. MATTOS, Adalberto. O Salão de Belas Artes. Illustração Brasileira, ano VI, n. 61, set. 1925, n/p. - Egba

MATTOS, Adalberto. O Salão de Belas Artes. Illustração Brasileira, ano VI, n. 61, set. 1925, n/p.

De Egba

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''[[Georgina de Albuquerque]]'' é uma criatura cuja alma adeja sempre de mãos dadas com a glória; permanente é o seu êxtase diante da beleza pura, daí a grande emoção vivente em todos os quadros que pinta. O envio deste ano vem colocá-la em situação de destaque entre os seus pares, nivelando-a com os mestres consagrados, mesmo contra a vontade dos maldizentes e despeitados dos seus triunfos...
''[[Georgina de Albuquerque]]'' é uma criatura cuja alma adeja sempre de mãos dadas com a glória; permanente é o seu êxtase diante da beleza pura, daí a grande emoção vivente em todos os quadros que pinta. O envio deste ano vem colocá-la em situação de destaque entre os seus pares, nivelando-a com os mestres consagrados, mesmo contra a vontade dos maldizentes e despeitados dos seus triunfos...
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[http://www.dezenovevinte.net/egba/index.php?title=Imagem:Ib.1925.ga2.jpg “Decepção”] e [http://www.dezenovevinte.net/egba/index.php?title=Imagem:Ib.1925.ga3.jpg “No terraço”] são obras já conhecidas; detalhadamente, a crítica, delas se ocupou enaltecendo-lhes o mérito e as qualidades. Da aristocracia artística é ainda [“O segredo da flor”], que, sem favor, deve ser colocada entre as obras-prima da nossa pintura contemporânea. Tudo, na pequena tela, demonstra a segurança técnica e emotiva de Georgina de Albuquerque. De uma pastosidade sentida e simples, o quadro conta um hino de beleza, embala com doçura as almas bem formadas que sabem respeitar a obra alheia... Bem poucos são os artistas possuidores da operosidade de Georgina de Albuquerque; todos os salões de Belas Artes encontram na pintora esteio forte capaz de erguê-los sempre a altura que merece ser colocado.
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''Lucilio de Albuquerque'' apresenta-se com “A benção Divina”, “Doceira Baiana”, “O Arrastão” e [http://www.dezenovevinte.net/egba/index.php?title=Imagem:Ib.1925.la1.jpg “Manhã de Sol”], os seus dotes de artista.
''Lucilio de Albuquerque'' apresenta-se com “A benção Divina”, “Doceira Baiana”, “O Arrastão” e [http://www.dezenovevinte.net/egba/index.php?title=Imagem:Ib.1925.la1.jpg “Manhã de Sol”], os seus dotes de artista.

Edição de 18h29min de 13 de Junho de 2010

Conforme a velha prática, inauguraram os nossos artistas, a Exposição de Belas Artes, no edifício em que funciona a Escola de Belas Artes. Como de costume, antes da sua abertura, as decisões pouco criteriosas dos Sr. Julgadores, em algumas das seções, levantaram acaloradas celeumas, agitaram o ambiente e despertaram curiosidade...

Precisamente, um dos motivos que levaram a opinião pública, sempre tão divorciada das mais complexas manifestações estéticas, é que nos leva a uma série de comentários perfeitamente oportunos. Tudo quanto apareceu em letra de forma, os mexericos mais desconexos com infindáveis séquitos de aborrecimentos, teve origem justamente na precipitação e falta de amor pelos comezinhos princípios ensinados pela justiça.

Bem raros são os julgamentos de admissão ao Salão Oficial que não provocam protestos justos e injustos. Uns gritam orientados pelo despeito de verem recusadas obras realmente desfavorecidas de qualidades; outros, francamente amparados pela razão.

E tudo isso acontece por quê? Pela simples ausência de critério, pelo emprego de dois pesos e duas medidas, conforme o momento...

