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MATTOS, Adalberto. O Salão de Belas Artes. Illustração Brasileira, ano VI, n. 61, set. 1925, n/p.

De Egba

Edição feita às 18h50min de 13 de Junho de 2010 por Egba (Discussão | contribs)

Conforme a velha prática, inauguraram os nossos artistas, a Exposição de Belas Artes, no edifício em que funciona a Escola de Belas Artes. Como de costume, antes da sua abertura, as decisões pouco criteriosas dos Sr. Julgadores, em algumas das seções, levantaram acaloradas celeumas, agitaram o ambiente e despertaram curiosidade...

Precisamente, um dos motivos que levaram a opinião pública, sempre tão divorciada das mais complexas manifestações estéticas, é que nos leva a uma série de comentários perfeitamente oportunos. Tudo quanto apareceu em letra de forma, os mexericos mais desconexos com infindáveis séquitos de aborrecimentos, teve origem justamente na precipitação e falta de amor pelos comezinhos princípios ensinados pela justiça.

Bem raros são os julgamentos de admissão ao Salão Oficial que não provocam protestos justos e injustos. Uns gritam orientados pelo despeito de verem recusadas obras realmente desfavorecidas de qualidades; outros, francamente amparados pela razão.

E tudo isso acontece por quê? Pela simples ausência de critério, pelo emprego de dois pesos e duas medidas, conforme o momento...

No momento presente existem protestos fundamentados assim como os despropositados: vamos nos preocupar dos primeiros. Foi nota escandalosa, a recusa, por parte de alguns membros do Júri da seção de pintura, de uma tela da autoria do distinto pintor Manoel Santiago; o quadro, depois de um julgamento favorável, foi posto a margem sob a gravíssima alegação de ser uma obra imoral! A acusação tremenda, partindo de um júri oficial, caiu com todo o seu peso sobre a cabeça do artista; não fosse ele um temperamento de lutador, teria, forçosamente, sucumbido ao insulto atirado com tanta dureza ao seu mérito de artista e ao seu nome honrado de exemplar chefe de família. A acusação, em se tratando do quadro de Manoel Santiago, atinge o absurdo (somente uma miopia maldosa seria capaz de julgá-la verdadeira). Uma sesta tropical foi a tela atingida pela perversidade. É a primeira vez que no Brasil, um artista recebe semelhante ultraje: unicamente uma visão doentia pode descobrir na tela de Manoel Santiago, vestígios, embora velados, de uma intenção pouco compatível com a sua educação, com a sua religião e para com o ambiente a que se destinara a obra.

Bem embaraçosa e pitoresca é a situação criada com a acusação assacada, o critério estabelecido importa quase no fechamento das portas da Escola Nacional de Belas Artes, onde figuram os maravilhosos calcos da estatuária grega em plena NUDEZ, onde figuram a Faceira e Santo Estevão, de Rodolpho Bernardelli; a Messalina, de Henrique Bernardelli; a Escrava, de Antonio Mattos; Menina e Moça, de Correia Lima; Paraíba, de Almeida Reis; Pompeiana, de Zeferino da Costa; Leda e o Cisne, de Jean Baptiste Pierre; Paraíso restituído, de Lucilio de Albuquerque; Reflexos, de Carlos Oswaldo; Eva, de Chautron; David e Abzag, de Pedro Américo; As oreades, de Visconti; Sono, de Lucílio de Albuquerque e principalmente Estudo de mulher quadro impregnado de realismo zolista tão em voga quando o Sr. Rodolpho Amoêdo, seu autor, o concebeu! Se não quiserem cerrar as portas do palácio das Belas Artes, no mínimo, terão que vestir tangas no Apolo de Belvedere, no Laocoonte e em todo séquito de nus maravilhosos que enchem de beleza resplandecente as galerias do nosso museu máximo... É tão absurdo o critério, que não nos é possível acreditar na sua sinceridade.

O mal está feito e para ele não há remédio. Deixemos, porém, as águas turvas onde a isenção do espírito falece para dar lugar a miopia maldosa. Vejamos como se apresenta os nossos artistas velhos e moços. Começaremos por João Baptista da Costa, o mestre da nossa paisagem tranquila. Com alegria constatamos que a sua arte não envelhece, muito pelo contrário, cada vez é mais radiosa, caminhando sempre em ascensão para a perfeita beleza. Qualquer das telas apresentadas bastava para consagrá-lo: “Ao amanhecer”, “Grupo de pau d'alhos”, “Fazenda Boa Vista”, “Dia nublado” e “Manhã” são os quadros. Mário Navarro da Costa constitui uma das notas mais brilhantes do Salão, as telas Veneza no outono, Foz do Rio Leça e Canal Flamengo chamam a atenção do visitante, obrigando-o a demorar-se diante delas numa contemplação beata de gozo; não há exagero no que dizemos, tivemos ocasião de ver os colegas do pintor felicitá-lo com sinceridade; registramos o acontecido por vermos que as nossas palavras aqui mesmo divulgadas, encontraram eco, forçaram, mesmo aos mais exigentes a reconhecer em Navarro da Costa um consagrado artista merecedor da estima de quantos amam verdadeiramente a beleza. Nas telas de Navarro da Costa, a nossa mocidade muito pode aprender: contemple ela a maneira do pintor quando trata a água e os céus, a arquitetura beijada de luz, cheia de vida e verdadeira a ponto de nos transportar aos sítios originais. Mario Navarro da Costa atingiu a culminância desejada, porém, muita obra bela haveremos ainda de contemplar porque a sua fé é tão grande como a sua arte.

