. MATTOS, Adalberto. O SALÃO DE MCMXXIV. PINTURA ESCULTURA ARQUITETURA GRAVURA. Illustração Brasileira, Rio de Janeiro, ago. 1924, n/p. - Egba

MATTOS, Adalberto. O SALÃO DE MCMXXIV. PINTURA ESCULTURA ARQUITETURA GRAVURA. Illustração Brasileira, Rio de Janeiro, ago. 1924, n/p.

De Egba

POR ADALBERTO MATTOS [Adalberto Mattos - Artigos]

Com o atual Salão, realiza o Conselho Superior de Belas Artes a sua trigésima primeira mostra, onde os nossos artistas apresentam as suas obras. De lastimar é, porém, a obstinada ausência de muitos dos mais acatados mestres da arte patrícia; deles deveria partir o exemplo, a apresentação das suas obras constituiria, estamos certos, verdadeiras lições de arte para a mocidade dos dias que correm, e dariam às egrégias individualidades que nos honram com as suas visitas, uma ideia perfeitamente nítida do nosso verdadeiro estado artístico, depois da vinda da Missão de 1816. Perfeitamente oportunos julgamos alguns comentários sobre o movimento de 1816; movimento, incontestavelmente causador do que hoje possuímos em matéria de Arte.

Um decreto assinado pelo Marquês de Aguiar, em 12 de Agosto de 1816, foi a causa do conspícuo movimento e consequente vinda para o nosso ambiente de um punhado de valorosos artistas. O referido decreto foi o primeiro passo para a formação metodizada do ensino das artes no Brasil. Os acontecimentos políticos da época, impediram, porém, a imediata prática do objetivo. Enquanto melhor oportunidade era esperada, graves contratempos sobrevieram; entre eles figuram a morte do Conde da Barca, verdadeiro amparo dos artistas, e a de Joaquim Le Breton, chefe da colônia (1).

O Visconde de São Lourenço, possuidor de um espírito equilibrado, empreendeu, porém, o prosseguimento da obra iniciada. Pelo seu prestígio, conseguiu a promulgação de um decreto em 12 de Outubro de 1820, criando uma Real Academia para o estudo das artes; infelizmente a Academia sonhada não logrou existência; sendo a 23 de Novembro do mesmo ano, publicado um outro decreto, cujo teor julgamos interessante reproduzir. Ei-lo: “Falecendo Le Breton em 1819, no ano seguinte chegou a esta corte o Sr. Henrique José da Silva, pintor assaz conhecido por seu talento e produções na cidade de Lisboa, a solicitar um despacho para seu filho; e chegando ao conhecimento do Exmo. Thomaz Antonio de Villa Nova Portugal o quanto era abalizado em pintura e desenho esse artista, convidou-o a ficar nesta Corte, oferecendo-lhe o lugar que escolhesse na Academia, e a Diretoria das aulas, vaga por falecimento de Le Breton. Como não se achasse nomeado o lente de desenho, escolheu ele esta cadeira, e então lavrou-se o decreto de 23 de Novembro de 1820, no qual ordenava Sua Majestade que, sendo conveniente entrar em efetivo exercício algumas das classes dos estatutos da Academia e Escola Real de Belas Artes, os mandava entrar em efetividade, observando-se os estatutos, que baixarão assinados pelo dito Exmo. Secretário de Estado dos Negócios do Reino; eis a relação das pessoas, de que faz menção o dito decreto: Lente de Desenho, Henrique José da Silva, 800$, e como diretor das aulas, 200$; Secretário da Academia, Luiz Rafael Loyé, 480$; Lente de Pintura Histórica, João Baptista de Bret, 800$; Dito de Paisagem, Nicolao Antonio Taunay, 800$; dito de Escultura, Augusto Taunay, 800$; dito de Arquitetura, Augusto Victorio Grandjean de Montigny, 800$: dito de Mecânica, Francisco Ovide, 800$; Pensionário de Desenho e Pintura, Simplício Rodrigues de Sá, 300$; José Christo Moreira, 300$; Francisco Pedro do Amaral, 300$; dito de Escultura, Marcos Ferrez, 300$; dito de Gravura, Zeferino Ferrez, 300$000. Rio de Janeiro, 25 de Novembro de 1820 - Thomaz Antonio de Villa Nova Portugal.” A nomeação de Henrique José da Silva teve o dom de interromper a harmonia reinante entre os artistas; devido a ela, profundos desgostos sobrevieram, obrigando Nicolau Taunay a retirar-se para sua pátria.

