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L. F.. Salão de 1913 I. O Paiz, Rio de Janeiro, 7 set. 1913, p.4.

De Egba

Um dos nossos mais distintos colaboradores, que trata geralmente das coisas de arte, inicia hoje, em um artigo muito próprio, uma série de escritos sobre o salão de belas artes, deste ano.

O primeiro é o que se segue:

Salão de 1913

I

A vigésima exposição geral, inaugurada na Escola Nacional de Belas Artes, desde 1º do corrente, deve ser considerada mui justamente como um belo certame artístico; e constata inegavelmente a auspiciosa animação de arte que de certo tempo a está parte se vem acentuando.

Lembramo-nos bem que as primeiras exposições da série anual, inaugurada em 1894, se realizaram com regular interesse, a elas concorrendo as nossas maiores individualidades artísticas e não pequeno número de distintos amadores, todos esperançosos e confiantes de que para a arte se abririam novos horizontes e para o artista um campo de mais compensadora atividade e de mais vasto descortino para os seus ideais. Essa vida, porém, das primeiras exposições, foi de todo efêmera e passageira. Ela não pôde resistir à indiferença do público, passando as festas anuais da nossa Escola de Belas Artes a se realizarem friamente, sem nenhum interesse despertar, despercebidas do público e amortalhadas na mais glacial das indiferenças.

O que menos resultava desse desolador estado de apatia, era o desaparecimento do estímulo no artista, que, além de privado do apoio moral dos aplausos e homenagens em torno das suas obras, era compelido a amontoá-las, com a mais completa das desilusões, nos cantos dos seus ateliês.

A censura que se possa fazer ao meio, posto lhe tenha a justificar a ausência de cultura artística de que notoriamente se ressentia e ainda se ressente, é e deve ser sempre menor à responsabilidade que cabe à nossa Escola de Belas Artes, que muito mais do que fez e do que faz poderia fazer em favor dos artistas nacionais. É sabido que o governo concedeu àquela escola, para aquisições de objetos de arte, uma dotação orçamentária; mas, por outro lado, é também sabido que tal verba era destinada aos estrangeiros, absolutamente estranhos ao nosso meio, cujas obras eram sempre adquiridas de preferência às obras dos artistas brasileiros ou de estrangeiros ligados ao nosso meio. E se não fora a iniciativa da congregação da escola, de restringir à terça parte da dotação a quantia que poderia ser destinada aos estranhos, ainda hoje assistiríamos, pelos precedentes verificados, às mais clamorosas injustiças para com os nossos artistas.

A conduta da direção da escola não deixa ser assaz errada, e neste ponto indefensável. Natural é que adquiram no estrangeira [sic] e do estrangeiro objetos de arte para as nossas coleções; mais natural e necessário, porém, se torna a aquisição das melhores obras dos nossos melhores artistas. As galerias da Escola Nacional de Belas Artes, todos facilmente compreenderão, devem ser na realidade o arquivo, a documentação, o repositório dos documentos e provas das nossas manifestações de arte. Quando o historiador quiser reconstruir o passado da nossa pintura, por exemplo, naturalmente, a primeira fonte que procurará recorrer será a galeria nacional.

Aí, porém, muito pouco lhe permitirá descrever com verdade e segurança qualquer época que porventura pretenda estudar, não somente pela ausência de inúmeros artistas, que lá não figuram, como pela escassez de obras daqueles que mais se notabilizaram. Seria muito para louvar que o critério da escola a outro sentimento não obedecesse senão o de adquirir sempre as grandes obras dos nossos artistas; e que esse critério fosse estribado num dispositivo regulamentar, que terminantemente vedasse ao artista a venda de qualquer dos seus trabalhos apresentados nas exposições oficiais antes de ser feita a escolha, pela própria escola, daqueles que ela julgasse deverem pertencer a galeria pública, e servissem de atestados do valor do artista e do desenvolvimento da arte.

Isto é o que é preciso que se faça e é o que está em condições de fazer o professor Henrique Bernardelli, com os seus sentimentos de grande artista e a sua dedicação às artes brasileiras.

O momento atual, em que o público já vai perdendo da sua indiferença alguma coisa, que já é o suficiente para trazer maior incentivo aos artistas, animando-os e abrindo-lhes uma melhor fase, é asado para que ainda alguma coisa se faça.

-

Intentamos aqui a apreciação dos trabalhos de pintura expostos no atual salão.

Os expositores que aí se apresentam constituem os três seguintes grupos: o dos artistas, o dos novos e o dos amadores.

No primeiro figuram, entre outros, as Srs. Baptista da Costa, Alberto Delpino, Brocos, Bruno, os Chambellands [Carlos Chambelland e Rodolpho Chambelland], Crotti, Dall'Ara, De Servi, Fiuza, Georgina de Albuquerque, Graner, Latour, Christophe, Luiz de Freitas, Lucilio, Malaguti, Menge, Navarro da Costa, Carlos Oswaldo, Arnau, R. Frederico, Soelinger [sic], Souza Pinto, os Thimotheos [Arthur Timotheo e João Timotheo] e Visconti; no segundo, os Srs. Alvaro Teixeira, Angelina Angelina Agostini, Annibal de Mattos, Bicho, Bordon, Capllonch, Gaspar Magalhães e Eurico Alves, e no grupo de amadores, as Sras. Adelaide Gonçalves, Adelia Marques, America de Souza, Angelina de Figueiredo, Carlota Labouriau, Fedora Monteiro, Francisca Leão, Iracema Freire, Julieta Bicalho, Maria Pardos, Sarah Padovani, Sylvia Meyer e viscondessa de Castello [sic].

De todos ou quase todos diremos as nossas impressões.

Rio, setembro, 1913 - L. F.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

L. F.. Salão de 1913 I. O Paiz, Rio de Janeiro, 7 set. 1913, p.4.

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