. MATTOS, Adalberto P.. O Salão de 1926. Illustração Brasileira, Rio de Janeiro, set. 1926, n/p. - Egba

MATTOS, Adalberto P.. O Salão de 1926. Illustração Brasileira, Rio de Janeiro, set. 1926, n/p.

De Egba

Acompanhado de grandes rumores e algum escândalo, o Salão de Belas Artes, movimentando o ambiente colocou em evidência os nomes mais representativos da arte em nossa terra; muita gente que nunca havia penetrado os umbrais do majestoso palácio entregue ao carinho de José Marianno, levada pelas polêmicas quase diárias, na imprensa, foi ver de perto o que os artistas fizeram e, conforme o testemunho de muitos, constatou com justiça a operosidade e evolução franca de quantos se apresentavam na grande mostra. Como sempre, a inauguração foi um mostruário de vaidades por parte dos artistas e público presente. Como de costume, faltaram as altas autoridades e mais uma vez a arte não teve o amparo moral que devia ter, por parte delas...

Comentando o aspecto da grande mostra, tivemos já a oportunidade de fazer algumas considerações perfeitamente oportunas e que vamos agora repetir, sem o intuito, porém, de desmerecer o valor de cada um dos componentes da exposição que, sem favor, é das melhores realizadas em nosso ambiente. Mesmo, não produzindo com os característicos que a nosso ver são indispensáveis à formação da arte brasileira, merece a maioria dos artistas o melhor encorajamento e os mais calorosos aplausos.

Estes são os comentários que fizemos:

O momento não permite rigores, ele é dos novos; porém, apesar do otimismo que se impõe, julgamos oportunos alguns comentários, embora eles sejam contrários a muitos dos elementos em destaque no atual Salão: observamos continuar a não existência, na grande feira de arte, no grau que devia, a brasilidade nos assuntos não obstante o movimento em ebulição entre os nossos artistas, nos últimos tempos.

A maioria dos criadores de belezas continua a preferir os motivos sem característicos e falhos de condições capazes de tornarem a produção de arte entre nós em expressões típicas: enveredando por caminhos bem diversos dos indicados pelo temperamento tropical, preferindo os atalhos e as modalidades que nos chegam pelas publicações estrangeiras, fora de qualquer dúvida, os artistas patrícios diminuem a capacidade criadora, enfraquecem o “eu” e as individualidades, na maioria das vezes interessantes, e fazem ainda desaparecer a realização da personalidade e os característicos do ambiente tão precioso à formação da legítima criação estética.

Não pretendemos talhar carapuças para este ou aquele artista. As nossas palavras de franqueza visam unicamente fazer sentir, a nosso ver, a necessidade do que afirmamos e estudar o momento atravessado pela arte em nossa terra. Ousando enfrentar as correntes, lastimamos a ausência do brasileirismo capaz de criar uma manifestação que seja realmente nossa, sem enxertos... do brasileirismo forte, fonte de benefícios, manancial de entusiasmo que movimente o sentimento e a emotividade nata de todos os nossos artistas pintores, escultores e gravadores.

Fácil é calcular como os nossos artistas seriam interessantes se quisessem tomar para padrão as coisas brasílicas, o sertão, o céu, as águas e os verdes tão cheios de encantos, prenhes de cambiantes embriagadoras! Por que havemos de imitar, quando possuímos tantas belezas a realizar? Por que abandonarmos um caminho que, a nosso ver, é o único capaz de individualizar a arte brasileira? Quisessem os nossos artistas empregar a habilidade com que interpretam as tendências alheias e impessoais no nosso meio, tendências já exploradas e interpretadas por uma legião de indivíduos mais ou menos cabotinos, em representar os motivos genuinamente nossos, estamos certos, fariam verdadeiros primores, criações capazes de empolgar o mundo inteiro e de definir a situação francamente dúbia que vamos atravessando. Os nossos artistas devem ser brasileiros, talento não lhes falta!

Mas, deixemos os comentários. Repetimos com a máxima serenidade: o Salão de Belas Artes que vem de ser inaugurado, sem favor é dos melhores sob o ponto de vista de contribuição dos novos. Um espírito novo anima o envio dos moços; em cada quadro vive uma preocupação de aparecer com individualidade, com uma pronunciada vontade de independência e desprezo pelo banalismo doentio.

O “Prêmio de Viagem”, até bem pouco tempo disputado sem calor, começa a despertar seriedade e a movimentar o ambiente; os concorrentes, abandonando as intrigas próprias dos espíritos acanhados, caminham com segurança; isoladamente, cada qual mais forte, eles impulsionam a própria criação com emoção e talento. Animados por tão poderosos requisitos, a obra de tão promissora mocidade, aparece envolvida naquele critério flagrante e vivo no testamento artístico de Corot: “desenho, valor cromático e intensidade luminosa”. Na contribuição dos novos é visível a estrada que cada um segue; sem se deixarem manietar pelo desânimo que um dia dominou os mestres, vão formando a cadeia estética que dentro em breve há de surgir para a glória de todos eles.

