. LOBATO, Monteiro. O “Salão” de 1917. Revista do Brasil, São Paulo, ano II, out. 1917, n. 22, p.171-190. - Egba

LOBATO, Monteiro. O “Salão” de 1917. Revista do Brasil, São Paulo, ano II, out. 1917, n. 22, p.171-190.

De Egba

Está aberto no Rio a 24a. exposição geral de Belas-Artes, ou o “salon”, como chamam eles. O que se nunca abre apesar das vinte e três aperientes exposições anteriores é o apetite do público para estas coisas de arte. Quero dizer na minha que, como as outras, a exposição deste ano está às moscas. Em plena avenida, ponto forçado da perambulagem calaceira de toda a capital, só penetram nas galerias da Escola os murmúrios da rua, poeira do asfalto, fonfonadas. Os porteiros das 10 às 5, ou 17 como querem eles, cabeceiam sonecas suculentas, diante dos talões de entradas que se vendem pior do que literatura poética.

Nas cidadezinhas da roça, a via mais deserta chama o povo “rua do Vai Um”; e é bem apanhado, porque raro são vistos nela mais de um transeunte, bípede ou cão vadio. Lembram tais ruas os “salões” anuais do “Entra Um” da Escola. Esse “um” perdido pela vastidão das galerias, em namoro ante certos quadros, é de ordinário... o seu próprio autor. Perto dali, no entanto, a goma alta do Rio disputa a chuçadas de cotovelo cadeiras de cinema para emparvecer o olho ante as caretas truculentas do Judex. Não é, pois, causa da deserção a pratinha do ingresso, como se afigura a alguém. É pouco caso, e dos legítimos. A razão da decadência das artes nós engalha nisso. Impossível desenvolver-se alguma em tal ambiente de indiferentismo. Sem raizame fincado no seio úbero do povo toda arte, além de superfetação teratológica, é artificialismo sufocador das vocações melhores, e criador por moção polar, de virgilices larápias. A falta do sadio estimulo popular, cresce e viça um tortulho venenoso: a “cavação” perante governos, com disputa feroz das boas graças duns Mecenas de 160 réis, pais d’arte e tutores de artistas, à custa de cuja profissão lá vão formando ricas coleções baratinhas. Há ainda os 300 de Gedeão, que compram telas; mas estes 300, averiguou-se já, não passam de 30, se lá chegarem. Dedicar-se uma criatura às artes em terra assim é perpetrar heroísmo tangencial à loucura: heroísmo maior que o dos guerreiros a esta hora eminhocados na terra de periscópio no olho, loucura igual à de poetas que esperem da Bolsa cotação para rimas.

E como é assim, os noventa por cem das energias vitais de um artista dispende-os ele na reação contra os gazes asfixiantes da indiferença pública ou estupidez mecânica, sobejando apenas dez para consumo na extenuante elaboração estética.

No Império contrabatia esta vacuidade das massas o insubstituível Pedro II, cujo bem querer às artes ligado à compreensiva inteligência de que as não há sem artistas bem defendidos das asperezas da vida, levou a pintura e a música sobre todas, a um grau de esplendor que envergonharia a atualidade, se a atualidade fosse suscetível de tal fraqueza.

A galeria da Escola traz bem patentes os produtos da proteção governamental pré e pós ao Quinze de Novembro. Pré, é Pedro Américo de Figueiredo com a Batalha d’Avahy. Pós, é Aurelio com o Baile da Ilha Fiscal.

