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MAURICIO, Virgilio. BELAS ARTES. O SALÃO DE 1923. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 19 ago. 1923, p.3.

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'''Impressão geral - Os novos - Consagrados e veteranos - A contribuição feminina - As paisagens do Sr. Parreiras - Avulsos'''
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Esta inaugurado o salão de 1923. A comissão diretora é composta de três membros: [[Raul Lessa de Saldanha da Gama]]; [[Rodolpho Chambelland]] e [[Petrus Verdié]].  
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Está inaugurado o salão de 1923. A comissão diretora é composta de três membros: [[Raul Lessa de Saldanha da Gama]]; [[Rodolpho Chambelland]] e [[Petrus Verdié]].  
São membros do júri da seção de pintura os Srs. [[João Baptista da Costa]], [[Lucilio de Albuquerque]], [[Rodolpho Amoedo]], [[Augusto José Marques Junior]] e [[Helios Seelinger]].
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O Sr. Flexa Ribeiro, logo após o vernissage, escreveu a sua crítica estampada em "O Paiz", merece ser lida pelo cunho de sinceridade. [...] justeza da apreciação, sendo que o escritor foi exigente demais [...] com a obra do Sr. [[Oswaldo Teixeira]]. É certo que numa exposição não se julga o autor e sim a obra; num certame não se deve saber se o expositor tem 19 anos, se estuda a pouco tempo, se é principiante. Nada disso. Num salão analisa-se o que se expõe sem considerações para com o autor, tendo por princípio único que a tela figura no salão e por conseguinte está sujeita à crítica. Ainda assim o Sr. Flexa ribeiro, demonstra a sua sinceridade e põe em evidência a sua independência e o seu modo de julgar e distribuir louvores.
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O Sr. Flexa Ribeiro, logo após o vernissage, escreveu a sua crítica estampada em "O Paiz", merece ser lida pelo cunho de sinceridade. [...] justeza da apreciação, sendo que o escritor foi exigente demais [...] com a obra do Sr. [[Oswaldo Teixeira]]. É certo que numa exposição não se julga o autor e sim a obra; num certame não se deve saber se o expositor tem 19 anos, se estuda a pouco tempo, se é principiante. Nada disso. Num salão analisa-se o que se expõe sem considerações para com o autor, tendo por princípio único que a tela figura no salão e por conseguinte está sujeita à crítica. Ainda assim o Sr. Flexa Ribeiro, demonstra a sua sinceridade e põe em evidência a sua independência e o seu modo de julgar e distribuir louvores.
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Falando dos novos escreve o crítico paranaense:
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Falando dos novos escreve o crítico paraense:
"Bem, sei que é coisa temerosa falar-se com franqueza, aos jovens, nesta cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro! Eles esquecem que o louvor é fácil, agradável, e quase sempre lucrativo...
"Bem, sei que é coisa temerosa falar-se com franqueza, aos jovens, nesta cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro! Eles esquecem que o louvor é fácil, agradável, e quase sempre lucrativo...
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Outro jovem de incontestável merecimento é o Sr. Candido Portinari. No [http://www.dezenovevinte.net/egba/index.php?title=Imagem:Gazeta_de_Noticias_1923.08.19_cp.jpg retrato do escultor Paulo Mazzucchelli], estão impressas grandes virtudes artísticas.
Outro jovem de incontestável merecimento é o Sr. Candido Portinari. No [http://www.dezenovevinte.net/egba/index.php?title=Imagem:Gazeta_de_Noticias_1923.08.19_cp.jpg retrato do escultor Paulo Mazzucchelli], estão impressas grandes virtudes artísticas.
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Desenho, técnica, compreensão de valores e cor. É um artista. As mãos do seus retrato estão magistralmente executadas e são pintadas com uma simplicidade surpreendente. A tonalidade geral, clara, está compreendida brilhantemente. A cabeça podia ser mais estudada; os toques de luz mais justos o que não implica na beleza do conjunto de seu trabalho que é um dos melhores da atual exposição.
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Desenho, técnica, compreensão de valores e cor. É um artista. As mãos do seu retrato estão magistralmente executadas e são pintadas com uma simplicidade surpreendente. A tonalidade geral, clara, está compreendida brilhantemente. A cabeça podia ser mais estudada; os toques de luz mais justos o que não implica na beleza do conjunto de seu trabalho que é um dos melhores da atual exposição.
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Sem ser monótono, o Sr. Lucilio de Albuquerque realiza quatro estudos, todos diferentes em tonalidade, de nossas paisagens, o que afirma as suas qualidades de visão e de técnico.
Sem ser monótono, o Sr. Lucilio de Albuquerque realiza quatro estudos, todos diferentes em tonalidade, de nossas paisagens, o que afirma as suas qualidades de visão e de técnico.
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[[Fiuza Guimarães]], o pintor tão esquecido entre nós, enviou este ano uma série de trabalhos. É um bom sintoma. O Sr. [[Fernandes Machado]] enviou uma composição - [http://www.dezenovevinte.net/egba/index.php?title=Imagem:Ib_1923_fmachado.jpg "O símbolo da Fé mais uma vez repete o milagre da salvação: aos desesperados da Terra só o consolo deixado por Cristo"]. É uma tela de grandes dimensões, com um colorido simpático, de um desenho regular e de fatura também regular. Representa um esforço. Não seria mau que esse trabalho fosse adquirido pela diretora da Cruz Vermelha para o seu novo edifício. Não representa ele também o devotamento das enfermeiras no campo de batalha?
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[[Fiuza Guimarães]], o pintor tão esquecido entre nós, enviou este ano uma série de trabalhos. É um bom sintoma. O Sr. [[Fernandes Machado]] enviou uma composição - [http://www.dezenovevinte.net/egba/index.php?title=Imagem:Ib_1923_fmachado.jpg "O símbolo da Fé mais uma vez repete o milagre da salvação: aos desesperados da Terra só o consolo deixado por Cristo"]. É uma tela de grandes dimensões, com um colorido simpático, de um desenho regular e de fatura também regular. Representa um esforço. Não seria mau que esse trabalho fosse adquirido pela diretoria da Cruz Vermelha para o seu novo edifício. Não representa ele também o devotamento das enfermeiras no campo de batalha?
O símbolo pelo menos está bem representado, e representado na figura central da tela.
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É o melhor caminho para o triunfo.
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'''Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar'''
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[[MAURICIO, Virgilio]]. BELAS ARTES. O SALÃO DE 1923. [[Gazeta de Noticias]], Rio de Janeiro, 19 ago. [[1923]], p.3.
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MAURICIO, Virgilio. BELAS ARTES. O SALÃO DE 1923. [[Gazeta de Noticias]], Rio de Janeiro, 19 ago. [[1923]], p.3.