Dizendo que o Salão é dos melhores não pretendemos estabelecer paralelos com os anteriores. Bem difícil é fazer semelhante comparação. Se os anteriores não conseguiram deixar gravadas impressões duradouras no espírito dos que querem estabelecer paralelos, a culpa é deles próprios, da memória que os não ajuda... Não queremos discutir semelhante assunto, pueril, não oferece vantagem alguma; lembremos unicamente que no atual Salão existe uma lacuna dolorosa: a ausência de Baptista da Costa, artista eminente e talvez insubstituível no momento presente.

Nenhum pintor, dos que fazem profissão de fé na grande mostra, ainda se revelou com qualidades capazes de, ao menos, prenunciar o preenchimento da vaga aberta com a morte do autor de tantas maravilhas. Falou-se, comentou-se em surdina o desaparecimento do mestre, projetou-se realizar, em homenagem à sua memória, uma grande mostra e para tal foi nomeada oficiosamente uma comissão maior que um bonde da Light... dizemos oficiosamente porque não nos consta que a maioria dos membros tenha recebido comunicação oficial, nós por exemplo, até o momento em que escrevemos estas linhas, não recebemos, apesar dos jornais diários terem publicado o nosso nome como um dos membros. Que a comissão nomeada oficiosamente nada tenha feito, explica-se, mas quer a comissão organizadora tenha esquecido a figura do paisagista é que não compreendemos; a homenagem era simples e não acarretaria despesas, bastava um punhado de flores e uma inscrição no pedaço de parede onde sempre figuravam as magistrais telas, era barato e significativo; toda a multidão que durante horas seguidas cirandou pelas galerias ficava sabendo que a memória de um artista que soube honrar a arte, não desapareceria com coisa inútil... Dirão os que já foram ao Salão: a homenagem foi prestada, nada menos de dois retratos do mestre figuram na exposição! Mas, diremos nós: antes não estivessem porque são verdadeiros atentados...

Os principais reparos foram feitos, iniciemos a peregrinação pelas galerias, vejamos o que fizeram os nossos artistas. Vamos iniciar os nossos comentários pela seção mais desprezada pelo público e pelos noticiaristas: a “Gravura de Medalhas e Pedras Preciosas”. Conta a seção apenas sete expositores, sendo um candidato ao prêmio de viagem à Europa: quatorze é o número de trabalhos apresentados. Arlindo Bastos apresentou-se com um punção em aço, gravado a buril, representando o seu auto-retrato; é um trabalho de merecimento, bem tratado e de técnica apreciável. Arlindo Bastos é um pertinaz expositor e um modesto artista que, por assim ser, muito se tem prejudicado: detentor da medalha de prata, podia também ser concorrente ao prêmio de viagem, talvez com êxito.

Calmon Barreto, muito jovem ainda, apresentou-se com três trabalhos: “Sportini”, “Eros e o Leão”, abertos diretamente no aço e “Dançarina”, em gesso. Outro gravador que deve candidatar-se ao prêmio de viagem (se a projetada reforma não extinguir tão preciosa recompensa) é o Sr. Herminio José Pereira. O “Retrato de Santos Dummont”, trabalho no aço, é realmente um trabalho digno de um profissional consciencioso e seguro da sua arte. O punção referido é obra de gravador, tudo o indica: a maneira de tratar a cabeça, os golpes seguros, de buril e o conjunto.

Walter Rodrigues de Toledo, mesmo sendo o mais fraco dos expositores da seção, apresenta-se muito bem, merecendo louvores. Francisco Gomes Marinho, candidato ao prêmio de viagem (vencido), apresentou-se com “Ofélia”, “Medalha para o Clube de Regatas Boqueirão do Passeio” e “Medalha para um concurso de tiro”.

Leopoldo Campos é um expositor que honra a seção. As suas medalhas são primorosas, tendo conquistado justa recompensa.

Na seção de Gravura e Litografia, figura apenas o Sr. Otto Rein com dois trabalhos: “Operação nas costas” e “Kaufmann Giseh de Hans Hobbein”; são trabalhos sérios e muito bem resolvidos. Na seção de Arte Aplicada figuram os nomes de Augusto Herborth e Joanna Pavlowna de Oven Grentner e na de Arquitetura os Srs. Cortez, Bruhns, Signorelli, Paulo Antunes, A. Corrêa Lima, Lucas Mayerhofer, R. Magno de Carvalho e Vasconcellos Cardoso, todos com fortes trabalhos. Vejamos agora a seção de escultura que, como a de gravura, é quase sempre abandonada por todos.