Georgina de Albuquerque é uma criatura cuja alma adeja sempre de mãos dadas com a glória; permanente é o seu êxtase diante da beleza pura, daí a grande emoção vivente em todos os quadros que pinta. O envio deste ano vem colocá-la em situação de destaque entre os seus pares, nivelando-a com os mestres consagrados, mesmo contra a vontade dos maldizentes e despeitados dos seus triunfos...

“Decepção” e “No terraço” são obras já conhecidas; detalhadamente, a crítica, delas se ocupou enaltecendo-lhes o mérito e as qualidades. Da aristocracia artística é ainda “O segredo da flor”, que, sem favor, deve ser colocada entre as obras-prima da nossa pintura contemporânea. Tudo, na pequena tela, demonstra a segurança técnica e emotiva de Georgina de Albuquerque. De uma pastosidade sentida e simples, o quadro conta um hino de beleza, embala com doçura as almas bem formadas que sabem respeitar a obra alheia... Bem poucos são os artistas possuidores da operosidade de Georgina de Albuquerque; todos os salões de Belas Artes encontram na pintora esteio forte capaz de erguê-los sempre a altura que merece ser colocado.

Lucilio de Albuquerque apresenta-se com “A benção Divina”, “Doceira Baiana”, “O Arrastão” e “Manhã de Sol”, os seus dotes de artista.

Eliseu Visconti, consagrado autor de tantas telas e primorosas decorações, está presente no Salão anual com uma encantadora paisagem, Vila Rica. No quadro, os mais delicados predicados aparecem; o ambiente rico do lugar foi pretexto para o mestre criar uma obra-prima, irmã das já produzidas. As gamas envolvidas se sucedem nos vários planos pincelados com rara maestria, e a perspectiva rigorosa, interpretada pela sua visão adestrada, mostra o encanto da pitoresca localidade rendilhada de verdes calmos e montanhas altaneiras, beijadas pelo sol filtrado em nuvens que se adivinham... Vila Rica é uma das mais belas obras do Salão, confirmando com segurança a aureola do mestre criados da “Maternidade”, “Oreades” e “S. Sebastião”. Sua filha Yvone Visconti, embora principiante, mostra já um seguro pendor para a arte: Em Férias, Primavera, O chefe, A boneca e notadamente Leitura são provas evidentes disso.

Gaspar de Magalhães, nome familiar aos nossos amadores de arte, apresenta-se com “Anoitecendo” e “Velho mosqueteiro”. “Velho mosqueteiro” é uma cabeça bem tocada. “Anoitecendo” nos mostra um dos maravilhosos crepúsculos a morrer no horizonte a detrás de escarpados rochedos; Os quadros de G. Magalhães contrastando-se retratam a feição poliforme de seu espírito privilegiado, sempre alerta as sensações de beleza; os quadros do pintor não nos causam a menor admiração, de longa data nos habituamos a registrar os merecidos louros, desde que o seu nome apareceu nas lides artísticas, os triunfos se sucedem, firmando cada vez mais a sua individualidade como artista de raça.

Fausto de Souza, que é um artista de grande futuro, revela, no envio feito, uma sensibilidade digna de registro; as suas telas Cajueiros e Jesus e a Samaritana, mostram francos progressos na arte de pintar e um pronunciado feito como compositor. No quadro bíblico, o motivo escolhido foi feliz, interpretando bem a frase que o inspirou:

“Se souberes quem é o que te pede de beber, talvez tu lh'o pedirás e Ele te daria a água que dá a vida.”

No semblante de Nazareno há realmente uma religiosidade sentida e na máscara da Samaritana uma expressão correspondente ao todo da obra. Como afinação, as figuras se recomendam e como composição agradam ao primeiro exame.