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Impressão geral - Os novos - Consagrados e veteranos - A contribuição feminina - As paisagens do Sr. Parreiras - Avulsos

Está inaugurado o salão de 1923. A comissão diretora é composta de três membros: Raul Lessa de Saldanha da Gama; Rodolpho Chambelland e Petrus Verdié.

São membros do júri da seção de pintura os Srs. João Baptista da Costa, Lucilio de Albuquerque, Rodolpho Amoedo, Augusto José Marques Junior e Helios Seelinger.

Iniciemos a nossa visita.

Várias salas estão ocupadas pela seção de pintura, sendo que pintura, pastel, desenho, tudo está misturado, sem o menor senso estético. Assim é que vemos numa sala ao lado de uma pintura, um pastel, o que aliás demonstra a escassez de trabalhos que foram enviados ao salão.

O salão é pobre; e no conjunto medíocre. Quase não valeria a pena um estudo crítico. É insignificante demais. Não se encontra nenhuma revelação; nada de original guarnece as vastas paredes da exposição. Tudo é conhecido, repetido, igual ao que já temos visto e a impressão geral é que os nossos pintores estão cansados, não têm estímulo, nem coragem de trabalhar. Muitos não concorrem este ano ao salão; muitos se ausentaram da participação devido à política da Escola; em compensação, para preencher esta lacuna, o júri ou por benevolência, ou por não ter observado com devida atenção, aceitou uma série de trabalhos que surpreende pela mediocridade, pelos erros de desenho, pela inferioridade. Vê-se desde já, que em [...], a XXX exposição geral é fraca, parecendo mais um certame de alunos que um salão anual de Belas Artes.