Antes de qualquer comentário devemos lamentar a ausência dos mestres que tanto têm brilhado em outras exposições, assim como a não existência de obras de vulto; mas, dos males o menor: os escultores patrícios, embora com trabalhos de pequenas proporções, apresentam-se, com raras exceções, mais ou menos bem. Nada menos de 53 trabalhos foram enviados à Exposição, em mármore, bronze, madeira e gesso: Francisco de Andrade, Antonino Mattos, Armando Braga, José Pereira Barreto, Honório da Cunha Mello, Homero da Silva, Honorio Peçanha, Humberto Cavina, José Rangel, Laurindo Ramos, Lotte Benters, Magalhães Corrêa, Maria S. Meyer, Orestes Acquarone, Paes Leme, Paulo Mazzuchelli, Petrus Verdier, Vicente Larocca e Yáyá de Castro, são os contribuintes de seção.

Francisco de Andrade apresenta-se com um envio de cinco trabalhos, mostrando em todos eles uma técnica segura; o júri, conferindo-lhe medalha de ouro colocou-o um plano de destaque entre os seus pares. Do conjunto apresentado pelo escultor, destacamos o retrato do “Dr. Lindolpho de Freitas” e a “Cabeça de velho”. Antonino Mattos está bem representado com o “Velho filósofo”, uma máscara expressiva, cheia de magníficas qualidades. Armando Braga contribuindo com seis trabalhos interessantes, empresta à seção um brilho digno de registro. “Mãe” é obra de um verdadeiro artista; “Velho tronco” é também um bom trabalho com qualidades de técnica bem apreciáveis. Cunha Mello, professor da Escola, apresenta-se bem: da coleção enviada destacamos o retrato do Sr. Presidente da República, incontestavelmente o seu melhor trabalho. José Pereira Barreto, Homero Silva, Honorio Peçanha, Maria Meyer e Yáya de Castro são principiantes na grande arte com os trabalhos apresentados, embora não resistam a uma crítica severa, fazem a sua figura; deste conjunto excluímos o busto de Baptista da Costa, da última escultora, por ser uma obra infeliz que não devia ser exposta, mesmo para não prejudicar a autora. Laurindo Ramos não está bem representado, os bustos que apresentou não têm vida e são amaneirados; comparando-os com outras produções do jovem escultor deixam a desejar. O ano passado, com a estátua do “Padre Cicero” deixou transparecer muitas esperanças que infelizmente não apareceram. Lotte Benters, alemã, apresenta-se muito bem com os seus sete trabalhos. Humberto Cavina revelou-se o operoso de sempre e nos deu uma encantadora cabeça de “S. Francisco” muito bem estudada. Magalhães Corrêa apresentou-se com um pequeno trabalho onde as suas qualidades animalistas são evidentes. De Oreste Acquarone destacamos “Gaúcho”; não nos impressionaram os seus projetos de medalha e plaquete, como baixo-relevo são falsos nos planos, embora o conjunto possua algumas qualidades decorativas. Paes Leme é um jovem que promete, desejamos vê-lo em obras de maior vulto. Paulo Mazzuchelli está mal representado.

Do Sr. Professor Petrus Verdier existe um “Tamanduá bandeira” fraquíssimo, duro como o jacarandá em que foi executado e sem particularidades que se destaque; a não ser as dificuldades da técnica da escultura em madeira, francamente, não possui mais nada. Vicente Larocca sempre em progresso, nos mandou de S. Paulo uma série de trabalhos bons; do conjunto destacamos “De Profundis”, “Perfil de mistério” e “Riso”, obras de grande sentimento e o busto do “Poeta Arsenio Palacio”, cheio de expressão.

A seção de pintura, como sempre, é mais numerosa, nada mesmo de 316 trabalhos foram apresentados pelos 107 artistas expositores. Todos os gêneros de pintura foram testados, assim como os assuntos.

Chamando a atenção do visitante está a tela de João Timotheo “No atelier”, obra-prima do pintor: cheia de grandes qualidades ela se destaca das demais enviadas pelo artista, assim como o resto do Salão. De lamentar é que o pintor não tenha tratado os outros quadros com o mesmo carinho dispensado ao trabalho citado; “Estudo de tronco”, por exemplo, muito fino de cor é desagradável pelo desleixo, embora proposital da cabeça positivamente aleijada. “Adolescente” deixa muito a desejar, e a “Paisagem” embora luminosa, é demasiadamente abandonada sob o ponto de vista do desenho. Com lealdades dizemos, lastimar os descuidos do pintor, pois, quem pinta uma obra da força de “No atelier” tem o dever de manter, em todas as obras apresentadas ao público, o mesmo equilíbrio e a mesma segurança.