Nos ominosos tempos é o gênio levado ao pleno desabotoar de todas as forças ingênitas e como seqüência o enriquecimento do país com obras primas daquele jaez. Após a “integração republicana da América”, é a cavação em grande, é a obstrução, com o dispêndio de 60 contos, dos 20 ou 30 deliciosos metros quadrados de parede nua que a famigerada “machina”... infernal de Aurélio atravanca. Banido do país o elemento Pedro II, que agia cataliticamente por ação da presença, e posto em lugar dele o vácuo democrático duns imperantes de chinelas, quadrienais no tempo, e mais ou menos quadrados no espaço, o nível da arte caiu de par com o câmbio, o crédito, o brio e todas as mais coisas que caem passando ela a viver de expedientes, falida como o tesouro, apesar de apalaçados ambos, arte e tesouro, suntuosamente. Eis porque, cá na minha, o quadro mais notável deste ano é um não exposto nem nesta, nem nas exposições anteriores, porém resaltante à vista como o que mais o é. Quadro de colaboração, desconsolador até ali, a um tempo trágico e pícaro: “Apolo de tanga 'cavando' pão à porta do seu palácio”. Dada esta montanha de precalços o que a 24a. exposição revela significa tanto que dá ímpetos de pedir-se a berros o medalhamento de todos os expositores por ato de inaudito heroísmo. Ou isso ou a internação deles num manicômio.

* * *

Dos novos é Pedro Bruno o que melhores cópias dá de si. Expõe um Iokanaan, vulgarmente João, em tríptico, onde o estafadíssimo tema dos apetites histéricos da Salomé desenvolve-se com muito arrojo de interpretação, num ambiente noturno de singular verdade, com largueza de técnica e muita harmonia. Esse e os mais trabalhos do autor, paisagens ou composições idealistas, erguem Bruno a uma plana de nítido destaque na corte dos novos. É dos que pedem à pintura expressão de sentimentos e de idéias, e não a exclusiva estamparia foto-crômica de bananas e paisagens bonitinhas, vazias de sentido. Em “Flamboyants”, “Prenúncios de tempestade”, “Volta à casa”, e nos mais, há sempre a preocupação de interpretar um estado d’alma ou dele ou da natureza, n’alguns otimamente conseguidos.

Raymundo Cela é outro nome que aparece. Traz uma tela de vulto: Último diálogo de Sócrates. A mania de sair do presente compreensível, e mergulhar em mundos mortos, como o grego, é uma balda velha da Escola, que não perceberá nunca o absurdo contido nisso, diante da moderna concepção de arte. Como pode um menino do Ceará, transplantado para o Rio, e que não é um helenólogo com 50 anos de estudo, como pode essa moderníssima e brasileiríssima criatura interpretar com sua alma virgem de filosofias, uma cena do século de Péricles? Fará artificialismo puro, está claro, a custa de reminiscências visuais. E dos professores que lhe escolheram ou aconselharam tal tema haverá um conhecedor do grego, afeito a confabular com a legião dos sofistas, e, em conseqüência desse convívio mental, capaz de ouvir e entender Sócrates? E de o por decentemente em tela a dialogar? Não obstante Cela denuncia-se com boas qualidades de arranjador, e boa técnica, sobretudo nas figuras secundárias, já que à principal deu cara de Elixir de Nogueira ao filósofo e panejou-o pesadamente.

Carlos Oswaldo, talento cheio de personalidade e já senhor de maneira própria, expõe 14 telas nas quais dá largas à sua paixão pelos efeitos de luz artificial, caindo até num loie-fullerismo pictural provocador de comentários tais como trop chiqué e outros da família. É muito elegante, e muito amigo de elegâncias femininas.

Na paisagem destaca-se Edgard Parreiras com a “Restinga”, que é talvez a mais sugestiva paisagem exposta este ano. A luz, o mormaço, a transparência do ar, dá-os ele com rara felicidade; a verdade do ambiente empolga o espectador e puxa-lhes da glote exclamações.

Também Paulo do Valle apresenta formosa tela - Pau d’alho -, feita com desempeno de mestre, alto senso decorativo, ótima de tons e ótima de luminosidade.

Gotuzzo é outro nome que se vai impondo. Largueza de mão, elegância de pincel, expressão e outros traços valiosos ressaltam das telas que traz à mais ligeira inspeção. Em água-forte expõe duas fases diversas do mesmo estudo de nu que valem por si sós muita tela de avantajadas dimensões.

Gastão Formenti dá uma “Tarde no Leblon” digna de menção pela frescura das tintas e excelência do céu.

Helios Seelinger expõe apenas “Dança Macabra”, cena de sabá onde espinoteiam bruxas de Goethe, e toda a fauna demoníaca do Hartz, esbatidas do rubro fogo do inferno, movimentadissima, e “Sonho de Cabral”, fantasia marinha bastante sugestiva. Ambas típicas, filhas legítimas da sua poderosa veia fantasmagórica, ambas excelentes, não destoa nenhuma da originalíssima obra anterior desse artista hoffmanico, único entre nós.

