. MARIANNO FILHO, José. Impressões do Salão. O Jornal, Rio de Janeiro, 23 ago. 1925, p. 2. - Egba

MARIANNO FILHO, José. Impressões do Salão. O Jornal, Rio de Janeiro, 23 ago. 1925, p. 2.

De Egba

Em artigo especial para O JORNAL, José Mariano (filho) comenta as paisagens de Baptista da Costa e Edgard Parreiras e os quadros de gênero ligeiro de Osorio Belém [sic], Guttman Bicho e Henrique Cavalleiro, expostos este ano no Salão

-

José MARIANNO (filho)

(Presidente da Sociedade Brasileira de Belas Artes)

(Especial para O JORNAL)

A paisagem

Baptista da Costa é, talvez dentre todos os pintores brasileiros, o que mais se tem comovido diante da natureza.

Montanhas altas, ásperos despenhadeiros, vales profundos, planícies onduladas, tudo lhe tem passado pelas mãos. É um fascinado, e ao mesmo tempo um intérprete sagaz.

Tem-se atribuído à sua pintura uma nota de plangente melancolia.

Entretanto, eu a vejo sempre admirável. Porque nas suas paisagens a natureza é surpreendida nos seus mais recônditos mistérios.

Baptista conhece o segredo das sombras profundas, dos horizonte largos, do colorido justo. Assim, todos os efeitos são obtidos de pronto, eu diria quase por antecipação - sem esforço, e sobretudo sem nenhum dos “trucs” conhecidos.

Baptista da Costa conhece a hora alegre das manhãs douradas de maio, os dias tristes de inverno a bruma indecisa do crepúsculo. Todos os tons lhe são familiares, todas as cores lhe são amigas.

As árvores - reconhece-as à primeira vista, com a sagacidade do matreiro caboclo.

Certa vez - recordo-me agora - ele sorriu meio espantado quando me pus a nomear com familiaridade uma a uma, as árvores que ele havia transplantado para a tela de um pequeno quadro. No primeiro plano, um tufo de quaresmas; depois um grupo de sapucaias, e ao longe, abraçando a estrada larga recortada pela luz do sol, a grande figueira brava esgalhada e enorme, o tronco estuante de seiva, a fronde imensa, emergindo da terra no ímpeto de força indômita.

Depois o se ter deixado impressionar pela fisionomia das grandes árvores excelsas com as quais pode compor pequeninas paisagens que são verdadeiros quadros íntimos da natureza, Baptista da Costa começou a sentir os grandes panoramas brasileiros.

Aqui, o artista se revela na sua singela grandeza. É o “Salto do Itu”, o Alto da Serra de Petrópolis, e tantos outros trabalhos nos quais o artista domina o horizontes [sic], semeia os vales, contorna despenhadeiros na ânsia cada vez maior [...]

No salão atual, como nos anteriores [...] Todas as paisagens são bem “cortadas”, largamente feitas, banhadas de luz. Uma delas me agrada particularmente (48).

Será por causa daquela grande moita de bambus virentes orlando de súbito um violento contraste com esta paisagem? Talvez.

Edgard Parreiras é outra [sic] paisagista que se emociona com a natureza. Sua arte possui ademais uma nota de humana piedade pelas velhas coisas do passado, solares abandonados, portões carcomidos, igrejas desertas. Ainda este ano, seu mais forte trabalho (279) é um vívido flagrante de cena antiga.

Eis aí uma pequena pintura que é ouro de lei. Prestai atenção à honestidade do desenho, à perspectiva, à luz que a envolve. O colorido é expressivo, gracioso, tratado com desenvoltura.

Dois pitorescos aspectos de Ouro Preto são apresentados por Annibal de Mattos (35-36). Ambos estão bem cortados e desenhados com acerto, porém um pouco frios. Talvez mera questão de técnica.

Quadros de gênero

Orozio Belém, apenas adolescente, possui todos os indícios de um temperamento artístico. Pinta com independência, compõe com apreciável desembaraço. O mais apreciável de seus trabalhos (255) tem um curioso cachet [sic] de pintura espanhola. Sairá dali um pintor de costumes, um cronista da raça no gênero dos grandes pintores de Espanha? Que Deus me ouça o vaticínio.

Guttman Bicho, depois de nos ter dado uma série de interessantes retratos finalmente observados traz em salão um bom quadro de gênero [...] bem entonado tratado com boa técnica. O colorido está justo, muito bem compreendido.

A pintura de Henrique Cavalleiro continua a desafiar a crítica. É das que “bravent l'opinion”. Possuindo um forte poder de expressão pictural, sentindo os seus motivos sempre dentro do “partido” decorativo, senhor de uma paleta luminosa e vibrante, Cavalleiro será um excelente decorador, quando se propuser a desenhar as coisas até ao fim, como lhe foi ensinado por Eliseu Visconti.

Geralmente os artistas que se metem a futuristas são uns pobres diabos incapazes de desenhar um sapato. Fazem torto simplesmente porque não podem fazer certo. Isso não impede que se presumam grandes predestinados e menosprezem o trabalho alheio, que eles não podem produzir.

Cavalleiro é precisamente o contrário. Ele deforma propositadamente o desenho dos seus trabalhos, não sem que se lhe perceba a intenção. É uma questão de teimosia que há de passar para […] de todos quantos esperam com ansiedade sua volta ao aprisco. Mas com todas essas sinceras restrições sua pintura é “et pour cause”, do melhor estofo.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Arthur Valle

MARIANNO FILHO, José. Impressões do Salão. O Jornal, Rio de Janeiro, 23 ago. 1925, p. 2.

Ferramentas pessoais
sites relacionados