* * *

O Sr. Flexa Ribeiro, logo após o vernissage, escreveu a sua crítica estampada em "O Paiz", merece ser lida pelo cunho de sinceridade. [...] justeza da apreciação, sendo que o escritor foi exigente demais [...] com a obra do Sr. Oswaldo Teixeira. É certo que numa exposição não se julga o autor e sim a obra; num certame não se deve saber se o expositor tem 19 anos, se estuda a pouco tempo, se é principiante. Nada disso. Num salão analisa-se o que se expõe sem considerações para com o autor, tendo por princípio único que a tela figura no salão e por conseguinte está sujeita à crítica. Ainda assim o Sr. Flexa Ribeiro, demonstra a sua sinceridade e põe em evidência a sua independência e o seu modo de julgar e distribuir louvores.

Falando dos novos escreve o crítico paraense:

"Bem, sei que é coisa temerosa falar-se com franqueza, aos jovens, nesta cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro! Eles esquecem que o louvor é fácil, agradável, e quase sempre lucrativo...

Mas julgo que seria de toda a conveniência estabelecer diferenças: comércio e indústria é uma outra atividade do espírito, limitada e de fins modestos.

A arte é a única expressão desinteressada do homem. E eu não amo propriamente a obra de arte, mas a Arte, como certos indivíduos, por demais requintados, que não amam mais, e verdadeiramente, a mulher, e sim o Amor..."!

É realmente uma observação justa. Os novos, sobretudo os que surgem pela primeira vez numa exposição, não os de talento, mas os medíocres, não suportam a crítica.

Querem ser mestres no início da carreira...

Os novos do atual certame são o Sr. Oswaldo Teixeira e Candido Portinari, jovens de talento e que prometem muito.

O primeiro é candidato ao prêmio de viagem a apresenta cinco trabalhos - uma composição, dois retratos e dois estudos. Os seus quadros em conjunto (isto é fragmentando as suas telas) são admiráveis. Expliquemos.

Oswaldo Teixeira surgiu com um brilhantismo raro e esse brilho se acentuou no salão do ano passado e ainda este ano, não com a mesma força, em certos dos seus estudos.

Incontestavelmente o prêmio de viagem deve ser seu. Não existe em todo o salão, em toda a Escola de Belas Artes um aluno que se tenha apresentado tão bem; ao demais o seu concorrente não pôde competir com a sua força com a sua técnica, com o seu desenho.

Examinemos a sua contribuição. "Sinite parvulos venire ad me talium est enine regnum coelorum" é a sua principal tela, pois se trata de uma composição. O artista não foi feliz se bem que se encontrem neste trabalho qualidades recomendáveis. O desenho é descuidado; falta volume e a composição deixa muito a desejar.

A coloração é boa - o ambiente está muito bem interpretado e existem detalhes impressionantes. O retrato do Dr. A. M. merece o prêmio de viagem. Bastava a maneira por que está tratado o paletó para afirmar um artista. O Sr. Teixeira demonstra com esse trabalho as suas poderosas qualidades de técnico e de desenhista. "Recostada", possui uma boa cor e está largamente pintada.

O retrato do Sr. V. L. R. é outra obra de mérito. O desenho é correto e a mão está bem pintada e desenhada com vigor.

"Fim de missa", curioso e interessante estudo de interior, põe em evidência o talento do seu autor. Não se pode ainda prever o futuro do Sr. Oswaldo Teixeira. O que podemos afirmar é que esse jovem artista não pode mais continuar em nosso meio; é momento de seguir para a Europa. Já entre nós, fez o que podia fazer. Retardar o seu aperfeiçoamento é aniquilar esta vocação que já realizou trabalhos dignos de todo apreço. Na Europa, vendo a obra dos grandes mestres, visitando museus e exposições, estudando com afinco, a revelação de hoje pode se transformar num grande nome para a nossa Pátria, o que de coração desejamos.

Esperemos, pois, que o júri saiba coroar esse esforço, o que redundará em aplausos não só à comissão julgadora mas à arte nacional.

Outro jovem de incontestável merecimento é o Sr. Candido Portinari. No retrato do escultor Paulo Mazzucchelli, estão impressas grandes virtudes artísticas.

Desenho, técnica, compreensão de valores e cor. É um artista. As mãos do seu retrato estão magistralmente executadas e são pintadas com uma simplicidade surpreendente. A tonalidade geral, clara, está compreendida brilhantemente. A cabeça podia ser mais estudada; os toques de luz mais justos o que não implica na beleza do conjunto de seu trabalho que é um dos melhores da atual exposição.

