. NAVARRO, Saul de. A ARTE VIGOROSA DE O. TEIXEIRA. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 24 ago. 1924, p. 3. - Egba

NAVARRO, Saul de. A ARTE VIGOROSA DE O. TEIXEIRA. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 24 ago. 1924, p. 3.

De Egba

A arte, como expressão radiosa do espírito e transmissão divina da beleza, tem o dom de espelhar a força invisível do mistério, porque se nos apresenta com o mesmo poder maravilho da luz, que é o sangue luminoso que jorra do Universo...

Reflexos dos seres ou das coisas, a pintura representa o poder da luz dinamizada na cor, esboçando o sorriso celeste do espectro solar. Pintar não significa, no sentido estético, senão reunir, por um golpe de olhar, o que o nosso pensamento abrange ou decifra do espetáculo surpreendente de tudo quanto passa em nosso eu, seja uma visão da natureza, seja uma sombra, uma alma, ou um sonho, através das imagens que surgem de nossas sensações.

A revelação do titanismo na pintura brasileira deve consistir no esplendor de nossa potencialidade cósmica, vibrando na claridade e no colorido, ao sopro criador da Arte, de modo a ser uma expressão vigorosa do anseio de nosso meio físico e uma explosão luminosa do Infinito que sacode a terra e chega quase a anular o homem, quase a torná-lo homúnculo pelo excesso de grandeza, vendo-se acionado pelo turbilhão de selva, em meio de um estremecimento galvânico. Aqui a luz é tão forte e tão prodigiosa, que há, por vezes, efeitos capazes de produzir todos os caprichos óticos e de realizar todos os impossíveis da imaginação...

O pintor, que, por uma obediência ao desenho e aos preceitos acadêmicos, se subtrai a essa vertigem, cosmogônica, sugere o imenso ridículo de um cego a manejar um pincel. Em nossa arte, ainda presa ao ritualismo geométrico dos mestres exóticos e mumificados nos museus necrópoles do Belo, avulta a figura varonil de Pedro Américo, que, com uma centelha de gênio no cérebro, foi um titanista por intuição, vazando nas suas batalhas, fragorosas de colorido, e no surto sideral de suas alegorias, a pujança que esplende no Brasil e que ficou espiritualizada nas telas que assinou.

Depois dele, raramente aparecem esses assomos de visualismo titânico, esses traços físicos de nossa grandeza que se fluidificou em ritmos, cantando no verso cangloroso [sic] de Castro Alves, no estilo vulcânico de Euclydes da Cunha e no verbo altissonante de Ruy Barbosa.

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A arte vigorosa de Oswaldo Teixeira é uma tendência, ainda que vaga e algo vacilante, desse titanismo na pintura nacional. O jovem pintor, em pleno viço da adolescência, fixa com o clarão auroral de seu talento, o sonho magnífico da beleza, numa expressão vibrante e nervosa, dando, em pinceladas seguras, a afirmação de sua personalidade a libertar-se de influências estranhas e a transmitir a nossa visão o gozo inefável das emoções estéticas.

Os sete quadros, expostos no “Salon” deste ano, demonstram de sobejo o seu valor e tanto se sobressaem, que, sem exagero, superam as obras de outros artistas nacionais, cuja consagração oficial os exime, talvez, de maior esforço, ficando a cochilar sobre louros colhidos, numa deliciosa preguiça de lagartos ao sol...

Concorrendo, mais uma vez ao prêmio de viagem, que lhe tem sido clamorosamente negado, sob o risível pretexto de sua juventude esplendente e, quiçá, por uma pirraça bem indígena ao mérito autêntico, Oswaldo Teixeira comparece no júri com trabalhos sugestivos e pujantes, que despertam aos que vão contemplá-los a certeza do seu triunfo, que só lhe poderia deixar de ser reconhecido na hipótese absurda de se divorciar a justiça da beleza.

O novel artista é um predestinado. Criança assombrou quando surgiu com o seu primeiro quadro - “Velha beata”, transpondo vitoriosamente a nossa Escola. Depois de outras conquistas, logrou o êxito ruidoso que foi “O homem da rosa”, uma obra-prima, porque nesse admirável retrato de Roberto Gomes, exibiu a sua faculdade invulgar de figurista, transfundindo em luz o flagrante de uma alma e a dolorosa realidade de uma vida em toda a sua visão de esteta novo. É uma constelação de ritmos que se tornaram tons e perspectiva...

Vejamo-lo e apreciemo-lo.

“Carta da terra”, um quadro de grande dimensão e larga fatura, reproduz o interior de um lar, onde a família reunida ouve a leitura da missiva, vinda de Portugal, eco da pátria distante. Em conjunto, a impressão recebida se torna agradável. Em pormenor, detendo-se o nosso olhar em cada figura, cresce e caracteriza-se o mérito dessa composição vigorosa, embora deixe ainda alguma coisa para completá-la. Sendo forte, é o trabalho mais fraco pela exigência imposta pela sua desenvoltura, ou, talvez, porque o tema não encerre, por si mesmo, esse encanto e esse secreto e indefinível poder que envolvem as obras de arte, em que a vida e o mundo são beijados de mistério...

O “Retrato de Mme. A.R.” é outro quadro de mérito, onde o seu pincel consegue fixar a sombra luminosa de uma alma, tocando-a da graça dos tons e colorindo-a por um suavíssimo sortilégio de exímio exegeta do mistério, que nimba cada face, pondo em cada fisionomia humana um enigma palpitante.