No momento presente existem protestos fundamentados assim como os despropositados: vamos nos preocupar dos primeiros. Foi nota escandalosa, a recusa, por parte de alguns membros do Júri da seção de pintura, de uma tela da autoria do distinto pintor Manoel Santiago; o quadro, depois de um julgamento favorável, foi posto a margem sob a gravíssima alegação de ser uma obra imoral! A acusação tremenda, partindo de um júri oficial, caiu com todo o seu peso sobre a cabeça do artista; não fosse ele um temperamento de lutador, teria, forçosamente, sucumbido ao insulto atirado com tanta dureza ao seu mérito de artista e ao seu nome honrado de exemplar chefe de família. A acusação, em se tratando do quadro de Manoel Santiago, atinge o absurdo (somente uma miopia maldosa seria capaz de julgá-la verdadeira). Uma sesta tropical foi a tela atingida pela perversidade. É a primeira vez que no Brasil, um artista recebe semelhante ultraje: unicamente uma visão doentia pode descobrir na tela de Manoel Santiago, vestígios, embora velados, de uma intenção pouco compatível com a sua educação, com a sua religião e para com o ambiente a que se destinara a obra.

Bem embaraçosa e pitoresca é a situação criada com a acusação assacada, o critério estabelecido importa quase no fechamento das portas da Escola Nacional de Belas Artes, onde figuram os maravilhosos calcos da estatuária grega em plena NUDEZ, onde figuram a Faceira e Santo Estevão, de Rodolpho Bernardelli; a Messalina, de Henrique Bernardelli; a Escrava, de Antonio Mattos; Menina e Moça, de Correia Lima; Paraíba, de Almeida Reis; Pompeiana, de Zeferino da Costa; Leda e o Cisne, de Jean Baptiste Pierre; Paraíso restituído, de Lucilio de Albuquerque; Reflexos, de Carlos Oswaldo; Eva, de Chautron; David e Abzag, de Pedro Américo; As oreades, de Visconti; Sono, de Lucílio de Albuquerque e principalmente Estudo de mulher quadro impregnado de realismo zolista tão em voga quando o Sr. Rodolpho Amoêdo, seu autor, o concebeu! Se não quiserem cerrar as portas do palácio das Belas Artes, no mínimo, terão que vestir tangas no Apolo de Belvedere, no Laocoonte e em todo séquito de nus maravilhosos que enchem de beleza resplandecente as galerias do nosso museu máximo... É tão absurdo o critério, que não nos é possível acreditar na sua sinceridade.

O mal está feito e para ele não há remédio. Deixemos, porém, as águas turvas onde a isenção do espírito falece para dar lugar a miopia maldosa. Vejamos como se apresenta os nossos artistas velhos e moços. Começaremos por João Baptista da Costa, o mestre da nossa paisagem tranquila. Com alegria constatamos que a sua arte não envelhece, muito pelo contrário, cada vez é mais radiosa, caminhando sempre em ascensão para a perfeita beleza. Qualquer das telas apresentadas bastava para consagrá-lo: “Ao amanhecer”, “Grupo de pau d'alhos”, “Fazenda Boa Vista”, “Dia nublado” e “Manhã” são os quadros. Mário Navarro da Costa constitui uma das notas mais brilhantes do Salão, as telas Veneza no outono, Foz do Rio Leça e Canal Flamengo chamam a atenção do visitante, obrigando-o a demorar-se diante delas numa contemplação beata de gozo; não há exagero no que dizemos, tivemos ocasião de ver os colegas do pintor felicitá-lo com sinceridade; registramos o acontecido por vermos que as nossas palavras aqui mesmo divulgadas, encontraram eco, forçaram, mesmo aos mais exigentes a reconhecer em Navarro da Costa um consagrado artista merecedor da estima de quantos amam verdadeiramente a beleza. Nas telas de Navarro da Costa, a nossa mocidade muito pode aprender: contemple ela a maneira do pintor quando trata a água e os céus, a arquitetura beijada de luz, cheia de vida e verdadeira a ponto de nos transportar aos sítios originais. Mario Navarro da Costa atingiu a culminância desejada, porém, muita obra bela haveremos ainda de contemplar porque a sua fé é tão grande como a sua arte.