* * *

O Sr. Jean José-Frappa, o ilustre crítico francês, diretor do "Le monde illustré" escrevendo sobre o "Salon de la societé" [sic] Nationale" - assim se expressou: "Não sabemos se por piedade ou pela necessidade de cobrirem as paredes que enquadram a vasta escadaria o júri do “Salão” admitiu a série de telas que se encontram expostas nestes muros."

O escritor julgou que tais obras não mereciam uma citação e com uma frase definiu a mediocridade daqueles trabalhos. Poderíamos também perguntar ou fazer a mesma observação a respeito de uma série de telas que se exibem na Escola Nacional de Belas Artes, na atual feira artística.

É melhor silenciarmos.

* * *

O Sr. Leopoldo Gotuzzo regressa do Rio Grande do Sul onde expôs várias de suas telas. Eu vejo na sua obra de hoje as mesmas qualidades das anteriores -- a mesma cor, a mesma técnica, o mesmo desenho. Não há progresso, nem descaídas.

O artista é o mesmo.

O melhor trabalho, na seção de desenho pertence-lhe.

Trata-se de uma sanguínea - "Estudo de nu" - bem marcada, de uma linha geral agradável e justa de valores. Pena é que o pintor não tivesse estudado com mais amor as extremidades!

O Sr. Pedro Bruno é da sua geração o mais bem representado e o artista que acusa maiores progressos. A sua contribuição é digna de todo o elogio e apreço. "Repouso" é um formoso atestado do seu talento. O desenho está marcado com precisão e a fatura é das mais agradáveis.

A cor geral deste nu está justa, e a tela bem ambientada. "Símbolo das praias" acusa qualidades notáveis de colorido e desenho, mas não está no prumo a figura principal. "A pescadora" e "Yara" são duas notas de vibrante coloração e que muito contribuem para o sucesso do atual salão.

Augusto Bracet também assina um nu - "Direito de asilo". É uma tela interessante, de uma perspectiva confusa, mas onde se observa um intenso desejo de trabalhar e vencer dificuldades. A pintura é agradável, e a carnação de seu nu é sentida e interpretada com alto senso estético.

O Sr. Theodoro Braga não merece figurar na seção de pintura, com os seus quadros "Cabeça de menina" e "Árabe"; nunca deveriam ser expostos. "Senhora", entretanto, é um trabalho recomendável e como retrato está admirável. Porque o artista, que é insuperável em arte aplicada, não se dedica exclusivamente a este gênero.

As suas aplicações de nossa flora e fauna brasileiras, nos objetos e nos bordados, no "fillet", por exemplo, são magníficas. Temos a impressão de que o Sr. Braga sabe bordar bem e maneja com habilidade o dedal e a agulha, tal a perfeição do desenho de sua renda que figura, em estampa feita à mão, no seu conjunto catalogado sob o número 338.

* * *

O que se observa, aliás fácil de constatação, é a falta de sinceridade em nossos artistas.

A propósito, o Sr. Flexa Ribeiro escreve algumas linhas, que merecem divulgação:

"Há uma qualidade que se tende a generalizar, e que é das mais perigosas, podendo até assinalar remoto prenúncio de morte: a falta de sinceridade. Já tenho procurado explicar-me, a mim mesmo, a razão desse estranho fenômeno. Será falta de imaginação criadora? Acaso, - como a disciplina do desenho ainda não tenha atingido à adolescência, entre nós - o pintor, diante do modelo a transcrever, experimenta comoção pelas dúvidas que tem de sua grafia, e fique como o pianista que não se apossou, de fato, da leitura da página, e está mais preocupado com as notas do que com o seu “valor” expressional e de conjunto?

Para testemunhar semelhante aviso bastará dizer que a insinceridade não está somente no cursivo do pintor; a própria composição é sinal característico. Nunca motivo simples, de dificuldades técnicas reduzidas. Em geral, vai logo às maiores. E há, então, em muitos desses trabalhos, não sei que de teatral, ou, às vezes, de postiço, que me entristece como se visse alguém de minha estima a fazer grandes gestos, falando muito e alto... sem saber o que dizia."