O Senhor Verdier, escultor e autor do “Tamanduá”, que por ironia do destino está próximo de J. Timotheo e ao lado de Elyseu Visconti, mais parece um aprendiz que um professor da Escola de Belas Artes.

Almeida Junior (Luiz Fernandes), prêmio de viagem do Salão do Centenário, apresentou-se bem; os seus nus são bem tratados e atestam os progressos feitos durante a estadia no Velho Mundo. “Radiosa” é interessante de linha e de carnação justa. Almeida Junior embora não tenha ainda atingido o ponto culminante da sua arte, é, no entanto, um artista de real merecimento.

André Vento, honesto, nos deu “Adoração ao Sol” e “Adormecida”; em qualquer dos trabalhos o artista saiu-se galhardamente. “Adoração ao Sol”, muito decorativo, mostra bem a feição do pintor e o carinho instintivo para a fantasia. “Adormecida”, de desenho discreto e cor magnífica, é também um bom trabalho; é com grande prazer que hoje podemos elogiar sem restrições o envio do artista por nós combatido em outras ocasiões.

Anibal Mattos com o envio feito veio confirmar o conceito em que sempre foi tido pelos seus pares. Angenor Barros, antigo discípulo de Bernardelli e Visconti, enviou três trabalhos que têm despertado a atenção pela feição curiosa a eles emprestada.

Balthazar da Camara apresentou-se bem com o seus dois quadros: “Desejos” e “Mãe e Pátria”; preferimos “Desejos” pela maior dose de arrojo e movimento das figuras, onde muitas qualidades residem.

Bueno Treidler [sic] [Benno Treidler] é o técnico impecável de sempre: as suas aquarelas são magníficas.

“Gastão Penalva”, “Armando Braga”, “Cismando” e “Ouro sobre azul” são os quadros que Augusto Bracet enviou ao Salão; exceptuando-se “Cismando”, as outras telas revelam magníficas qualidades: nos retratos muito caráter e esse “Ouro sobre azul” um sabor decorativo pela primeira vez aparecido nas paisagens que tem pintado.

Pedro Bruno, consagrado pela opinião pública, é, fora de dúvida, da sua geração, um dos melhores ornamentos; os trabalhos que apresentou, no Salão, são o melhor documento a tal respeito.

Candido Portinari revela-se mais uma vez um pintor forte; os retratos de “Olegario Marianno” e “Roberto Rodrigues” são duas obras de valor.

Virgilio Lopes Rodrigues apresentou-se magnificamente. Nada menos de seis telas foram por ele enviadas à grande feira de arte, notando-se em todas elas uma franca compreensão das dificuldades perfeitamente vencidas.

Com lealdade, devemos dizer que ao artista falta unicamente um pouco mais de técnica e uma pincelada mais nervosa; o dia em que Virgilio Lopes Rodrigues adquirir as mencionadas qualidades, pode, sem favor, formar ao lado dos nossos melhores artistas. Ousamos dizer semelhante coisa por sabermos o valor do pintor e a convicção com que enfrenta a natureza. Copacabana tem sido o seu campo de estudo e será, estamos certos, a estrada que o conduzirá ao apogeu. Zélia Ferreira nos dá um “carvão” promissor; no mesmo caso está Sarah Costa.

Cadmo Fausto de Souza, também concorrente ao prêmio de viagem, apresentou-se com “Mal-me-quer” e “Antes do baile”; em ambos os trabalhos residem boas qualidades de cor e desenho. Gaspar Magalhães é um velho frequentador dos Salões de Belas Artes. Os trabalhos que apresentou são bem o seu temperamento; neles vive flagrantemente a honestidade.

Gastão Sormenti [sic] [Gastão Formenti], que também é dos bons elementos do Salão, apresenta-se com “Último retoque”, “Paisagistas” e “Natureza morta”. Gerhard Orthof apresenta-se bem. Otto Bungner expôs “Ressaca” com qualidades.

Roberto Rodrigues, possuidor de um temperamento de elite, apresentou um único quadro: “O Suicida”; de concepção bizarra, a tela desperta a atenção dos visitantes. Não obstante o aspecto macabro da composição, percebe-se dentro dela alguma coisa mais que o desejo de produzir diferente dos outros. Em “O Suicida” há um sentimento recôndito, uma personalidade encasulada que, estamos certos, dentro em pouco se desprenderá das cadeias para aparecer nítida, com todos os flagrantes das individualidades formadas.

