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NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, 13 ago. 1930, p. 13.

De Egba

O “SALÃO” DE 1930 - Está aberto à curiosidade pública e ao estudo dos que se interessam pela nossa vida artística, o “Salão” de 1930, designação mais ou menos francesa, que resume a XXXVII Exposição Geral de Belas Artes. Posto que menos abundante em trabalhos de pintura, em comparação com os últimos três anos, a exposição de agora não deixa de estar animada com alguns valores artísticos de mérito. Entre a gente que a ela comparece, nota-se o mesmo fogo sagrado, que as humanas esperanças alimentam entre sonhos de glória...

O número mais reduzido de trabalhos não indica, evidentemente, menor operosidade dos nossos artistas, ele se explica, de um lado pelas dificuldades materiais em que vivem esses grandes e abnegados sonhadores e, do outro lado, pelo critério adotado pela escola de evitar o congestionamento das paredes, para o que foi necessário pôr em prática certo rigor na aceitação das obras enviadas à exposição. Aproveitam, com a medida, os artistas e o público. Aqueles pela possibilidade que se lhes oferece de cuidar mais dos seus trabalhos, com o critério da qualidade e não do número, como sucede alguns artistas, aliás, de renome, em vias de degenerescência artística, e o público aproveita também pela maior facilidade que terá de ver tudo quanto se expõe, sem a confusão inevitável, determinada pela pletora das peças exibidas.

O ato inaugural do “Salão” teve o fatal aspecto das inaugurações oficiais: as autoridades superiores do Estado: - Presidente da República, ou seu representante; ministros, nas pessoas dos Srs. Vianna do Castello, Lyra Castro e Victor Konder; funcionários esperando suas excelências à porta, artistas em torno, jornalistas, flores e festões, muitas senhoras, música de bandas militares, animação geral.

Foi, no meio de um público numeroso que se acotovelava em visita aos trabalhos, sob a impressão dos comentários mais dispares, contraditórios e alguns de uma banalidade infeliz, que penetramos nas salas de exposição onde se alinham 223 trabalhos de pintura, 56 de escultura, 195 de gravura de medalhas e pedras preciosas, 18 de arquitetura, 6 de gravura e litografia e 40 de artes aplicadas.

Está visto que não é possível a ninguém, num espaço curtíssimo de tempo, e num meio de gente tão numerosa, que se entrecruza, dar uma impressão, ainda que geral, da exposição. Entretanto, o quanto é possível, em tais circunstâncias, ficaram-nos, da visita de ontem algumas impressões que aqui registramos à vol d'oiseau.

E foi assim que, obedecendo à ordem do Catálogo - por sinal que um catálogo muito bem organizado - deparam-se-nos a “Tarde de Sol” de Archimedes Dutra, bem iluminada; “Os Tarrafeiros”, de Cadmo Fausto, candidato do Prêmio de Viagem, - trabalho bem lançado, cheio de movimento; e “Veronica”, de Carlos Oswaldo. É sempre agradável ver os trabalhos do Sr. Carlos Oswaldo, cuja técnica e talento se reafirmam em todas as suas telas. A “Veronica”, de sua autoria, é a própria dor, na expressão da figura em cujo olhar há como que um mundo de sofrimentos. Que tenalidade [sic] na figura, nos seus cabelos, nas sombras que as mãos projetam! É um inspirado, é um técnico, é um colorista. E, continuando a visita, encontramos o “Matinal” de Edgard Pareiras [sic], uma composição de grande vida, e encontramos também a “Manhã” de Francisco Manna, artista que reúne todas as qualidades de uma técnica perfeita em que se traduz o seu poder sugestivo, na sua luz, cheia de transparências magníficas, no “seu” céu vivido, na beleza de suas composições, na realidade das “suas” perspectivas. José dos Santos ilustra as paredes com três trabalhos de valor em que sobressaem “Igreja S. Francisco de Assis, de Ouro Preto” (interior e exterior) e vem Levino Fanzeres, com uma série de pequenas telas palpitantes de verdades brasileiras. Como concorrente ao Prêmio de Viagem, comparece também Manoel Faria, um dos mais trabalhadores dos nossos artistas. O seu “Pico do Andaraí” é uma tela sentida, rica no seu colorido da qual emana uma sinfonia de cores e valores técnicos que dão alto destaque à composição, cheia de luz e vida. Oswaldo Teixeira não é o mesmo gigante da pintura, prejudicado como anda pelo excesso de produtividade. O “Retrato da Sra. Karia Elckhoff” em que se sente, de passagem, o seu talento, não é, entretanto, a obra completa dos seus primeiros tempos. A posição difícil em que colocou o modelo, dando a perna esquerda uma posição prejudicial ao efeito do conjunto ou da harmonia do conjunto, provoca impressão de mal estar, pelo exagero do tamanho dessa mesma perna. Felizmente o “Retrato da Sra. E. J.” vem afastar as restrições que a obra apressada do Sr. Oswaldo Teixeira sugere. No galgo, pela sua execução, na figura do modelo, pela expressão e nos detalhes, reafirmam-se, de novo, o artista em quem ainda repousam as esperanças, do nosso meio, de vê-lo na posição que conquistou com o seu talento e a sua técnica. Augusto Luiz de Freitas apresenta três pequenas telas em que transparecem o seu poder evocativo e as qualidades de observação, servindo pela sua técnica que lhe assegura o êxito de composições felizes, inspiradas, geralmente, em paisagens europeias.