Infrutíferos foram todos os esforços até 1821, em virtude de acontecimentos políticos e intrigas; só depois desse período é que surgiram alguns frutos devidos aos esforços de Montygni [sic], De Bret e Felix Emilio Taunay. Em um espaço de tempo relativamente exíguo, conseguiram aqueles mestres preparar um grupo de discípulos de mérito, cujos nomes vieram até nossos dias, aureolados de merecida glória. Esse grupo, que sem exagero podemos considerar possuidor da prioridade orientada na pintura brasileira, era composto dos artistas Simplício Sá, José de Christo Moreira, portugueses; Affonso Falcor, francês; Manoel de Araújo Porto Alegre, Francisco Pedro Amaral, Francisco de Souza Lobo, José Carvalho dos Reis e José da Silva Arruda, brasileiros. Esses foram os frutos diretos da Missão; daí por diante os artistas multiplicaram-se, cresceram, e aos poucos formavam a já aprimorada cópia de obras que ornam a nossa Pinacoteca.

* * *

Entre os mestres que figuram na mostra oficial, ocupam o primeiro plano Eliseu Visconti e João Baptista da Costa; o primeiro, com um grupo de obras de alto sabor decorativo e desenhos magistrais; e o segundo, com uma encantadora coleção de paisagens belas e emocionantes, como todas as obras saídas da sua privilegiada palheta. João Baptista da Costa encarna bem o intérprete das nossas paisagens calmas, do verde sempre vibrante das montanhas e dos campos; é o poeta criador que sabe transformar uma nesga de céu em um poema grandioso de beleza e de harmonia. Não especificamos este ou aquele quadro do ilustre mestre, todos são maravilhosos e nos despertam o mesmo sentimento de alegria e de prazer infinito; mesmo se quiséssemos estabelecer comparações, impossível seria fazê-lo; as obras de Baptista da Costa são de um afinamento tal que atingem um verdadeiro grau de perfeição! O mestre criador do Transe Doloroso é um artista sempre moço, é a nosso ver um pintor que honra a sua terra como muito poucos podem fazê-lo. Sem hesitar, colocamos o artista entre os mais fortes pintores modernos contemporâneos do mundo; naturalmente, os adeptos vermelhos do “modernismo” julgarão rematadamente tola a classificação que fazemos, chamando Baptista da Costa de pintor moderno; se assim julgarem, muito pouco nos importa, fora de qualquer cogitação, colocamos os considerados “reformadores”, principalmente os de nossa terra, que não tem feito outra coisa que copiar e reproduzir as coisas do velho mundo, fazendo obra de cabotinismo pouco inteligente...

Julgamo-nos muito felizes em assim pensar, e com a maior lealdade o confessamos.

É uma questão de princípios.

Se errados estamos, muito folgamos com isso, pois estamos em boa companhia..., na companhia dos intérpretes da beleza que reputamos verdadeira, e também na companhia dos que sabem colocar um olho e um nariz nos seus respectivos lugares...

Muitas vezes ouvimos um velho mestre, artista e sábio, dizer: “Deus é o artista por excelência, - o onisciente, - o único que pode e soube dar às suas obras imortais, na congruência de seu fim, as harmonias congênitas do bom, do belo e do divino. O gênio, que é a supremacia das faculdades intelectuais do homem, está para o mundo moral como a luz está para o mundo físico: tirai o sol, esse esplêndido fanal do universo, e o orbe, obumbrado, perdido no silencio da tristeza, se afundará em gelo e escuridão”.

