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MAURICIO, Virgilio. BELAS ARTES. O SALÃO DE 1923. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 19 ago. 1923, p.3.

De Egba

Edição feita às 14h12min de 16 de Abril de 2010 por Egba (Discussão | contribs)

Impressão geral - Os novos - Consagrados e veteranos - A contribuição feminina - As paisagens do Sr. Parreiras - Avulsos

Esta inaugurado o salão de 1923. A comissão diretora é composta de três membros: Raul Lessa de Saldanha da Gama; Rodolpho Chambelland e Petrus Verdie.

São membros do júri da seção de pintura os Srs. João Baptista da Costa, Lucilio de Albuquerque, Rodolpho Amoedo, Augusto José Marques Junior e Helios Seelinger.

Iniciemos a nossa visita.

Várias salas estão ocupadas pela seção de pintura, sendo que pintura, pastel, desenho, tudo está misturado, sem o menor senso estético. Assim é que vemos numa sala ao lado de uma pintura, um pastel, o que aliás demonstra a escassez de trabalhos que foram enviados ao salão.

O salão é pobre; e no conjunto medíocre. Quase não valeria a pena um estudo crítico. É insignificante demais. Não se encontra nenhuma revelação; nada de original guarnece as vastas paredes da exposição. Tudo é conhecido, repetido, igual ao que já temos visto e a impressão geral é que os nossos pintores estão cansados, não têm estímulo, nem coragem de trabalhar. Muitos não concorrem este ano ao salão; muitos se ausentaram da participação devido à política da Escola; em compensação, para preencher esta lacuna, o júri ou por benevolência, ou por não ter observado com devida atenção, aceitou uma série de trabalhos que surpreende pela mediocridade, pelos erros de desenho, pela inferioridade. Vê-se desde já, que em com [...], a XXX exposição geral é fraca, parecendo mais um certame de alunos que um salão anual de Belas Artes.

  • * *

O Sr. Flexa Ribeiro, logo após o vernissage, escreveu a sua crítica estampada em "O Paiz", merece ser lida pelo cunho de sinceridade. [...] justeza da apreciação, sendo que o escritor foi exigente demais [...] com a obra do Sr. Oswaldo Teixeira. É certo que numa exposição não se julga o autor e sim a obra; num certame não se deve saber se o expositor tem 19 anos, se estuda a pouco tempo, se é principiante. Nada disso. Num salão analisa-se o que se expõe sem considerações para com o autor, tendo por princípio único que a tela figura no salão e por conseguinte está sujeita à crítica. Ainda assim o Sr. Flexa ribeiro, demonstra a sua sinceridade e põe em evidência a sua independência e o seu modo de julgar e distribuir louvores.

Falando dos novos escreve o crítico paranaense:

"Bem, sei que é coisa temerosa falar-se com franqueza, aos jovens, nesta cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro! Eles esquecem que o louvor é fácil, agradável, e quase sempre lucrativo...

Mas julgo que seria de toda a conveniência estabelecer diferenças: comércio e indústria é uma outra atividade do espírito, limitada e de fins modestos.

A arte é a única expressão desinteressada do homem. E eu não amo propriamente a obra de arte, mas a Arte, como certos indivíduos, por demais requintados, que não amam mais, e verdadeiramente, a mulher, e sim o Amor..."!

É realmente uma observação justa. Os novos, sobretudo os que surgem pela primeira vez numa exposição, não os de talento, mas os medíocres, não suportam a crítica.

Querem ser mestres no início da carreira...

Os novos do atual certame são o Sr. Oswaldo Teixeira e Candido Portinari, jovens de talento e que prometem muito.

O primeiro é candidato ao prêmio de viagem a apresenta cinco trabalhos - uma composição, dois retratos e dois estudos. Os seus quadros em conjunto (isto é fragmentando as suas telas) são admiráveis. Expliquemos.

Oswaldo Teixeira surgiu com um brilhantismo raro e esse brilho se acentuou no salão do ano passado e ainda este ano, não com a mesma força, em certos dos seus estudos.

Incontestavelmente o prêmio de viagem deve ser seu. Não existe em todo o salão, em toda a Escola de Belas Artes um aluno que se tenha apresentado tão bem; ao demais o seu concorrente não pôde competir com a sua força com a sua técnica, com o seu desenho.

Examinemos a sua contribuição. "Sinite parvulos venire ad me talium est enine regnum coelorum" é a sua principal tela, pois se trata de uma composição. O artista não foi feliz se bem que se encontrem neste trabalho qualidades recomendáveis. O desenho é descuidado; falta volume e a composição deixa muito a desejar.

A coloração é boa - o ambiente está muito bem interpretado e existem detalhes impressionantes. O retrato do Dr. A. M. merece o prêmio de viagem. Bastava a maneira por que está tratado o paletó para afirmar um artista. O Sr. Teixeira demonstra com esse trabalho as suas poderosas qualidades de técnico e de desenhista. "Recostada", possui uma boa cor e está largamente pintada.