Capplonch surge com dois esboços feitos a lacre vermelho - a Guerra e o Trabalho - com revoadas de morcegos, guerreiros truculentos, capacetados à alemã, conseguindo dar a impressão de um Helios áptero. Cumpre-lhe ganhar asas no futuro certame, expondo o desenvolvimento destes esboços em telas reabilitadoras.

Correia Dias: está aqui um notabilíssimo artista que infelizmente só apresenta um painel decorativo - Sancho e D. Quixote - estilizados com maravilhoso senso decorativo. Insuficiente que é o exposto para avaliar da sua arte, entretanto, como ex digito gigans, vê-se dele que figura culminante é C. D. no gênero, e o é aqui como o será em qualquer requintado centro artístico onde tal arte se apresente.

R. Mendes expõe um bom pastel discretamente desenhado e bastante rico de luzes.

L. Ribeiro, velho marinhista, dá o “Oregon e o Iowa entrando no Rio”, figurando o lance com muita minuciosidade, nada moderno na técnica, antes usando uma das mais fora da moda, sinceríssima, porém, e honestíssima.

Inúmeros outros novos apresentam trabalhos denunciadores de boas qualidades inatas ou adquiridas como Christophe, Widhopff, Dutra Alipio Dutra, que expõe um pescador à linha de grandes dimensões, Migueis, etc., mas não há tempo de falar deles visto como os mestres estão aí superciliosos já. É Amoêdo quem dentre eles dá o melhor trabalho. Pensou assim e não pensou mal o Jury, condecorando esse quadro com a medalha de honra. “Eros e a Noite”, embora não possuam o encanto indefinível de certas telas anteriores de Amoêdo, como a partida de Jacób, ainda é indiscutivelmente um quadro de mestre. A. Parreiras expõe uma grande paisagem bem a sua maneira, mas que não destroniza nenhuma de suas boas paisagens de outrora. R. Chambelland exibe na sua “Vaidosa” gentil atestado do que há de mimoso e leve no seu pincel, amigo de elegância e maciezas.

Lucílio trouxe para o salão uma tela de vulto, tirada do tema anchietino, tanto de sua predileção - Catequese - onde se vê o evangelizador das selvas, em atitude estática no meio de uma teoria de coroinhas curumins, afundando pelo mato em demanda do gentil conversível. É um bom quadro, embora ressentido da pressa com que foi levado a termo.

João Baptista expõe retratos e paisagens, tudo escrupulosamente pintado, tão escrupulosamente pintado que nos verte no espírito a dúvida: se o escrúpulo excessivo da verdade absoluta não é mais nocivo à arte do que um tal qual desvio para o maneirismo, por onde se denuncie que o pintor tem mais alma, sentimento e temperamento do que uma Zeiss anastigmática.

Quo abundat non nocet, diz um latim glotão, contrabatido por outro mais inteligente: est modus in rebus. E para aqui a contribuição dos mestres. Agora, às mulheres. Antes, porém, uma estaçãosinha diante do Petit. Um quadro há em certa sala que prende a atenção de todo o mundo, e depois de prendida a atenção solta o riso. De longe figura uma rósea barata descascada. De perto continua a ser uma descascadíssima barata. A quem procure no catálogo a classificação entomológica “daquilo” deparar-se-à esta solução: Feliz sorte, estudo de nu. Fica a gente sabedor de que o inseto é uma nudez feminina e por sobre isto uma feliz sorte. Mas será feliz sorte a do curioso que logrou desentranhar o x do enigma, ou a do pintor que já tem na tela um cartão com o saboroso “adquirido”? Górógótó, galhetas!...

Além dessa há pelas paredes mais dezenove petitoisseries apasaijadas, qual delas mais chic, com árvores e águas e céus o que há de catitinhas, coisa de arrepiar de entusiasmo as bossas estéticas de meio Méier e toda a Cascadura.