Especial registro merece Elyseu Visconti, o mestre consagrado por todos os títulos; dele são as maravilhosas telas: “Piedade”, “Retrato” e “Bahiana”. Em qualquer delas a personalidade do pintor aparece forte, vibrante de emoção e cheia de um espírito sempre novo e inconfundível. Da arte de Elyseu Visconti irradiam condições tais que, como a auréola, envolvem a sua personalidade tomando-a um padrão-guia para a mocidade. De tela para tela, o mestre evolui e caminha para a perfeição suprema.

Na mesma estrada vai sua gentilíssima filha, a senhorinha Yvonne [Yvonne Visconti]; da jovem pintora figuram no Salão duas obras cujo elemento principal é a figura; dela é ainda uma paisagem interessante e fina de cor; em qualquer dos trabalhos nota-se a boa orientação e o carinho para a Arte. A senhorinha Yvonne é dos mais novos expositores, porém, vai caminhando com real segurança. Entre as mulheres que apresentam na grande mostra, está a senhora Sarah Villela Figueiredo: o seu envio é forte e progressivo, consta de retratos, gênero de pintura a que vem se dedicando, com rara tenacidade, há alguns anos. Os retratos do “Professor Henrique Bernardelli”, “Dr. Amaury de Medeiros” e “Senhora Fonseca Costa”, incontestavelmente são trabalhos dignos de uma verdadeira artista. Discípula de Henrique Bernardelli tem sabido manter a responsabilidade que semelhante condição obriga; foi premiada já com a medalha de bronze em 1922 e medalha de prata em 1924. Concorrente ao prêmio de viagem no atual Salão, foi vencida sem sofrer, porém, os arranhões da derrota pois, o júri reconhecendo o seu merecimento conferiu-lhe o prêmio de encorajamento. D. Sarah Figueiredo é uma das mais legítimas esperanças, muito podemos esperar do seu privilegiado talento.

João de Azevedo nos dá uma bem tocada aquarela “Natureza morta” e Bernardo Pinto uma marinha “Vapores em descarga”: neste quadro o pintor apresenta-se um amaneirado e sem as qualidades que das outras vezes o destacavam dos seus pares.

Belmiro de Almeida mandou ao Salão a “Mulher nua” que figurou na sua mostra pessoal nitidamente realizada: tratando daquele trabalho tivemos a oportunidade de escrever: “Mulher nua” é o saxofone do conjunto. É a técnica impecável de um grande pintor. Em “Mulher nua” Belmiro abandonou os pelos de marta e as preocupações de imitar mosaicos; pintou, modelou com realidade aquela carne abundante de mulher, carne amadurecida que começa a perder o viço.

“Mulher nua” desagrada como estética, não tem finuras de forma nem linha elegante, porém, desperta admiração como feitura material; aquela carne vibra e entristece ao mesmo tempo! O papel de “Mulher nua” no ambiente da mostra de Belmiro de Almeida, quer nos parecer bem outro que uma simples exibição; é um documento forte da competência do autor como pintor, é um aviso gritante de que a decadência ainda não lhe bateu à porta...

Oxalá outros pudessem fazer o mesmo”

De Henrique Cavalleiro existe um punhado de obras que se contrastam: umas paisagens verdadeiramente lindas, cheias de luz, uns quadros positivamente doidos e duas séries de caricaturas magníficas. Olhando o envio de Henrique Cavalleiro temos a impressão de que o artista se diverte em desperdiçar talento em coisas pouco interessantes como “Mocidade”, “Sonho místico” e “Carioca”. Os trabalhos citados revelam bem como verdeira é a opinião de um dos nossos bons pintores: “Cavalleiro é um homem que, possuindo um brilhante verdadeiro, quer à viva força trocá-lo por um falso...” Bem poucas vezes temos ouvido tão verdadeira apreciação.

Henrique Cavalleiro, sabemo-lo, é um grande desenhador, daí não admitirmos a obra errada, desproporcionada e falha de originalidade que pretende impor ao ambiente carioca. Que o pintor nos perdoe a franqueza, porém as palavras que pronunciou na sua última entrevista publicada em “O Jornal” a isso nos autoriza. Vamos transcrever na íntegra as palavras do artista. Ei-las:

“Aqui, geralmente, a crítica não é exercida com o 'critério' e a competência que devem sempre acompanhá-la. Os jornais elogiam sem outra justificativa, muita vez, senão a da camaradagem. Pelo afeto se consegue tudo no Brasil, até ter talento e gênio. Esta facilidade de vitória faz com que, tornando-se a glória uma conquista fácil, ninguém procure trabalhar para aproveitar melhor a sua inteligência ou o seu saber. Veja bem que o Brasil nunca produziu um sábio, um grande pesquisador, um filósofo, que houvesse enriquecido o mundo com uma nova ideia, e, entretanto, reconheçamos que a inteligência brasileira é fértil e brilhante, viva a agitada e só não produz o homem de gênio porque não quer trabalhar, falta-lhe o hábito da pesquisa, o método da indagação e da ordem”.