Georgina de Albuquerque é uma criatura cuja alma adeja sempre de mãos dadas com a glória; permanente é o seu êxtase diante da beleza pura, daí a grande emoção vivente em todos os quadros que pinta. O envio deste ano vem colocá-la em situação de destaque entre os seus pares, nivelando-a com os mestres consagrados, mesmo contra a vontade dos maldizentes e despeitados dos seus triunfos...

“Decepção” e “No terraço” são obras já conhecidas; detalhadamente, a crítica, delas se ocupou enaltecendo-lhes o mérito e as qualidades. Da aristocracia artística é ainda “O segredo da flor”, que, sem favor, deve ser colocada entre as obras-prima da nossa pintura contemporânea. Tudo, na pequena tela, demonstra a segurança técnica e emotiva de Georgina de Albuquerque. De uma pastosidade sentida e simples, o quadro conta um hino de beleza, embala com doçura as almas bem formadas que sabem respeitar a obra alheia... Bem poucos são os artistas possuidores da operosidade de Georgina de Albuquerque; todos os salões de Belas Artes encontram na pintora esteio forte capaz de erguê-los sempre a altura que merece ser colocado.

Lucilio de Albuquerque apresenta-se com “A benção Divina”, “Doceira Baiana”, “O Arrastão” e “Manhã de Sol”, os seus dotes de artista.

Eliseu Visconti, consagrado autor de tantas telas e primorosas decorações, está presente no Salão anual com uma encantadora paisagem, Vila Rica. No quadro, os mais delicados predicados aparecem; o ambiente rico do lugar foi pretexto para o mestre criar uma obra-prima, irmã das já produzidas. As gamas envolvidas se sucedem nos vários planos pincelados com rara maestria, e a perspectiva rigorosa, interpretada pela sua visão adestrada, mostra o encanto da pitoresca localidade rendilhada de verdes calmos e montanhas altaneiras, beijadas pelo sol filtrado em nuvens que se adivinham... Vila Rica é uma das mais belas obras do Salão, confirmando com segurança a aureola do mestre criados da “Maternidade”, “Oreades” e “S. Sebastião”. Sua filha Yvone Visconti, embora principiante, mostra já um seguro pendor para a arte: Em Férias, Primavera, O chefe, A boneca e notadamente Leitura são provas evidentes disso.


Imagens

"Dia nublado" – Baptista da Costa

"O segredo da flor" – Georgina de Albuquerque

"Decepção" – Georgina de Albuquerque

"Retrato" – Augusto Bracet

"Turbante azul" – Leopoldo Gottuzzo

"Retrato" - M. Constantino

"Perfil de senhorita" – Cezar Turatti

"Noturno de Chopin" – Manoel Santiago

"Filhos do mar" – Pedro Bruno

"Vestígios do passado" – Edgard Parreiras

"Manhã de sol" – Lucílio de Albuquerque

"No terraço" – Georgina de Albuquerque

"Malmequer" – Corrêa Lima

Augusto Girardet - O mestre da medalha que tanto brilho emprestou ao Salão de Belas Artes

"Cabeça de índio" – Fidias

"No cais" – Garcia Bento

"Flores ao sol" – A. Vianna

"O progresso" – J. Zacco Paraná

"Retrato" – Bibiano Silva

"O Guia Lopes" – Antonino Mattos


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Daniele Aldano Rodrigues

MATTOS, Adalberto. O Salão de Belas Artes. Illustração Brasileira, ano VI, n. 61, set. 1925, n/p.[[Título do link]]

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