Que Augusto Petit pinte assim, está direito; a arte é um canto da natureza visto através dum temperamento. Se o temperamento de Petit é armado de prismas que arredondam árvores, envernizam águas, esmaltam carnes, descascam baratas, é lógico saia da sua palheta a cromolitografia de folhinha tão grata ao paladar menineiro de Maxambomba. Mas que uma vítima daltônica desse temperamento seja membro do Jury, e dê voz no julgamento das inúmeras obras expostas é acrobática compreensível na terra onde Zago estaçoa parques; no Rio é forte. Pede brado d’alerta. Como voa Petit a tais cumeadas, se é positivamente áptero? Será pirraça à Alemanha pelo fato mirífico de ser o homem natural de France, como soa binocularmente o Catálogo, e ter tido por mestre a Eugenio Nesle, e haver-se medalhado a ouro de 3a. classe (há de ser plaquet este ouro de terceira) na exposição de 98? Altos segredos d’Appolo!...

Senhoras, senhoritas e madames. Há-as copiosas, 22 ao todo. Destacam-se: D. Georgina de Albuquerque, já muito senhora da sua arte, amiga de pintar interiores aos quais dá notável equilíbrio de ambiente e onde figuras bem trabalhadas pousam à vontade como chez soi; D. Regina Veiga, que traz dois bons retratos cujo pecado único reside nas mãos; D. Adelaide Lopes, com um pastel de feliz carnação; e D. Julieta Bicalho, com uma paisagem joaobaptistina onde aliás vê o público mais sentimento que nas do seu mestre, convizinhas.

A Sra. A. Prados [sic] [Maria Pardos] afouta-se a dois nusões de truz, uma Dalila cor de panarício, e um outro nu de fogo, capplonchico. Beatriz de Camargo sempre a mesma, sincera e conscenciosa.

Fica intercalada aqui uma palavra sobre os “Imigrantes” de Rocco, que nos iam escapando. São bem imigrantes aquelas figuras, surrados da vida e da viagem, com todo o passado de miséria negra estampado no físico e na quebreira da alma. É um quadro bom sem ser belo. O autor seguiu o preceito de Dürer : toda preocupação de beleza é nociva à arte.

Na paupérrima secção de escultura Francisco Andrade impõe-se com um “Narciso” bem modelado e superiormente pousado, dando ainda um belo baixo relevo digno de muito louvor, “Descoberta da América”. Cavina tem a “Flor da Mata”, nu feminino e “nacional”, uma cabocla lascivamente reclinada; e Modestino Kanto expõe “Alma torturada” onde há qualidades, como se diz em gíria. Mazzuchelli dá um grupo em gesso, “Em defesa” bem movimentado. O resto, é o resto. A arquitetura entra na exposição deste ano com trabalhos de Sironi, Berna e Dubugras, não apresentando nada de novo.

Em medalhas, as medalhas do costume. E é só.

Numericamente consta o certame de 225 obras de pintura, 19 de escultura, 13 de arquitetura, 3 de gravura, afora 22 medalhas, gravuras em pedras, gesso e cera. Seria pouco no Panamá, nos Estados Unidos da Colômbia ou n’outro qualquer país de intensa população. Cá nos nossos Estados Unidos é, indubitavelmente, muito. Não esqueçamos que somos um país de apenas 30 milhões de habitante, e muito novo, tão novo como o U.S.A.

Setembro, 1917.

MONTEIRO LOBATO


Imagens

R. AMOEDO: EROS E A NOITE, p.173.

LUCÍLIO DE ALBUQUERQUE: RETRATO, p.175.

GEORGINA DE ALBUQUERQUE: RETRATO, p.177.

F. ANDRADE: NARCISO, p.177.

EDGARD PARREIRAS: RESTINGA, p.181.

R. CELA: ÚLTIMO DIA DE SÓCRATES, p.181.

R. CHAMBELLAND: VAIDOSA, p.183.

A. DUTRA: PESCANDO, p.187.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Alice Damasceno, Cristiane Souza de Oliveira e Daniel Belion

LOBATO, Monteiro. O “Salão” de 1917. Revista do Brasil, São Paulo, ano II, out. 1917, n. 22, p.171-190.

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