóveis artistas.

Vieram muitas obras de artistas residentes nos Estados, e cumpre desde já salientar que fazem boa figura na Exposição os representantes de S. Paulo

Na rápida visita que fizemos não pudemos, como era de esperar notar todos os trabalhos de merecimento ali reunidos. Mais de espaço trataremos circunstanciadamente das principais obras; mas não queremos furtar-nos ao prazer de citar algumas que logo de pronto solicitaram a nossa atenção.

Quem entra no salão principal tem logo os olhares atraídos para uma grande tela que ocupa quase toda a parede do fundo da sala. É uma grande composição - a maior da Exposição - do pincel do Sr. Lucilio de Albuquerque, representando um episódio da vida de Garibaldi [Imagem].

Outro quadro que também chama a atenção pelas suas proporções e brilho da tinta dominante é o retrato de S. Eminência o Sr. Cardeal Arcoverde, pelo jovem artista Rodolpho Chambelland. Este retrato já esteve exposto em outro lugar e já tivemos ocasião de a ele nos referir aqui mais minuciosamente.

Os outros trabalhos que nos impressionaram agradavelmente são: quatro autorretratos de um artista que se assina Ziliani, com efeitos de reflexos de luz interessantes; um quadro com uma mulher moça, sentada junto a uma mesa, com uma carta na mão e em atitude pensativa [Imagem], do Sr. M. Campão; um retrato ao ar livre, assinado por [...], um retrato de uma moça vestida de preto e uma paisagem-panorama, do Sr. H. Cavaleiro; um quadro - desastre em uma [...] - composição com figuras, largamente feita, assinado A. Rocco; uma série de aquarelas, feitas com a técnica de um proficiente nessa especialidade, assinadas P. Colom; uma excelente cabeça de preta, pelo Sr. Argemiro Cunha, etc.

Na seção de desenhos notamos três trabalhos, feitos com a proficiência que há muito o torna conhecido, do velho mestre Valle [Antonio Alves do Valle de Souza Pinto], uma série de iluminuras a cores, para um livro de versos do Sr. Gustavo Barroso, por um artista português e recentemente entre nós, o Sr. Corrêa Dias.

Na seção de esculturas e medalhas, é de obrigação salientar logo o original da medalha feita por Augusto Girardet, pra recordar o centenário que hoje se comemora.

No verso tem duas figuras principais - os retratos de D. João VI e do Sr. Wencesláo Braz - em cima três figuras, representando a pintura, a escultura e a arquitetura, e com os dizeres Escola Nacional de Belas Artes - 1º Centenário do Ensino Oficial no Brasil.

No reverso: figura de um gênio alado, empunhando um facho - a vista da baía do Rio de Janeiro, com os navios que trouxeram os artistas que vieram fundar a Escola, e em baixo, no primeiro plano, figuras representando as classes que atualmente as cultivam. Em torno, a seguinte legenda em latim, composta pelo Sr. Barão de Ramiz - Priora revoco et prasens immortale reddo.

Uma série de plaquettes de muito valor artístico, do Sr. Adalberto de Mattos; um busto de gesso, de uma mulher moça, ouvindo com muita expressão, do Sr. Antonio [sic] de Mattos [Antonino Mattos]; um busto em mármore, tamanho maior do que o natural, representando a República, e muito bem trabalhado, da Sra. Nicolina de Assis.

São em grande cópia os trabalhos desta seção.

Na seção de cortes aplicados [sic], há três vitrines de interessantes trabalhos em couro, bordados, porcelanas, etc., da conhecida professora Sra. D. Joanna Brandt.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição Natalia Mano Goulart Saraiva

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 12 ago. 1916, p.6.

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