Um pintor que se conserva sincero é o Sr. Elyseo Visconti. É certo que os trabalhos deste ano são inferiores aos do salão passado. No seu quadro "Afetos" existe mais "habilidade", "savoir-faire" do que mestria. A tonalidade geral é agradável e o desenho perfeito. Existe mesmo um traço de espiritualidade nos seus retratos que afirmam as qualidades artísticas do pintor de "O lar". "Para a escola" é uma magnífica paisagem de efeito agradável e de uma perspectiva admirável. "Mártir" devia ter ficado no "atelier". Mas compreende-se que o pintor não tenha podido enviar trabalhos novos... Após o magnífico painel decorativo que figura no novo edifício do Conselho Municipal, o artista devia estar cansado. Realizou uma obra que o honra e que é um atestado eloquente de suas brilhantes qualidades de pintor e de desenhista.

O Sr. Baptista da Costa quis fugir de sua fórmula já tão conhecida entre nós, e de S. Paulo nos traz uma pequena obra-prima - "Névoas da manhã" - que, como paisagem, é perfeita; mas "a perfeição não existe sobre a terra"... e o Sr. Baptista da Costa não se contentou em ter realizado talvez a sua melhor paisagem, e coloca naquele ambiente admirável uma figura desproporcional, em relação à paisagem, que prejudica a harmonia de tão admirável trecho de natureza. "Em plena natureza" e "A volta do rio" são paisagens iguais às anteriores.

"Uma tradição que desaparece" acusa surpreendentes qualidades no primeiro plano. Os verde estão justos, bem manchados - a coloração esplêndida. O morro do Castelo em ruínas parece cortado a canivete, e não nos dá a impressão de terra, mas de madeira - tal a dureza, o modelado, a estrutura que o Sr. Baptista da Costa imprimiu nas massas afogueadas do barro brasileiro.

O Sr. Lucilio de Albuquerque será o campeão da espátula, entre nós. Os seus progressos são sensíveis. Em cada exposição ele triunfa com as suas paisagens. São quatro as telas que assina. " A curva da estrada", "Entrada da Guanabara", " A grande árvore", "Troncos". Na seção de desenho figura com um estudo, um pouco descuidado. As suas cópias de nossa natureza estão executadas com grande mestria.

Sem ser monótono, o Sr. Lucilio de Albuquerque realiza quatro estudos, todos diferentes em tonalidade, de nossas paisagens, o que afirma as suas qualidades de visão e de técnico.

Fiuza Guimarães, o pintor tão esquecido entre nós, enviou este ano uma série de trabalhos. É um bom sintoma. O Sr. Fernandes Machado enviou uma composição - "O símbolo da Fé mais uma vez repete o milagre da salvação: aos desesperados da Terra só o consolo deixado por Cristo". É uma tela de grandes dimensões, com um colorido simpático, de um desenho regular e de fatura também regular. Representa um esforço. Não seria mau que esse trabalho fosse adquirido pela diretoria da Cruz Vermelha para o seu novo edifício. Não representa ele também o devotamento das enfermeiras no campo de batalha?

O símbolo pelo menos está bem representado, e representado na figura central da tela.

"As comungantes", do Sr. Carlos Chambelland, agradam. O retrato do Sr. Arthur Timotheo da Costa, o jovem artista que faleceu ainda tão moço, em pleno desenvolvimento artístico, é um trabalho de grande harmonia, bem composto, de um desenho correto e sólido como pintura.

O Sr. Edgard Parreiras, com a sua paisagem - "Mangueira" é uma decepção. Esse artista é uma paisagista de mérito e a sua última mostra de arte era realmente digna de todo o aplauso; o "Solar avoengo" do ano passado era uma tela perfeita, mas a "Mangueira" deste ano é dura, com um verde cru, sem atmosfera, de composição desequilibrada. Na tela existe o chão que está bem manchado e de um belo colorido.

Não será excesso de trabalho e outras ocupações? Não se compreende que um artista do mérito de Edgard Parreiras se apresente tão mal quando o seu nome já pode ser citado entre os dos nossos melhores pintores.

* * *

As mulheres figuram num belo contingente, no atual salão. A Sra. Georgina de Albuquerque não está bem apresentada. Os seus trabalhos são insignificantes. Aurea Vianna Palmeira merece francos louvores, pois que é a primeira vez que se apresenta; Haydéa Lopes assina três paisagens, sendo que "Palácio tranquilo" possui qualidades dignas de registro.

Luiza Babo de Andrade, Palmira Pibernat Pedra e Noellner Pedrosa (Olga Mary) estão representadas.

Edith Aguiar é um nome novo nas exposições.