Continuando a nossa peregrinação, encontramos o “Morro de Geribá”, de Paula Fonseca. É um trabalho cheio de vida, de uma luz esplêndida, com um fundo rico de emoções pela verdade de suas tintas, pela sinfonia das cores, num conjunto de relevos soberbos. A nota faceta [sic], surge com os trabalhos de Raul Pederneiras, no “Morro da Glória”, no “Cristo e a Adúltera” e na “Árvore de Natal”. Este (caricatura a óleo) e uma tirada do espírito observador do nosso ilustre caricaturista, como é também o “Cristo”. Mas a “Árvore de Natal” é uma feliz alusão aos indivíduos que vivem curvados ao peso das condecorações, tais como a planta simbólica verga ao peso de mil e uma bugigangas. Encontramos a seguir, a “Paisagem Carioca”, de Príncipe Paulo Gagarin, que, a cada dia mais se aproxima da natureza brasileira, através do seu temperamento emotivo.

Com a maestria de sempre Sarah de Figueiredo apresenta três trabalhos, entre os quais o “Auto-retrato”, mostra os magníficos recursos da técnica e da observação acurados da distinta artista. O patriotismo e a predileção do Sr. Theodoro Braga sugerem-lhe a tela “Anhanguera”, inspirado na época seiscentista e na qual o artista, ainda que sem os arroubos dos trabalhos anteriores, dá mostras do seu poder evocador e da sua técnica.

A “Cabeça de Moça” do Sr. Orlando Teruz, que concorre ao Prêmio de Viagem, é um trabalho de alto valor, pela vida, pela técnica e pelos efeitos obtidos da pintura.

Retirou-se o cronista da última sala de pintura, em direção a de escultura... Era tarde. Apenas o tempo de repousar os olhos sobre a “Tentação” do Sr. Armando Braga que é o artista inspirado de sempre, de concepções arrojadas e dele passamos a contemplar com ternura, os “Meus desvelos”, de Magalhães Corrêa, um mimo de graça e uma perfeição na execução.

A luz começava a faltar e a sala mergulhava em penumbra. Abandonamos o recinto onde voltaremos para a impressão do que vimos, e do que ainda não nos foi possível ver nos outros departamentos da arte. E falta tanta coisa...

Está visto que aqui se não alude aos velhos mestres, Parreiras [Antonio Parreiras], Visconte [sic] , Amoedo, que pelos seus nomes, bem dispensam as referências ligeiras que nos consideramos dispensados de emitir.

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OS PREMIADOS DE 1929 - Na tarde de ontem, depois da inauguração do “Salão”, realizou-se, na Escola de Belas Artes, a cerimônia da entrega dos diplomas e medalhas aos expositores premiados no Salão de 1929.

O ato foi presidido pelo reitor da Universidade do Rio de Janeiro, Dr. Manoel Cicero, fazendo parte da mesa que dirigiu os trabalhos, o Professor Corrêa Lima, diretor da Escola de Belas Artes, o Comandante Braz Velloso, representante do Sr. Presidente da República, o Professor Pedro do Couto, diretor do Pedro II, e os membros do Conselho Supremo. O Sr. Flexa Ribeiro, fez ligeira alocução referente ao ato, saudando os alunos distinguidos.

Esteve presente à cerimônia seleta assistência.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, 13 ago. 1930, p. 13.

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