Vimos, depois o “Pastor”, em que Oswaldo Teixeira vence as exigências da técnica, numa firmeza de toque magnífica, a exibir, naquele dorso nu, a beleza anatômica do corpo másculo, de rija carnação, modelado por um traço impecável, a dominar o primeiro plano, esgarçando-se, ao fundo, numa tonalidade fugitiva, em fluidez ambiente, um trecho ondulado de paisagem alpestre. Aquela soberba figura, colocada numa atitude assaz difícil, assoma em toda a sua força orgânica, parecendo obra de um mestre.

“Brindando” é uma tela animada pela jovialidade e dinâmica da cor. Um velho tipo senhoril de fidalgo ergue a taça finíssima e diáfano, contendo o vinho generoso, e tem nas feições radiantes de prazer báquico, a expressão feliz do entusiasmo, saudando alguém, na postura cavalheiresca de um nobre, como se o víssemos surgir de um quadro da escola flamenga. Segura um bandolim com a mão esquerda, descansando o instrumento sobre a mesa, onde um jarro de belo recorte, uma taça vazia, um cálice deitado e frutas - maças aveludadas de colorido e uvas de uma translucidez esmeralda - se espalham sob o alvo linho da toalha, aqui e ali, maculado pelo tom violáceo do vinho derramado. O chapéu de longas abas, quebrado ao meio, com um penacho de alvas plumas e o resto da indumentária ao sabor do tipo antigo, que revive, completam e aprimoram a execução desse lance pitoresco e galhardo.

Agora, uma paisagem esplêndida: o “Pescador”. É uma tela vigorosamente titanista pelo colorido nervoso e forte, pela exuberância da claridade e pela crispação do mar que se desfaz cantando, a sugar o lábio branco das praias... A figura sadia e bronca de homem do mar, com os apetrechos de pesca, sentado sobre a areia cariciosa, ostenta a energia anímica da saúde e o dinamismo psicológico da esperança a mostrar no rosto castigado de sol, que um amplo chapéu desabado não protege de todo, um sorriso animalesco de gozo intenso e panteísta.

Que riqueza de tons, de movimento e de luz zenital, numa glorificação máxima do sol e do mar, que se confundem e integram, numa simbiose voluptuosa de gigantes!...

Depois desse espetáculo titânico e de um impressionismo tropical, Oswaldo Teixeira, com a magia de seu pincel, ora violento e impetuoso, ora sutil e evocador de êxtases e sonhos, nos dá o contraste em “Recordando”, quadro emocional e ungido de espiritualidade e heroísmo, fundindo dois sentimentos opostos: a glória da espada e a exaltação simbólica da cruz. E esse vulto torturado e nostálgico do frade moço, que o pesado burel amortalha, surgindo o semblante sonhador e doloroso, com a auréola do misticismo, tem qualquer coisa de humano pelo sofrimento e de divino pelo calvário interior que se alça nesse olhar, onde a luz quase se faz lágrima... As mãos esguias e descarnadas, que se atraem pelo imã da angústia, afagando contra o peito o gládio, recordação e relíquia de um tempo extinto, - que renasce por um surto de saudade; essas mãos sofredoras e tentaculares, que se distendem como se acariciassem os lírios que se espiritualizam e lhe pungem o coração, desenham todo o martírio que exprime esse quadro esotérico e abismal. Onde exsurge o passado que relumbra e revive pelo prodígio da recordação...

O retrato, finalmente, do professor Petit [August Petit], de tamanho natural, saltando a figura do fundo negro, na sugestão ignota do claro-escuro, é magistral, uma obra rara no gênero tão vulgarizado e mercantilizado no Brasil, a lembrar aqueles prodigiosos retratos dos mestres da escola espanhola, mormente da arte estupenda de Goya, esse violador dos arcanos profundos da luz.

Oswaldo Teixeira, sem intenção e por um golpe de seu talento singularíssimo, retratou com um halo de inspiração, quem, no nosso meio, é o maior responsável pela calamidade do retrato a óleo, para gáudio da vaidade burguesa e delícia do academismo oficial, provando que a arte não pode ser um exercício da paciência e um negócio por atacado, mas a revelação de um espírito predestinado e eleito, o perfume da beleza que se desprende da flor de uma alma, ao ritmo e clarão da eternidade.

O venerável professor Petit, que envelheceu e se celebrizou na indústria rendosa dos retratos, passará a posteridade, paradoxalmente, famoso... pelo pincel robusto de Oswaldo Teixeira.

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Dar-lhe-ão o prêmio de viagem, este ano? Não podemos ter certeza. No Brasil, por uma inversão de valores e por carência lamentável de cultura, não é somente em política que os escândalos e as injustiças se perpetram impunemente, porquanto, no que concerne a estética, a mediocridade também triunfa, pela razão democrática do maior número.

Se o mérito valesse, se o talento fosse no nosso país uma condição de sucesso, Oswaldo Teixeira já teria não só realizado a sua viagem de recompensa, como teria também, dado a volta ao mundo.

A Escola de Belas Artes quase sempre concede o prêmio de viagem, como um passaporte para o outro mundo, aos verdadeiros artistas, e, como passeio gratuito, aos medíocres que desejam bocejar no Louvre e divertir-se em Montmarte.

Saul de Navarro


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

NAVARRO, Saul de. A ARTE VIGOROSA DE O. TEIXEIRA. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 24 ago. 1924, p. 3.

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