O retrato do Sr. V. L. R. é outra obra de mérito. O desenho é correto e a mão está bem pintada e desenhada com vigor.

"Fim de missa", curioso e interessante estudo de interior, põe em evidência o talento do seu autor. Não se pode ainda prever o futuro do Sr. Oswaldo Teixeira. O que podemos afirmar é que esse jovem artista não pode mais continuar em nosso meio; é momento de seguir para a Europa. Já entre nós, fez o que podia fazer. Retardar o seu aperfeiçoamento é aniquilar esta vocação que já realizou trabalhos dignos de todo apreço. Na Europa, vendo a obra dos grandes mestres, visitando museus e exposições, estudando com afinco, a revelação de hoje pode se transformar num grande nome para a nossa Pátria, o que de coração desejamos.

Esperemos, pois, que o júri saiba coroar esse esforço, o que redundará em aplausos não só à comissão julgadora mas à arte nacional.

Outro jovem de incontestável merecimento é o Sr. Candido Portinari. No retrato do escultor Paulo Mazzucchelli, estão impressas grandes virtudes artísticas.

Desenho, técnica, compreensão de valores e cor. É um artista. As mãos do seus retrato estão magistralmente executadas e são pintadas com uma simplicidade surpreendente. A tonalidade geral, clara, está compreendida brilhantemente. A cabeça podia ser mais estudada; os toques de luz mais justos o que não implica na beleza do conjunto de seu trabalho que é um dos melhores da atual exposição.

  • * *

O Sr. Jean José-Frappa, o ilustre crítico francês, diretor do "Le monde illustré" escrevendo sobre o "Salon de la societé" [sic] Nationale" - assim se expressou: "Não sabemos se por piedade ou pela necessidade de cobrirem as paredes que enquadram a vasta escadaria o júri do “Salão” admitiu a série de telas que se encontram expostas nestes muros."

O escritor julgou que tais obras não mereciam uma citação e com uma frase definiu a mediocridade daqueles trabalhos. Poderíamos também perguntar ou fazer a mesma observação a respeito de uma série de telas que se exibem na Escola Nacional de Belas Artes, na atual feira artística.

É melhor silenciarmos.

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O Sr. Leopoldo Gotuzzo regressa do Rio Grande do Sul onde expôs várias de suas telas. Eu vejo na sua obra de hoje as mesmas qualidades das anteriores -- a mesma cor, a mesma técnica, o mesmo desenho. Não há progresso, nem descaídas.

O artista é o mesmo.

O melhor trabalho, na seção de desenho pertence-lhe.

Trata-se de uma sanguínea - "Estudo de nu" - bem marcada, de uma linha geral agradável e justa de valores. Pena é que o pintor não tivesse estudado com mais amor as extremidades!

O Sr. Pedro Bruno é da sua geração o mais bem representado e o artista que acusa maiores progressos. A sua contribuição é digna de todo o elogio e apreço. "Repouso" é um formoso atestado do seu talento. O desenho está marcado com precisão e a fatura é das mais agradáveis.

A cor geral deste nu está justa, e a tela bem ambientada. "Símbolo das praias" acusa qualidades notáveis de colorido e desenho, mas não está no prumo a figura principal. "A pescadora" e ["Yara"] são duas notas de vibrante coloração e que muito contribuem para o sucesso do atual salão.

Augusto Bracet também assina um nu - "Direito de asilo". É uma tela interessante, de uma perspectiva confusa, mas onde se observa um intenso desejo de trabalhar e vencer dificuldades. A pintura é agradável, e a carnação de seu nu é sentida e interpretada com alto senso estético.

O Sr. Theodoro Braga não merece figurar na seção de pintura, com os seus quadros "Cabeça de menina" e "Árabe"; nunca deveriam ser expostos. "Senhora", entretanto, é um trabalho recomendável e como retrato está admirável. Porque o artista, que é insuperável em arte aplicada, não se dedica exclusivamente a este gênero.

As suas aplicações de nossa flora e fauna brasileiras, nos objetos e nos bordados, no "fillet", por exemplo, são magníficas. Temos a impressão de que o Sr. Braga sabe bordar bem e maneja com habilidade o dedal e a agulha, tal a perfeição do desenho de sua renda que figura, em estampa feita à mão, no seu conjunto catalogado sob o número 338.

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Imagens

Osvaldo Teixeira - "Recostada"

Haydéa - "Palácio tranquilo"

Osvaldo Teixeira - "Estudo" (pastel)

Visconti - "Afetos"

Gotuzzo - "Retrato"

Portinari - "Retrato do escultor Paulo Mazzuchelli"


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

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