Deus, sendo o verdadeiro, o consumado artista, deu ao homem uma imagem toda equilíbrio e harmonia, criou o sentimento, a proporção que Leonardo julgava divina quando a encontrava impecavelmente plasmada nas estátuas do tempo em que as preocupações de arte eram puras e as maneiras de vencer mais honestas... A própria monotonia da vida nos dias correntes, nos dá a mais empolgante lição de estética e harmonia: quando encontramos um ente anormal, instintivamente, qualificamo-lo de aleijado, dando-lhe como consolo, pela deformidade, a nossa piedade e a nossa lástima. Assim procedemos porque o infeliz foge às leis da harmonia, da estética, imprescindíveis condições da obra perfeita. Se isso acontece com a criação do Supremo Artista, é justa, é racional a aplicação do mesmo principio na obra de Arte saída do pensamento do homem, afinada, lapidada, convenientemente a fim de preencher as condições do belo ideal. Tais condições são os fatores primordiais que nos levam a considerar a obra de Baptista da Costa perfeita, uma verdadeira apoteose, um campo vastíssimo onde só não se recreiam os temperamentos vesgos e os impregnados de partidarismo doentio de uma coisa que não podem sentir.

Na magnífica coleção apresentada por Baptista da Costa, podem os “avançados” ver a verdade da nossa sinceridade e a justificação dos elogios unânimes que a obra do mestre sempre despertou, desde o seu aparecimento no ambientes de arte de nossa terra, sempre em ascendência e refinamento. Não há muito tempo combatemos com lealdade algumas obras do mestre, e fizemo-lo porque o julgávamos estacionário; felizmente, em tempo verificamos o nosso erro, constatamos a naturalidade do fenômeno diante do surto maravilhoso que nos revelou no Salão do Centenário.

Eliseu Visconti, como Baptista da Costa, triunfa no atual Salão. A sua bagagem é forte, é emotiva e impressionante na sua nova maneira de interpretar os motivos abraçados. Na aparência parece haver contradições nas nossas palavras, no julgamento do valor destes dois artistas (Visconti e Baptista), porém, tal não acontece; eles possuem apenas maneiras diferentes de interpretação, mas o fundo é o mesmo, o mesmíssimo, calcado na observância impecável do desenho. Visconti despreza, apenas aparentemente, o detalhe amado por Baptista; antes de conseguir o seu objetivo luminoso, ele esmerilha, resolve com amor sagrado as mais insignificantes minúcias do desenho. Prova esmagadora disso reside nos maravilhosos desenhos para as decorações do Conselho Municipal, em boa hora entregues ao seu talento.

“Nos desenhos de Visconti [1, 2, 3] todas as manifestações do gênero humano foram claramente representadas; dentro de tão ousada maneira, soube o pintor tirar o máximo partido: lá estão figuras esplêndidas de nudez anatomicamente perfeitas, exuberantes de verdade, cantantes de cor e de poesia; lá estão a pintura, a música, a história, o comércio, a arquitetura, a verdade, a poesia, a gratidão, a beneficência, a aeronáutica, a maternidade e a glória de grandes asas espalmadas a coroar a cidade; emoldurando o ambiente, há uma paisagem idealizada pelo pintor; de linhas severas, as palmáceas cortam verticalmente o quadro numa simetria audaciosa, de mistura com arvores estranhas, hirtas com colunas...

Em todo o conjunto do painel há uma religiosidade comunicativa que faz pensar no simbolismo e no idealismo de Puvis de Chavannes, obrigando-nos a meditar no seu gênio pictórico, considerado como o mais decorativo de todo o século XIX e como o mais capaz de conceber uma decoração onde a alma vibra de emoção cariciosa... Dentro de tão grandioso cenário as figuras vivem aureoladas de uma luz radiosa; as gamas sucedem-se numa escala afinada, cheias de harmonia como acordes de órgãos tirados por misteriosas mãos. A indumentária esposa os gestos e as atitudes comungam com o conjunto. Diante de tanta magnificência acudiam-nos à memória palavras de um ancião indiretamente mestre de umas poucas gerações: o arquiteto Bethencourt da Silva.