Henrique Cavalleiro foi injusto com todos os que sempre receberam bem as suas obras, com os seus mestres e com os seus amigos: a crítica existe no Brasil, o que não existe são os indivíduos que a compreendam...

De Carlos Chambelland é a sugestiva tela “Beijo da Guanabara”, limpa de cor e muito bem desenhada: no trabalho, o pintor mostra-se um verdadeiro emotivo e um conhecedor profundo da sua arte.

Celso Kelly, como Roberto Rodrigues, está bem representado dentro da maneira que abraçou. Dias da Silva progride francamente; Edith de Aguiar confirma o conceito em que é tida. Eduardo Bevilacqua nos dá uma paisagem estudada com carinho; “S. Lourenço” revela bem o temperamento do pintor e o carinho que ele dispensa à sua arte. Eduardo Bevilacqua há muitos anos não se apresentava nas “Exposições Gerais”, é pois com especial agrado que registramos o seu reaparecimento. “Tipos do Norte” e “Interior de Floresta” recomendam o seu autor, o Sr. Euclydes Fonseca. Georgina de Albuquerque encanta com as três telas que enviou: é a mesma artista do “Ar livre”, sempre brilhante, emotiva e segura da palheta.

Gilda Moreira e Haydéa Santiago são duas pintoras de largos recursos, os seus envios patenteiam o melhor testemunho do que diremos. Guttmann Bicho parece ter atingido o ponto culminante da sua arte: os quadros que mandou ao Salão assim o atestam. O “Retrato do Dr. Paulo Boneschi” é um trabalho cheio de qualidades e recursos dignos de destaque: retratista, soube focalizar a personalidade do orientalista com rara felicidade.

Helios Seelinger, bizarro, fulgurante e estranho nos dá “Pedro Malazarte”, uma grande tela onde o seu talento aparece forte e sugestivo. De D. Irene Ribeiro França existem duas telas: “Flor de mansarda” e “Bananeiras”, interessantes de cor. J. Seelinger Fleury, muito jovem ainda, revelou-se de forma pessoal e curiosa, deixando entrever um futuro brilhante. De João Fahrion temos “Retrato” e “Arlequim” muito bem tocados e ricos de cor. Jordão de Oliveira apresentou-se magnificamente, principalmente em “Neves Manta”. Arthur Lucas nos ofereceu uma tela rica de cor e composição equilibrada. Lucilio de Albuquerque em todos os dois trabalhos apresentados, mostra-se o emotivo de sempre, o senhor de uma técnica forte que o destaca dentre todos os pintores, no Salão. Manoel Constantino, Manoel Santiago, Armando Vianna, Joaquim da Rocha Ferreira e Orozio Belem são uns verdadeiros triunfadores, apresentam-se magnificamente. Manoel Faria, em franco progresso, nos dá uma série de telas estudadas com carinho. Marques Junior apresentou-se com “Ventarola verde”, colorida com riqueza e propriedade. Jacoby, retratista vigoroso, nos deu um conjunto precioso do qual destacamos “Branco em branco”. Miguel Capllonck em “Chalana de pesca” e “Banhista” mostrou bem as suas aptidões. De Paula Fonseca destacamos “Recanto do jardim” e Sylvia Meyer “Cabeça de Moça”. Orlando Teruz está bem representado. Vicente Leite corresponde ao justo renome que vai conquistando. Estas são as nossas impressões sobre o Salão de Belas Artes.

A seguir damos na íntegra as premiações conferidas pelos respectivos juris, nas diversas seções:

“Artes aplicadas” – Grande medalha de ouro, à D. Joanna Pavlowla, pelos seus trabalhos e especialmente pelo de nº 387, “Livro do centenário da Câmara dos Deputados”, e Augusto Herboth, pelo trabalho nº 386, pequena medalha de ouro.

“Arquitetura” – Medalha de bronze, ao Sr. Luiz Signorelli; pequena medalha de prata, ao Sr. Roberto Magno de Carvalho, e 500$, aos Srs. Paulo Antunes Ribeiro, Correia Lima (Attilio) e Lucas Mayerhofer, pelo conjunto apresentado.