Não nos é possível dizer o mesmo do Sr. Petrus Verdié,; professor da Escola Nacional de Belas Artes. O discípulo de Falguieres, pertence ao número dos artistas que não deviam figurar na exposição; os seus quadros são verdadeiros desastres. Por mais que nos esforcemos, não conseguimos descobrir qualidades nas seis telas apresentadas; fossem elas apresentadas por qualquer aluno da Escola, teriam fatalmente o destino merecido; o porão. Já que estamos tratando do Sr. Verdié, vejamos também o que mandou para a seção de Escultura. Assinado pelo pintor-escultor existe um grande bloco de madeira esculpida representando o “Conde da Barca”, e que foi adquirida pela Pinacoteca Oficial. O trabalho em questão, francamente, nada tem de notável a não ser o tamanho; tudo no retrato é igual e da mesma forma tratado: cabelos, máscara, pano e atributos, possuem a mesma técnica e a mesma interpretação. Dirão que é um esboço, que ao trabalho faltam uns toques finais, o bafejo sagrado que as verdadeiras obras de arte possuem; se assim for, o trabalho não devia figurar na exposição, nem tampouco ser adquirido pela Pinacoteca... Bem ao lado do trabalho do Sr. Verdié está uma cabeça, também em madeira, esculpida por um artista mexicano. Que abismo vai de um trabalho ao outro! A “Cabeça de Indio”, comove, faz pensar, nos transportando à verdadeira escultura em madeira. Tudo naquela cabeça é cheio de encanto: a boca, modelada maravilhosamente, o nariz, a face, os olhos esgazeados a olharem profundamente a olharem profundamente, com doçura, com piedade, para os que insinceramente a tentam ridicularizar.

A cabeça modelada pelo “selvagem” arranca turbilhões de pensamentos, ao passo que o “Conde da Barca do discípulo de Falguiere, faz unicamente sorrir...

Manuel Santiago, o pintor atingido pela maldade, tem um punhado de obras, onde o seu valor aparece espelhado. Qualquer dos seus quadros encarna um sentimento forte, uma moral altiva que não merece ser apedrejada.

No mesmo caso está a Sra. Haydeia L. Santiago, mulher do pintor. A sua bagagem no salão é forte e reveladora de um raro espírito de artista.

A. Sartmann está bem representado com sua série de bons desenhos e um ótimo retrato de Frei Pedro Sinzig. André Vento, nos dá um painel intitulado “Sonho Azul”, com boas qualidades de pintura. Anibal Mattos apresentou-se com quatro telas, do grupo destacamos “Porto da Guanabara”, marinha muito bem tocada, reveladora de uma visão adestrada.

João de Azevedo, 'Bas Domenech, 'Manoel Faria, 'Fred Brandon, 'Frontin Hess, 'Irene França, 'Arthur Lucas e 'Julieta de Moura Modesto Guimarães, assinam bons trabalhos, mostrando compreensão dos motivos escolhidos.

Guttman Bicho, que já tem um nome feito, está por sua vez bem representado. De Eugenio Latour, figuram no salão duas telas” “E porque pecaste?”, é um projeto para painel. Em ambos os trabalhos o pintor mostra quanto vale. Edith de Aguiar, firmou o seu nome como retratista. O seu auto-retrato é já uma obra bastante recomendável.

Bernardino S. Pereira está magnificamente representado. Do seu envio, destacamos o quadro de flores. Augusto Bracet, merece franco elogio; o quadro “Fim do Calvário” é bastante interessante e revelador de uma bela dose de emoção e qualidades de compositor. O [“retrato do Sr. Dionísio Ramos Monteiro”], sem favor, pode figura ao lado dos melhores, no atual Salão. Pedro Bruno continua fazendo progressos; qualquer dos quadros enviados possui maravilhosas qualidades de cor e desenho. Muitos artistas de renome são incapazes de fazer o que Pedro Bruno apresentou; sem receio de errar, podemos adiantar que no caso estão mesmo professores da Escola... De Henrique Cavaleiro figura na mostra um punhado de obras calcadas nas correntes ultramodernistas; não encontramos palavras capazes de definir o que o pintor quis fazer. Os mestres da crítica indígena afirmam que tudo aquilo é muito bom, que é a última palavra em matéria de pintura, etc., etc.

No mesmo caso está o Sr. De Murtas com o seu “Vaqueiro de Burgos”, uma franca imitação de Zuloaga, mas imitação fraquinha e mal desenhada.

Mario Tulio está representado com um conjunto de nove telas, sem exitar destacamos “Perfil de Poeta”.

Oswaldo Teixeira, está mal, os retratos enviados são amaneirados, duros, quase fotográficos.


Imagens

"Dia nublado" – Baptista da Costa

"O segredo da flor" – Georgina de Albuquerque

"Decepção" – Georgina de Albuquerque

"Retrato" – Augusto Bracet

"Turbante azul" – Leopoldo Gottuzzo

"Retrato" - M. Constantino

"Perfil de senhorita" – Cezar Turatti

"Noturno de Chopin" – Manoel Santiago

"Filhos do mar" – Pedro Bruno

"Vestígios do passado" – Edgard Parreiras

"Manhã de sol" – Lucílio de Albuquerque

"No terraço" – Georgina de Albuquerque

"Malmequer" – Corrêa Lima

Augusto Girardet - O mestre da medalha que tanto brilho emprestou ao Salão de Belas Artes

"Cabeça de índio"Fidias

"No cais" – Garcia Bento

"Flores ao sol" – A. Vianna

"O progresso" – J. Zacco Paraná

"Retrato" – Bibiano Silva

"O Guia Lopes" – Antonino Mattos


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Daniele Aldano Rodrigues

MATTOS, Adalberto. O Salão de Belas Artes. Illustração Brasileira, ano VI, n. 61, set. 1925, n/p.[[Título do link]]

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