“O artista - escreveu o velho esteta, com a experiência de uma vida de emoções - não é uma máquina, mas um filósofo e um poeta. A natureza encerra todas as belezas e todas as maravilhas, mas encerra-as na profundidade insondável de uma desordem sublime, nesse caos onde só o músico achou as suas harmonias e o arquiteto as suas abóbadas e colunas. Na presença do esplendente tesouro da própria natureza inanimada, o artista encontra um mundo de belezas; e é por isso que nas minudencias da ornamentação está o tipo da riqueza florestal do país em que a arte se constitui. A cada povo dá Deus o amor do que é seu; e o artista lá vai buscar no recôndito de suas florestas as folhas e os frutos com que há de compor os seus ornatos; as flores com que vai enfeitar o berço de seus filhos, a fronte de seus heróis, o colo de suas mulheres, o altar dos seus deuses. O movimento ou imobilidade; o pesado ou o airoso; a calma ou a violência simbolizam um povo ou uma nacionalidade. Mas, se todos os elementos fundamentais estão na terra, só o espírito do artista é dado descobri-los.”

“Eliseu Visconti procedeu como o velho esteta preconizou: embrenhou-se no caos da natureza motora, guiado pelo talento e pelo amor, arrancando de dentro dela os elementos primaciais da sua obra; tirou a beleza animada das suas figuras e a luz que as ilumina... Isso no grande painel. Vejamos os pequenos.

No situado à esquerda do observador, vê-se Oswaldo Cruz glorificado por uma grande figura de brancas e espalmadas asas, envolta em tecidos transparentes, deixando adivinhar um corpo formoso... Uma grande nuvem corta a paisagem idêntica a do grande painel. Em torno do saneador da cidade estão seres sofredores, Oswaldo Cruz, com um gesto sereno, incute esperança e animo aos desalentados. As figuras componentes da cena são maravilhosamente executadas, são de um desenho magistral, notadamente o grupo do fundo onde se vê uma mulher com um adolescente caído sobre o seu regaço; as atitudes e as expressões são de um sentimento tão pronunciado que causam admiração. A psicologia existente nas figuras é interpretada com grandeza, percebendo-se o sofrimento do artista ao transportá-la para a tela. No outro painel destaca-se o vulto de Pereira Passos, o grande Prefeito, entre uma multidão: são mulheres, homens e crianças que o homenageiam. Na interessante composição predomina uma grande figura alada; completa o ambiente o fundo retratando os muros da velha cidade que Pereira Passos reformou dando-lhes foros de beleza. Como nos outros painéis, a execução deste é maravilhosa, há vida, há entusiasmo e a mesma técnica encantadora, que vem colocar o pintor na vanguarda dos seus contemporâneos.”

Estas palavras foram por nós mesmos escritas em Maio de 1923; repetimo-las por julgarmos oportunas diante dos originais das decorações que o artista, num gesto digno mandou ao Salão, dando assim uma lição grandiosa aos moços, principalmente aos transviados...

Outros artistas se apresentam no terreno decorativo, mostrando assim um pendor especial para a arte soberba da decoração. Augusto Bracet em “Força do Direito” dá provas cabais de poder resolver com galhardia os difíceis problemas da complexa manifestação artística; o esboceto exposto pelo pintor tem belas qualidades de composição e uma linha simpática no conjunto. Ainda de Augusto Bracet é um nu de pequenas dimensões, bem tratado e modelado com simplicidade, notadamente o dorso, onde a pincelada é pastosa e a cor limpa. A contribuição de Augusto Bracet é valiosa, colocando-o mais uma vez em destaque.

Miguel Capllonch, por sua vez, enviou uma grande composição com vários metros de extensão; a concepção do jovem pintor agrada sobremaneira pela ideia e pela forma por que foi desenvolvida, deixando adivinhar a profunda impressão que lhe causou o grande Sartorio. Não condenamos o pintor por esse motivo, muito pelo contrário, entendemos que assim procedendo, andou bem, pois a estrada do mestre é digna de servir de orientação, principalmente no terreno da decoração. Helios Seelinger e Marques Junior enviaram também painéis decorativos cheios de ótimas qualidades e tendências emotivas dignas de encômios.

