. MATTOS, A. O Salão de 1921. Illustração Brazileira, Rio de Janeiro, ago. 1921, n/p. - Egba

MATTOS, A. O Salão de 1921. Illustração Brazileira, Rio de Janeiro, ago. 1921, n/p.

De Egba

Com uma regularidade cronométrica, inaugurou o Conselho Superior de Belas Artes o Salão oficial, que, para nós, representa a expressão máxima da produção artística da maioria dos artistas nacionais. Infelizmente, ainda desta vez, não foi possível, à comissão encarregada da organização do certame anual, dar uma acomodação condigna ao esforço dos artistas patrícios; dificuldades sérias ainda estão sendo removidas para que, no próximo ano, pela comemoração do nosso centenário, o Salão possa ter a imponência que merece. A Rodolpho Bernardelli coube a glória de organizar o primeiro Salão, vencendo mil dificuldades; agora, a Baptista da Costa é dado o prazer de conseguir uma definitiva instalação, que será, estamos certos, dotada das condições de luz e distribuição de locais, adequados à apresentação das obras de pintura, escultura, gravura e arquitetura. Tal realização vem de encontro à vontade unânime dos nossos artistas. Insuspeitos, podemos julgar os benefícios que o professor João Baptista da Costa vem de conseguir para os artistas brasileiros; por muitos anos combatemos o regime do sarrafo, tabiques e estopa pintada; unicamente nos movia o desejo de ver realizado, na prática, o que durante longos anos foi objeto de cogitações e indecisões. O professor Baptista da Costa venceu, tendo por aliado um espírito ponderado, que compreendeu claramente as necessidades latentes da Arte brasileira; esse espírito de escol foi o do Dr. Alfredo Pinto, digno ministro da Justiça, que, por esse motivo, deixa o seu nome vinculado à história das Belas Artes. Para que o nosso Salão se torne realmente a expressão máxima da totalidade dos nossos artistas torna-se mister, no entanto, uma prática severa na escolha da produção; a par de muitas obras dignas existem outras, verdadeiramente infantis, completamente falhas de preocupação estética, que visam apenas conjugar o verbo encher... Muita coisa, que nunca deveria ter transposto os umbrais do Salão, lá figura impunemente, como se aquele recinto fosse um vasto museu de incoerências, de verdadeiros aleijões encurralados em molduras mais ou menos berrantes... Essas aberrações são provocadas pela nossa índole, pelo mau vezo de julgarmos, não com a consciência e sim com o coração, por simpatia ao nome ou indivíduo. O Salão deste ano não é inferior nem superior aos atrasados. A ausência de alguns nomes laureados torna-se notada à primeira impressão: Rodolpho Bernardelli, que hoje vive divorciado dos ambientes artísticos, e seu irmão Henrique, Fiuza Guimarbes [sic], Rodolpho Chambelland, Correia Lima e outros são os desertores. BELMIRO DE ALMEIDA, que por muitos anos viveu afastado dos nossos salões, aparece agora com um trabalho fino como todos os que saem da sua paleta. O quadro de Belmiro de Almeida é uma nota clara, simpática, onde as figuras de Calogeras, Raul Fernandes e Rodrigo Octavio se destacam, vivas. O atual Salão é pouco numeroso. Não se nota nele o atropelo habitual dos outros anos. Mas é agradável ao visitante, apesar das franquezas existentes. BAPTISTA DA COSTA brilha; fugindo um tanto ao habitual, os seus quadros formam um conjunto homogêneo, as suas figuras são desenhadas com sobriedade, mostrando, mais uma vez, que é um artista capaz. Repetimos aqui: teríamos verdadeiro prazer em ver o valente artista interpretando as nossas florestas, o nosso interior empolgante de cor e de mistérios. GARCIA BENTO, no seu