O pastel que assina não nos agrada nem como técnica nem como cor. É terroso, mal desenhado e os valores estão confusos. No retrato de Mme. I. P. A. a artista afirma sua personalidade. A mão está executada vigorosamente, o planejamento admirável, bom desenho, pintura sólida - o que quer dizer, que esta tela, em conjunto, é magnífica.

* * *

O Sr. Parreiras [Antonio Parreiras], enfim, andou acertado. Estamos diante de um expositor que se apresenta como nunca nenhum artista se exibiu - assinando uma série notável de telas. São oitenta os quadros que figuram na sala Parreiras, oitenta paisagens afirmadoras de um temperamento, de uma grande individualidade. Felizmente, não temos a deplorar, no conjunto de suas obras - nenhuma tela figura - gênero tentado pelo Sr. Parreiras com insucesso. Basta recordarmos os seus nus de mediocridade absoluta, falhos de valor e mal desenhados, sem sentimento e nenhuma proporção, aliados a uma ausência completa dos menores conhecimentos anatômicos. Fez bem em abandonar este gênero, e, para o seu gozo pessoal, para a glorificação de seu nome, não necessita mais do que a série magnífica de paisagem que valorizam sobremodo o atual certame.

A medalha de honra do Salão é de justiça ser conferida a esse grande paisagista - o maior do Brasil e um dos mais ilustres da pintura contemporânea. Uma simples visita à sua casa é o suficiente para se contrastar a riqueza e o brilhantismo de sua palheta. Citemos algumas de suas páginas, verdadeiras obras-primas. O número 133, "Velho parque", é uma paisagem de técnica perfeita e de um colorido real. Consagra um nome. Com que sentimento de arte o pintor executou a sua maravilhosa tela 162 - "L'Oise á Erany" - bela recordação da França, onde tudo, tonalidade, execução, cor, naturalidade, culmina ao real?! E a "Mancha de sol", recanto de nossa natureza; "Restinga". "Último clarão" (Suíça) não são surpreendentes flagrantes vistos por um mestre?

Deixando as pinturas e observando os dois magníficos desenhos 204 e 203 -- não se tem a impressão de contemplar trabalhos de um grande desenhista, um Ingres da paisagem?

É certo que na sua coleção existem estudos em que a fantasia do pintor se patenteia, assim como a sua habilidade. "Terra Natal", "Mata Virgem", "Inferno Verde" não são o resultado de sua visão e talento criador, mais do que uma cópia do natural? O que é certo é que o Sr. Antonio Parreiras ilumina o Salão com a sua obra e dá à mocidade um exemplo e uma lição magníficos e dignos de serem seguidos e imitados.

* * *

O Sr. Garcia Bento merece um lugar à parte. A sua "Tarde de sol" é de admirável contextura. Existem atmosfera, cor, perspectiva e sobretudo, uma surpreendente visão. A sua paisagem executada à espátula é uma das mais formosas afirmações do atual certame. Esse artista será um dos grandes nomes de nossa pintura.

O jovem Manoel Santiago apresenta-se com uma composição - "Yara". Não se pode negar talento ao artista, que possui agradável colorido. O desenho de sua tela carece de mais estudo e observação.

Waldemar Ferreira Braga está representado por dois carvões. Vai em franco progresso esse jovem artista, e pode servir de estímulo ao Sr. Orozio Belem, que, iniciando apenas a sua carreira, indeciso, sem conhecer ainda valores, envia uma pintura para o Salão, que, de tão inferior, só pode prejudicar o jovem estreante. O seu desenho está marcado com certa facilidade, e a sua admissão deve servir de estímulo aos seus pendores artísticos.

* * *

As outras seções são muito insignificantes. Os trabalhos apresentados são poucos, e nota-se um esmorecimento geral, uma falta de ânimo que contrista.

Aguardemos o próximo salão de 1924, e que os nossos artistas trabalhem, são os nossos votos.

É o melhor caminho para o triunfo.

Virgilio Mauricio [Virgilio Mauricio - Artigos]


Imagens

Oswaldo Teixeira - "Recostada"

Haydéa - "Palácio tranquilo"

Oswaldo Teixeira - "Estudo" (pastel)

Visconti - "Afetos"

Gotuzzo - "Retrato"

Portinari - "Retrato do escultor Paulo Mazzuchelli"


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

MAURICIO, Virgilio. BELAS ARTES. O SALÃO DE 1923. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 19 ago. 1923, p.3.

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