Lucílio de Albuquerque empresta ao conjunto do Salão uma nota de patriotismo, desenvolvendo em um interessante painel a obra de Bilac, obra de devotamento pátrio. No trabalho de Lucílio predomina a preocupação decorativa dentro da sua maneira larga e colorida. Outros trabalhos foram mandados pelo pintor à exposição, todos eles revelando as mesmas qualidades dentro de um bom desenho e uma cor de primeira ordem.

Georgina de Albuquerque é a vencedora de sempre, é a artista encantadora do “ar livre” e das figuras cheias de luz e vida. Se o envio deste ano não é tão forte como os dos anos anteriores, é pelo menos sólido, resistindo com energia ao julgamento da critica honesta.

Theodoro Braga com seu envio coloca-se na altura de um pintor seguro. Os seus quadros cheios de um sentimento especial, agradam sobremaneira: o efeito de noite é bem resolvido, mostrando claramente o seu valor; no quadro “Confidências”, Theodoro Braga foi infeliz no emolduramento; o tom dourado, a nosso ver, prejudica seriamente o aspecto geral da tela, confundindo-se com os valores amarelos de certos detalhes, aliás resolvidos muito bem. Theodoro Braga, além de obras de pintura, enviou à seção de Artes Aplicadas, uma contribuição digna do seu talento criador e da sua percepção artística; as estilizações expostas confirmam o artista como o único verdadeiramente capaz de realizar semelhantes cometimentos, cometimentos que honram não só o artista, como também a nossa Pátria.

D. Maria Braga, mulher do pintor, é bem a sua companheira de credo; comungando os mesmos sentimentos decorativos, realizou um conjunto maravilhoso: são móveis e encadernações trabalhados em couro. Como motivos decorativos, a distinta artista lançou mão da flora brasileira; tais criações deviam ter aplicação na casa brasileira, nos salões de honra dos nossos palácios elas deveriam ingressar livremente para o nosso próprio decoro estético. Ultima-se o suntuoso palácio da Câmara; era o caso de realizar-se, pelo menos em algumas salas, a nacionalização dos mobiliários, pois provado está que temos quem possa fazê-los muito mais belos que os famosos estilos de importação... Sabemos as nossas palavras perdidas, em todo o caso fica a lembrança e a certeza de que somos capazes de realizar, pelos nossos artistas (o casal Braga), verdadeiras maravilhas, genuinamente nossas!

Há ainda no Salão um grupo de mulheres-artistas, mas artistas que se apresentam com galhardia, assinando obras portadoras de grande mérito; entre elas figuram: Margarida Fiori Bracet, Sarah Villela Figueiredo, Yvone Visconti, Solange Frontin Hess, Haydêa Santiago e Irene França.

De Margarida Bracet, há uma tela interessante, onde aparece uma figurinha de boneca entre panejamentos muito bem tratados como desenho e cor; Margarida Bracet é um dos temperamentos femininos emotivos que figuram no atual Salão, formando um magnífico par com seu marido, o pintor Augusto Bracet, fora de dúvida elemento de primeira ordem no ambiente contemporâneo.

Sarah Villela Figueiredo, que há alguns anos vem assiduamente concorrendo às Exposições gerais, está muito bem representada com os retratos de C. S. J. e F. G. A. Neles encontramos muito progresso e uma já segura técnica; o empastamento e a composição merecem apurado cuidado da futurosa artista.

Em outras exposições temos louvado sem restrições o seu mérito de pintora, e agora novamente o fazemos, certos de que a jovem artista caminhará sempre, progredindo e criando verdadeiras obras de arte. Um nome novo apareceu este ano assinando alguns quadros cheios de muita ingenuidade, mas promissores de um futuro auspicioso; referimo-nos a Yvone Visconti que, segundo nos informaram, é filha do grande mestre Eliseu Visconti.