“Pintura” – Prêmio de Viagem, Armando Vianna, pelo trabalho nº 291, “Primavera em flor”; grande medalha de ouro, Pedro Bruno, pelo trabalho nº 44, “Mãe”; pequena medalha de ouro, Marques Junior, pelo trabalho nº 195, “Ventarola verde”; grande medalha de prata, aos Srs. Manoel Constantino, pelo trabalho nº 179, “Infância de Giotto”; e André Vento, pelo trabalho nº 16, “Adormecida”; pequena medalha de prata, aos Srs. Manoel Faria, pelo trabalho nº 108, “Último retoque”; Domingos Dias da Silva, pelo trabalho nº 78, “Cosendo a rede”; Orlando Teruz, pelo trabalho nº 275, “Perfis”; Joaquim da Rocha Ferreira, pelo trabalho nº 244, “Retrato”; Gilda Moreira, pelo trabalho nº 124, “Alegria de viver”; Anibal Mattos, pelo trabalho nº 21, “Ancoradouro”; Haidéa Santiago, pelo trabalho nº 131, “Hora da missa”; Orozio Belem, pelo trabalho nº 255, “Yáyá”; medalha de bronze, aos Srs. Heribert Niaud, pelo trabalho nº 140, “Mística”; Príncipe Paulo Gargarin, pelo trabalho nº 237, “Em descanso”; Roselli K. Torres, pelo trabalho nº 245, “Pé de arroz”; Yvonne Visconti, pelo trabalho nº 312, “Retrato”; José dos Santos, pelo trabalho nº 170, “De ponto”; Baz Domeneck, pelo trabalho nº 39, “Estudo de figura”; Vicente Leite, pelo trabalho nº 300, “De minha varanda”; menção de honra de 1º grau, Emília Marchesine, pelo trabalho nº 92, “Opilado”; Olga Pedrosa, pelo trabalho nº 216, “Chuva de ouro”; Palmyra Pedra, pelo trabalho nº 230, “Senhora D. P.”; Affonso Dias Martins, pelo trabalho nº 72, “Curativo”; Balthazar da Camara, pelo trabalho nº 28, “Mãe e Pátria”; Padua Dutra, pelo trabalho nº 277, “Preparo para doce”; Alcebiades Miranda, pelo trabalho nº 3, “Estudo de retrato”; Americo da Rocha, pelo trabalho nº 14, “Espanhola”; Agenor de Barros, pelo trabalho nº 19, “Cambuquira”; Alfredo Galvão, pelo trabalho nº 5, “Noiva”; Virgilio Lopes Rodrigues, pelo trabalho nº 202, “Praia de Copacabana”; Hugo Falbo, pelo trabalho nº 283, “Quando a fealdade é precoce”; menção honrosa de 2º grau, aos Srs. Heraclito Ribeiro dos Santos, pelo trabalho nº 138, “Senhorita Henriqueta”; Lucrecio Ferreira [sic] [Lupercio Ferraz], pelo trabalho nº 167, “Trecho do rio Faria”; Maria Francelina de Barros Falcão, pelo trabalho nº 193, “Cabeça de velho”; Paulo Mazzuchelli, pelo trabalho nº 235, “Senhorita Annurama”; Suzanna Mesquita, pelo trabalho nº 266, “Cabeça”; Odelli Castello Branco, pelo trabalho nº 213, “Flores”; Roberto Rodrigues, pelo trabalho nº 241, “Suicida”; Germinal Artesi, pelo trabalho nº 121, “Orando”; Francisco Acquarone, pelo trabalho nº 104, “Depósito de cal”; Maximiliano Valdez, pelo trabalho nº 199, “Barcos em Badalona”; Celso Kolli [sic], pelo trabalho nº 66, “Retrato”; Hilda Eixeulober, pelo trabalho nº 151, “Retrato”, e medalha de bronze, ao Sr. Jordão de Oliveira, pelo trabalho nº 166, “Retrato do Sr. Neves Manta”.

Prêmios em dinheiro – 1:000$, ao Sr. Manoel Santiago, pelo trabalho nº 249, “A carta”; Candido Portinari, pelo trabalho nº 50, “Retrato do poeta Olegario Marianno”; 500$, aos Srs. Miguel Campplocth, pelo trabalho “Banhista”, e Sarach Villela, pelo trabalho nº 261, “Professor Bernardelli” e 250$, aos Srs. Oswaldo Teixeira da Rocha, pelo trabalho nº 71, “Retrato”, e Cadman Fausto, pelo trabalho nº 101, “Antes do baile”.

“Escultura” – Grande medalha de ouro, ao Sr. Francisco de Andrade, pelo trabalho nº 317, “Golpe mortal”; pequena medalha de ouro, ao Sr. Cunha Mello, pelo trabalho nº 331, “Busto de S. Ex. o Sr. Dr. Arthur Bernardes”; Humberto Cavina, pelo trabalho nº 340, “São Francisco”; grande medalha de prata, aos Srs. Armando Braga, pelo trabalho nº 323, “Mãe”, e Lotte Benter, pelo trabalho nº 349, “Aviador”; pequena medalha de prata, aos Srs. L. B. Paes Leme, pelo trabalho nº259, “Melancolia”; Vicente Larocca, com o trabalho nº 363, “De profundis”, e José Pereira Barreto, pelo trabalho nº 33, “Busto do colega José Rangel”; menção honrosa de 2º grau, aos Srs. Homero da Silva, pelo trabalho nº 237, “Reflexão de uma flor”, e Yáyá Castro, pelo trabalho nº 363, “Busto do Senhor L. G.”; 1:000$, ao Sr. Laurindo Ramos, pelo trabalho nº 342, “Busto do professor Rocha Vaz”, e 250$ ao expositor Homero da Silva, pelo trabalho nº 237, “Reflexão de uma flor”.

