. NETTO, Coelho. IMPRESSÃO DE ARTE. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 28 ago. 1921, p.4. - Egba

NETTO, Coelho. IMPRESSÃO DE ARTE. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 28 ago. 1921, p.4.

De Egba

Fosse a Arte, como querem alguns, a simples imitação da natureza do que ela tem de exterior ou aparente e toda a obra dos mestres da pintura teria sossobrado no dia em que Niepce, valendo-se dos raios do sol, inventou a fotografia.

A cópia é um serviço.

O copista executa a obediência passiva com que um escravo cumpre uma tarefa, transportando, com mais ou menos cuidado e habilidade, o que se lhe põe ante os olhos.

Das faculdade uma só lhe é necessária e essa é, justamente, a da obediência - a atenção.

O que dá vida, beleza, eternidade à Arte não é o contorno, senão o que dentro dele lateja, como a mesma vida vibra na flor ou em um raio de sol.

Homens há que meditam longamente um discurso, esboçam-no, lançam-lhe as partes com as regras de retórica, joeiram escrupulosamente os termos, escolhem as imagens, pulem, repulem a frase e ainda lhe revêem trechos desbastando aqui, acrescentando além, repassam-no e tendo-o, enfim, por perfeito, decoram-no.

Fixado, que o tenham, na memória, passam a adorná-lo para o efeito da tribuna - é o gesto que ensaiam, é o olhar que acendem, é a voz que modulam, é a ênfase com que o levantam e, por último, o lanço dramático de peroração com que vão certos de prender e dominar o auditório.

Chega a hora da prova. Ei-los com a lição, dizem-na, ouvem-na todos atentos, mas frios, acham-na bem feita, aplaudem-na.

Eis, porém, que outro na assembleia se levanta, enérgico. Assume a tribuna, encara d'alto, o auditório, apruma o busto e, com entono de dominador, começa.

É uma indisciplina que dardeja raios.

Logo de entrada o seu poder impõe-se: não há fugir-lhe.

As palavras vivem como lavas que rebentam de um vulcão, explodem e alumiam, trazem em si mesmas a força e o fulgor; não são como brasas de forja que só levantam labaredas à força de sopradas.

Há nelas o que nas outras falta - alma, vigor; essa irradiação que se transmite, como a claridade, e que nos revela arcanos, que nos esclarece com esse prestígio intelectual que se chama - a sugestão.

O orador que recita é como o bufarinheiro que traz as suas preciosidades enfardeladas e as vai mostrando, uma a uma, todas ricas, formosas, mas com as etiquetas do fábrico.

O Improvisador, esse é como o gênio das lendas, espírito criador que, desde logo, surpreende pelos imprevistos.

Um requinta no bem fazer, sem preocupar-se com o que, em verdade, deve ser e é sempre o principal, a essência; outro faz como a natureza nas suas erupções - dá a vida, a força, a beleza tal qual é e isso é que o torna sobrenatural, destacando-o do comum dos homens, impondo-o como um criador.

Não é o timbre da palavra que comove e arrebata, mas o espírito da frase e esse espírito deve existir em tudo, ele é que é a eloquência que nos arremata na facundia do orador, que nos fascina nas telas, que nos fala das esculturas, que é a voz alta que rompe dos monumentos em expressão olímpica e voa nas ondas das sinfonias cantando como Ariel no Éter.

Pintar não é só dar cor a um contorno; esculpir não é apenas talhar a pedra ou plasmar o barro - e Deus assim nô-lo deixou demonstrado quando, depois de apolegar na terra a forma humana, nela infundiu em sopro de ânimo, o próprio espírito. O templo e a casa não se limitam ao chão e ao teto e a música só nos comove quando há nela poesia, que é alma.

O que se pede à Arte, que é sempre uma síntese de Beleza é o que na Beleza é a essência do divino - a vida, não no que ela tem de material, que é a representação, mas no que ela tem de expressivo, de imaterial, e que se transmite como a claridade - a sugestão.

Assim como a luz, ao abrir-se, mostra-nos na paisagem recantos de beleza, trechos admiráveis que a penumbra escondia, assim a sugestão desperta em nossa alma comoções de enlevo nunca sentidas e até opera prodígios provocando surtos de ideias, inspirando-nos pensamentos novos, arrombando-nos em sonhos e devaneios.

Esse prestígio maravilhoso que nos toca o sentimento fazendo […] que se nos comunica em simpatia, forte como o amor, que, de improviso, nos vence, é Arte, o mais não passa de imitação artificiosa. O que eu procuro em uma exposição, de pintura - por exemplo, não é a cópia inexpressiva do que tenho cá fora na própria natureza, mas a interpretação dessa mesma natureza, a sua poesia, essa misteriosa “alma das coisas” de que falou o poeta.

Razão tinha o moço ateniense em desdenhar do homem que imitava o rouxinol, alegando, com indiferença, “já haver ouvido o pássaro”.

Certo, porém, outra seria a resposta do mancebo se o homem, em vez de anunciar-se como imitador prometesse, o que poderia fazer Siegfried, interpretar o canto da ave.

Lembrei-me deste caso na visita que fiz à exposição da Escola de Belas Artes, não aos velhos artistas, alguns dos quais ali figuram excelentemente, mas à contribuição com que concorreram os novos.

Deus do céu! É possível que a juventude desta terra tão cheia de luz, tão nova, ante a qual se extasiam todos os estrangeiros que a visitam e alguns até enamorados dos seus aspectos, nela se demorem tomando, às pressas, em sessões ao ar livre, flagrantes de luz, cortes de horizontes, carizes de céus, paisagens, tesouros apanhados como diamantes brutos à flor da terra que eles, mais tarde nos devolvem lapidados, só encontre banalidades para copiar?

Falta de sentimento ou de energia? indiferença ou incapacidade estética?

Não há ali uma sugestão, nada que nos fale à alma - cores, cores sobre lineamentos hesitantes e no fundo... o vazio.

Não atribuo a falta de talento, mas aquilo que alguém já disse, talvez com razão, ser mais do que o talento, ser “gênio” que é a força do querer, essa onipotência que se chama - vontade.

Porque não a hão de cultivar os meus jovens patrícios, aproveitando o modelo que Deus nos deu, maravilhoso em tudo, e pondo no que dele tirarem a poesia que todos nós temos n'alma e que o pincel traduz com tanta expressão como a pena? Não sei.

Francamente, se eu tivesse adivinhado que iria ver na exposição dos novos aqueles aspectos da nossa natureza, parodiaria o moço ateniense respondendo ao convite que me fizeram com estas palavras: “Já vi a natureza”.

Cópias daquelas amesquinham o modelo e fazem a gente descrer do futuro...

Eu, enfim, sou um homem cheio de esperanças e, apesar de tudo, espero, e muito, dos jovens artistas da minha Terra.

Coelho Netto.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

NETTO, Coelho. IMPRESSÃO DE ARTE. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 28 ago. 1921, p.4.

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