Solange Frontin Hess, com a tela “No Terraço”, confirma a sua individualidade de artista; nos mesmos casos estão Haydéa Santiago e Irene França; a primeira, nos dá um conjunto encantador, onde aparecem “Mocidade em flor”, “Romantismo”, “A Visita” e “Cabra-cega”.

Um artista que evoluiu francamente foi Guttmann Bicho: o retrato de “Mme. C. Goulart” e a luminosa “Paisagem”, são os melhores atestados disso. Guttmann Bicho já era um artista de merecimento, mesmo antes da viagem, porém, voltou corrigido de certos defeitos de desenho muito frequentes nos seus retratos, aliás sempre muito semelhantes.

Alberto Delpino apresenta-se bem com a paisagem “Estrada de rodagem”; o seu trabalho agrada. Angelo Bigi, Manoel Faria, Fernandes Machado, Virgilio Lopes Rodrigues, Mario Túlio e Orosio Belém, estão condignamente representados, o mesmo acontecendo com A. Guignard e João Fahrion, jovem artista patrício. Gaspar Magalhães, que é um veterano dos nossos salões, enviou à grande mostra pouca coisa: alguns desenhos e dois quadros. Carlos Oswaldo, como das vezes anteriores, está maravilhosamente representado como pintor e água-fortista; o seu “Violinista”, uma bela obra, cheia daquele estranho sentimento da sua antiga maneira, agrada e faz vibrar o visitante. “Vestal”, tão diferente do primeiro, é um interessante quadrinho, porém inferior; não tem a mesma vibratilidade de “Violinista”. “Última Ceia”, água-forte de grandes dimensões, é bela, cheia de emotividade, e, sem exagero, coloca o seu autor no nível dos mestres da arte do branco e negro.

O que é Carlos Oswald como água-fortista, várias vees [sic] o temos dito, sendo portanto desnecessário repeti-lo.

Aníbal Mattos apresenta-se com uma grande paisagem com belas qualidades de técnica e de cor.

Na paisagem do artista, existe impetuosidade e familiaridade com a natureza, qualidades que reputamos valiosas em um paisagista.

Ernesto Francisconi, que pela primeira vez se apresenta no Salão, fê-lo com simplicidade, porém equilibrado.

Heinrich Graf nos dá uma magnífica coleção de obras de requinte apurado; o Dr. Hernani de Irajá contribuiu com um conjunto de oito telas, possuindo todas elas os mesmos predicados.

Arthur Lucas, o velho artista que todos conhecem, não esqueceu a sua contribuição; mandou “Dríade”, onde a sua individualidade está claramente representada.

Antonio Garcia Bento nos dá “Praia de Fora”, “Ancoradouro”,”Estrada da baía” e “Mau tempo”. Qualquer dos quadros mostra bem o temperamento privilegiado do jovem pintor; são obras dignas de um verdadeiro artista; nelas há desenho, técnica, cor e uma transparência verdadeiramente encantadora.

O maior elogio que podemos fazer, é dizer que o jovem artista caminha francamente para, dentro em breve, ocupar o lugar ainda vago desde a morte de Castagneto!

Gastão Formenti, com o quadro “Riacho”, nos dá uma nítida impressão do seu valor de pintor; na tela existem predicados recomendáveis e encantadores.

Do Sr. Jacobi existem no Salão belos retratos; de Dall’Ara figura um auto-retrato com belas qualidades reveladoras dos conhecimentos pictóricos do saudoso pintor.

B. Pinto, Domenech, João de Azevedo, D. Dias da Silva, José dos Santos e Portinari, apresentaram-se dignos de referencias elogiosas.

Paula Fonseca, prêmio de viagem do Salão passado, mandou uma paisagem fraca, trabalho que está longe dos méritos do pintor...