“Gravura de medalhas e pedras preciosas” – Grande medalha de ouro, ao Sr. Adalberto de Mattos, com o trabalho nº 371; pequena medalha de ouro, ao Sr. Leopoldo Campos, pelo trabalho nº 381, “Medalha da Sociedade Riograndense”; medalha de bronze, ao Sr. Calmon Barreto, pelo trabalho nº 375, “Ero e o leão”; menção honrosa de 1º grau, ao Sr. Walter Rodrigues, pelo trabalho nº 383, “Montesquieu”, e 500$, ao Sr. Calmon Barreto.

ADALBERTO P. MATTOS [Adalberto Mattos - Artigos]


Imagens

“Sol de Outono” - Pedro Bruno

“No atelier” - João Timotheo

“Mal-me-quer” - Georgina de Albuquerque

“Primavera em flor” - Armando Vianna

“Infância de Giotto” - Manoel Constantino

“O Curupira” - Manoel Santiago

“Prof. Henrique Bernardelli” - Sarah Villela Figueiredo

“Olegario Marianno” - Candido Portinari

“Mal-me-queres” - Fausto de Souza

“Velho filósofo” - Antonino Mattos

“Piedade” - Elyseu Visconti

“Retrato” - Elyseu Visconti

“Cabeça de velho” - Francisco de Andrade

“Desejos” - Balthazar da Camara

“Adormecida” - André Vento

“Cabocla” - Manoel Santiago

“Radiosa” - Almeida Junior (L. F.)

“Dia de Verão” - Georgina de Albuquerque

“Perfis” - Orlando Teruz

“Retratos” - Orozio Belem

“O Suicida” - Roberto Rodrigues

“Mãe” - Pedro Bruno

“Fim de Pescaria” - Lucilio de Albuquerque

“Ouro sobre azul” - Augusto Bracet

“Nu de mulher” - Belmiro de Almeida

“Pedro Malazarte” - Helios Seelinger

“Branco em branco” - Meinhard Jacoby

“Tipos de Norte” - Euclydes Fonseca

“Elsa” - Edith Aguiar

“Retrato do Dr. Paulo Boneschi” - Guttman Bicho

“Neves Manta” - Jordão de Oliveira

“Barcos na Guanabara” - Anibal Mattos

“Volta do serviço” - Meinhard Jacoby

“O beijo da Guanabara” - Carlos Chambelland

“Recanto de Luxemburgo” - Paula Fonseca

“Efeito de Sol” - L. Franzeres

“S. Lourenço” - E. Bevilacqua

“Paisagem” - Henrique Cavalleiro

“Lago dos Nenúfares” - Manoel Faria

“Lagoa Rodrigo de Freitas” - Virgilio Lopes Rodrigues

“Dr. Arthur Bernardes” - Cunha e Mello

“Gaúcho” (detalhe) – Orestes Acquarone

“Reflexão de uma flor” - Homero Silva

“Cigarra” - Maria S. Meyer

“O Pintor M. Constantino” - Paulo Mazzucchelli

“A ventarola verde” - Marques Junior

“S. Francisco de Assis” - Humberto Cavina

“Espontâneo” - Armando Corrêa

“Calabar” - L. B. Paes Leme

“Retrato” - Vicente Leite

“De profundis” - Vicente Larocca

“Plaquete” [1, 2] - Adalberto Mattos

“Dançarina” - Calmon Barreto

“Menina e Moça” - Sylvia Meyer

“Retrato” - Joaquim Ferreira

“Projeto de Residência” por Paulo Antunes, A, Corrêa Lime e Lucas Mayerhofer

“Projetos” [1, 2] de Luiz Signorelli

“A dor” - Lotte Benter

“Retrato” - Yvonne Visconti

“Retrato do musicista M. S. F.” - Celso Kelly

“O Romance" – Haydéa Lopes Santiago

“Alegria de viver” - Gilda Moreira

“Retrato da Senhora D. P.” - Palmyra Pedra

“Flor de mansarda” - Irene Ribeiro França


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

MATTOS, Adalberto P.. O Salão de 1926. Illustração Brasileira, Rio de Janeiro, set. 1926, n/p.

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