envio, revelou progressos; os seus quadros têm mais poesia, o empastamento é mais seguro e a cor mais transparente. É um dos novos que se destaca, sem ser preciso recorrer aos atroadores reclamos, às exageradas manifestações dos amigos; enviou três trabalhos espatulados com segurança e boa planimetria. Outro novo que se apresenta galhardamente é OSWALDO TEIXEIRA. Muito moço ainda, já possui atrevimentos, coragem de fazer alguma coisa fora das normas habituais. O Retrato do pintor Santiago é bem a prova do que afirmamos. ARGEMIRO CUNHA este ano limitou-se a enviar uma paisagem sentida, que, com propriedade, intitulou: Tarde. MANOEL SANTIAGO, em dois trabalhos, mostra uma evolução franca, uma maneira simpática de pincelar e cortar os seus quadros, revelando magníficas qualidades de marinhista, com empastamentos seguros e muita cor; também é de plêiade que surge. EDGARD PARREIRAS é um triunfador. No seu quadro Sol da tarde, há impetuosidade, dificuldades vencidas, atrevimentos de luz e sombras, que traduzem bem o magnífico estado de alma do artista, quando o executou. Longe de nós fazer qualquer insinuação ao júri; mas, de bom grado mandaríamos o artista visitar o velho mundo com a ajuda do prêmio de viagem, pois não encontramos nos concorrentes ao referido prêmio qualidades de força a vencer os obstáculos. ANDRÉ VENTO continua amaneirado, sem emoção e sem entusiasmo. ALMEIDA JUNIOR [Luiz Fernandes de Almeida Júnior] apresenta-se de forma tal que não podemos conceber como conseguiu que o seu quadro Recordações entrasse no Salão; francamente, parece-nos uma brincadeira de mau gosto da parte do artista. HENRIQUE CAVALLEIRO, atualmente em Paris, no gozo do prêmio de viagem, enviou ao Salão, dois interessantes quadros: Paisagem e Retrato de Mlle. X, sendo este último, muito fino de cor e desenhado com segurança. MARQUES JUNIOR, também em Paris, mandou-nos um conjunto equilibrado; o Retrato de Mlle. M. de L., de grandeza natural, atrai o visitante pela maneira e pela tonalidade azul. Percebe-se a semelhança: o empastamento agrada. Esse retrato atesta mais uma vez a segurança do desenhador por excelência, que Marques Junior sempre foi, quando estudante, na Escola de Belas Artes. De ANGELO CANTÚ tem o Salão um primor: Atravessando o lago, duas figuras movimentadas e coloridas com vigor. AUGUSTO BRACET dá-nos um nu interessante, bem desenhado, de concepção e composição seguras; a nosso ver é a melhor obra do pintor. Intitula-se o quadro: A Vida. Representa um nu de mulher, tendo um dos braços em escorço, mergulhado no lago, em cujo fundo se reflete indecisamente um esqueleto humano, deixando ver o sarcasmo eterno do riso, em contraste ao corpo de carnação fresca... CARLOS CHAMBELLAND enviou alguns dos trabalhos que expôs na “Galeria Jorge”, todos magníficos e bem lançados, como, aliás, são todos os trabalhos que executa. GASPAR MAGALHÃES, CUCULILO, RAUL DEVEZA, FATEMBACK [sic], FRANCISCO MANNA e PAULO FONSECA [sic] apresentam-se bem, revelando progressos e amor à carreira que abraçaram. GEORGINA e LUCILIO DE ALBUQUERQUE, apesar de não estarem tão bem representados como nos anos anteriores, dão-nos trabalhos bons, dignos dos melhores elogios. ARTHUR [Arthur Timotheo da Costa] e JOÃO TIMOTHEO apresentam-se regularmente bem. Os trabalhos apresentados não dão, entretanto, ideia do quanto os artistas são capazes. ELISEU VISCONTI é triunfador do Salão. Bastava o Grupo de retratos para dar-lhe os louros; a família do artista está representada no quadro com um vigor e semelhança pouco vulgares. Estudando a personalidade do artista escrevemos um dia:

“Como Rembrandt, Visconti chega a ser cruel quando pinta um retrato; o retrato de Nicolina Pinto do Couto, pela verdade e pela expressão, pode ser comparado ao delicioso perfil de Saskia, ao da viúva Swartenhaut, pela sobriedade impressionante que toca a alma de todos os que o contemplam! O mesmo entusiasmo dá a Visconti o empreendimento que anima as suas produções; o vigor dos seus quadros é notável. Como dissemos, pode parecer absurdo o que encontramos de comunhão entre os artistas citados; mas o que é fato é a mesma abundância de generalidade existente entre ambos, a mesma emotividade, os mesmo sentimento e o mesmo amor por todos os motivos da natureza, que Visconti ama com amor igual ao que o genial pintor do Ronda tinha pelos assuntos que pintava. Visconti tem dedicado algum tempo da sua vida ao estudo da obra de Velasquez, quer observando a sua obra, quer copiando quadros seus. Copiando, não com aquele espírito que carateriza o bando de comerciantes que infestam as grandes galerias da Europa, visando unicamente a recheada bolsa do incauto americano que, a cada passo, deixa escapar formidáveis exclamações que escandalizam os mais comedidos visitantes. O rompante, que muitos julgam ver em certos atos de Visconti, não existe, por ser o artista um indivíduo que vive para a sua obra, absorvido pelos motivos, pela mestra natureza; vive alheio às preocupações que aos outros causam desânimo e aborrecimentos. Eliseu Visconti, como artista que é, ama a solidão, o pouco badalar em torno da sua típica pessoa; vive feliz e invejado pelos seus pares, que, de vez em quando, procuram ofuscar-lhe o mérito. Taciturno, de poucas palavras, como o grande mestre em 1656, o seu desenvolvimento tem sido consequente, o seu gênio se adaptando logicamente às tendências mais de acordo com o seu temperamento; é justamente este ponto um dos que mais o aproximam de Rembrandt, que, pouco a pouco, deixou a técnica segura, mas sem entusiasmo, para abraçar a que mais lhe parecia preencher as condições primordiais da obra de Arte. Como Velasquez, chegou a ter uma verdadeira ginástica de pincel, o que lhe valeu conseguir a solução de muitos dos seus assuntos com o caráter que o notabilizou. Rembrandt criou uma luz que é particularmente sua; Visconti criou um “tipo” que se percebe em todos os seus quadros, não o “tipo físico” propriamente, mas o tipo de pintura que não se confunde e os faz destacar entre mil. A Maternidade, o retrato de Gonzaga Duque, o foyer do nosso Municipal (que é a melhor obra pictórica que lá existe) e nos deliciosos Nus existentes na Pinacoteca oficial, pode-se verificar esse “tipo”, apesar da disparidade de assunto e composição. Visconti representa para o Brasil o mesmo valor que Rembrandt para a Holanda, Velasquez para a Espanha, Raphael para a Iltália e tantos outros, que seria longo enumerar; pois quase todas as grandes nações Europeias possuem o seu artista encarnando condições sérias para serem colocados no mesmo nível dos gênios.”

Na Seção de Gravuras de Medalha fulgura o nome de Augusto Girardet, cercado de alguns discípulos. Na Escultura caminham na vanguarda os escultores Antonino Mattos e Magalhães Corrêa, o primeiro com uma magnífica estátua de grandeza natural e o segundo com uma deliciosa figurinha. Outros artistas apresentam-se mais ou menos bem, revelando cuidado e dedicação. Paulo Mazzucchelli expõe um baixo relevo, onde há linha de composição e bom jogo de massas.

Na Seção de Arquitetura, o Sr. Dubugras, como sempre apresenta-se com brilho, e Francisco dos Santos, Ludovico Berna e A. J. Maia [sic] enviaram também um belo coeficiente, que muito realça a Seção.

A. MATTOS [Adalberto Mattos - Artigos]


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

MATTOS, A. O Salão de 1921. Illustração Brazileira, Rio de Janeiro, ago. 1921, n/p.

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