Edgard Parreiras, apesar de bem representado, não corresponde ao justo renome que já possui; o pintor tem o dever de mandar ao Salão obras onde o seu privilegiado talento apareça sem reticências, como agora acontece. Em outros Salões o artista tem se apresentado com mais desembaraço de técnica e mais sentimento.

Oswaldo Teixeira, o provável premiado com a viagem deste ano, apresentou-se com uma bagagem forte e digna de recompensa; entretanto, não nos é possível deixar de fazer algumas observações ao jovem pintor: seria preferível um envio menor para melhor resolver alguns dos seus quadros; nestes casos está a grande tela “Boas notícias”, onde existem sérios descuidos de desenho e muito amaneiramento de colorido. As nossas observações absolutamente não visam a diminuição do mérito do artista, incontestavelmente maior do que o dos detentores dos prêmios de viagem, conferidos na seção de pintura de muito [sic] anos a esta parte. Oswaldo Teixeira é já um verdadeiro artista, não obstante a sua pouca idade; não duvidamos de que saberá honrar a pátria no velho mundo, para onde seguirá, estamos certos, com o prêmio deste ano.

Um novo que se apresenta magnificamente é Manoel Santiago. Com a sua assinatura figuram “Evocação” e “Harmonia”, telas cheias de sentimento e muitas outras qualidades dignas de serem apreciadas.

Treidler, o mestre consagrado na aquarela, apresentou-se no atual Salão com uma maravilhosa coleção de impressões do morro do Castelo; em qualquer dos seus trabalhos predomina uma técnica assombrosa, mostrando conhecer todos os segredos da fidalga arte. Além dos requisitos da arte, a coleção do artista possui o valor incontestável de documentação histórica da desaparecida colina, berço da tradição da cidade.

A seção de Escultura do Salão apresenta um aspecto interessante de variedade. Muitos nomes novos apareceram em trabalhos de valor como os de Teruzzi Acquarone [?], Margarida Lopes de Almeida, Armando Braga, Umberto Cavina, Laurindo Ramos, Paulo Mazzucchelli e Martins Ribeiro. É o triunfador da Seção o Sr. Antonio Mattos: qualquer dos três trabalhos apresentados, mostram bem o seu valor artístico; principalmente “Aprés le peché”, agora fundido em bronze, e “Mlle Duque”, revelam um espírito dotado de muito sentimento e um conhecimento seguro da sua arte, como bem poucos da sua geração possuem.

Modestino Kanto enviou as maquetes “Marcha triunfal” e “Tiradentes”, trabalhos estes reveladores de técnica e compreensão da composição. O Sr. Verdier mandou um detestável auto-retrato, completamente falho de anatomia e inexpressível; as suas maquetes, porém, possuem qualidades. De João Zaco Paraná, figura no Salão um grande “Semeador” cheio de belas qualidades escultóricas e muito movimento. Zaco Paraná é sem dúvida um espírito de artista, mas a demasiada modéstia prejudica-o seriamente. A placa comemorativa à oficialização do ensino artístico no Brasil, inaugurada na Escola de Belas Artes, é a melhor prova do que dizemos; no singelo trabalho há muita alma e forte conhecimento do oficio; tão forte que o coloca entre os melhores escultores moços. Alfred Joel, alemão, e atualmente entre nós, contribuiu seriamente para o êxito da Seção de Escultura com o envio sério, onde figuram “Via sacra”, “Menino e a tartaruga”, “Busto da Senhora Fedora Ganz” e o retrato de frei “Pedro Sinzig”. Opulenta é a Seção de Arquitetura; nela apresentaram-se João Ludovico Berna, catedrático da matéria e membro do Conselho Superior de Belas Artes; Angelo Bruhns, Attilio Corrêa Lima, Dubugras, Lucio Costa, Fernando Valentim e Felix Tilk. Na Seção de Litografia, aparece novamente o nome de João Fahrion assinando uma bela gravura representando “O martírio de S. Sebastião”. Uma seção onde há obras primorosas é a de gravura de medalhas. Augusto Girardet, como sempre, figura acompanhado de seus discípulos. Leopoldo Campos, Herminio Pereira, Basilio Nunes, Arlindo Bastos e Marinho, enviaram um punhado de obras dignas de serem admiradas pelas dificuldades resolvidas e concepções.

Augusto Girardet assina uma série de obras, onde o seu valor vive, mostrando quanto ainda pode fazer, apesar dos anos. Na medalha comemorativa das bodas de ouro dos segundos “Barões de Vasconcellos”, o mestre mostra-se um impecável retratista, assim como no verso da medalha “Prêmio Dr. Paulo de Frontin”, o perfil do grande engenheiro é maravilhoso de semelhança e magnificamente colocado no campo da medalha.

Na plaquete “Congresso Ferroviário” é o compositor que se evidencia seguro das linhas e das massas que se contrabalançam equilibradamente.

“Nossa Senhora da Conceição” representa um exemplo primoroso da técnica do artista como gravador em pedras preciosas. Bem pouca gente pode avaliar as dificuldades de semelhante trabalho, quer pela dureza da pedra, como pelas delicadezas existentes; naquele pequeno campo, Augusto Girardet reuniu tudo que a sua personalidade artística possui como beleza, como segurança no manejo do “ordegno” e ainda como desenhador impecável. Não nos admiramos de nada disso, sabemo-lo capaz de muito mais, pois, durante anos, convivemos com ele e nos acostumamos a apreciá-lo no manejo dos seus buris e dos seus desbastadores. Um pedaço de aço ou uma pedra dura, nas suas mãos, se transformam em maleável matéria para receber a forma preconcebida e desejada pelos poucos que amam a Gravura em nossa terra. Ele é ainda o mestre de toda a geração de gravadores patrícios; geração, infelizmente, abandonada pela incompreensão da fidalga arte. Leopoldo Campos mandou uma vitrine contendo quatro medalhas possuidoras de mérito e conhecimentos da profissão. Francisco Gomes Marinho, candidato ao prêmio de viagem, contribuiu com galhardia para o brilhantismo da Seção. A nossa qualidade de membro do Júri, infelizmente, nos impede de maiores considerações sobre o merecimento dos seus trabalhos. Depois de uma ausência de alguns anos, contribuímos com o nosso coeficiente para a seção: enviamos modelos de medalhas e plaquetes, cujo mérito deixamos entregue a critica de outrem. É provável que em nossa crônica não apareçam os nomes de alguns novos, e que obras merecedoras de referências nos tenham escapado, porém, se isso aconteceu, foi sem intuitos malévolos.


(1) Compunha-se a colônia de Joaquim Le Breton, Pedro Dillon, João Baptista de Bret, Nicolau Antonio Taunay, Augusto Taunay, Augusto Henrique Victor Grandjean de Montigny, Simão Tradier, Francisco Ovíde, Carlos Henrique Levasseur, Luiz Simphoriano Menie e Francisco Baurepas.


Imagens

- Desenhos [1, 2, 3] para as decorações do edifício do Conselho Municipal, por Eliseu Visconti.

- “Rio Tiete”, paisagem de Baptista da Costa

- “Mata Iluminada”, por Aníbal Mattos

- “A Força do Direito”, (esboço), por Augusto Bracet

- “A imortalidade”, painel decorativo por Lucilio de Albuquerque

- “Pescador”, por Oswaldo Teixeira

- “Retrato da Senhora R. O. F.”, por Georgina de Albuquerque

- “Retrato de Mme. O. Goulart”, por Guttmann Bicho

- “O Semeador”, estátua em gesso por Zaco Paraná

- “Laura”, gesso de Orestes Acquarone Filho

- “Mlle. Duque”, busto por Antonino Mattos

- “Solar colonial”, por Lucio Costa

- “Hall”, por Lucio Costa

- Medalhas e plaquetes em gesso. Modelos executados por Adalberto Mattos


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

MATTOS, Adalberto. O SALÃO DE MCMXXIV. PINTURA ESCULTURA ARQUITETURA GRAVURA. Illustração Brasileira, Rio de Janeiro, ago. 1924, n/p.

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