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L. F.. O SALÃO DE 1913 VI. O Paiz, Rio de Janeiro, 20 set. 1913, p.3.

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Entre os melhores representantes da atual geração de pintores nacionais figuram com muito brilho os irmãos Chambelland - Rodolpho <nowiki>[</nowiki>[[Rodolpho Chamnbelland]]<nowiki>]</nowiki> e Carlos <nowiki>[</nowiki>[[Carlos Chamnbelland]]<nowiki>]</nowiki>. São dois moços, e bem moços ainda, que dia a dia firmam a sua individualidade artística.
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Entre os melhores representantes da atual geração de pintores nacionais figuram com muito brilho os irmãos Chambelland - Rodolpho <nowiki>[</nowiki>[[Rodolpho Chambelland]]<nowiki>]</nowiki> e Carlos <nowiki>[</nowiki>[[Carlos Chambelland]]<nowiki>]</nowiki>. São dois moços, e bem moços ainda, que dia a dia firmam a sua individualidade artística.
No salão são figuras salientes, e cujas obras têm sido com justiça assaz apreciadas.
No salão são figuras salientes, e cujas obras têm sido com justiça assaz apreciadas.

Revisão atual

O SALÃO DE 1913

VI

Entre os melhores representantes da atual geração de pintores nacionais figuram com muito brilho os irmãos Chambelland - Rodolpho [Rodolpho Chambelland] e Carlos [Carlos Chambelland]. São dois moços, e bem moços ainda, que dia a dia firmam a sua individualidade artística.

No salão são figuras salientes, e cujas obras têm sido com justiça assaz apreciadas.

O principal trabalho de Rodolpho é o Baile a fantasia. É um quadro de valor e que dá bem a ideia do talento do seu autor. Vivo, movimentado, cheio de tons e de luz, à primeira vista dá a impressão de algo de fantástico e de decorativo. Para logo, porém, se vê que ele é um conjunto de admiráveis efeitos. É trabalho que vibra e faz vibrar, e que, palpitante de cores intensas, deixa o observador numa correspondente intensidade de emoções. Observado atentamente, as suas qualidades não são inferiores. O quadro dá logo a perceber o delírio de uma festa carnavalesca. As figuras nele são bem pintadas e movimentadas. A principal delas e a de maior destaque é a do carnavalesco que dança com uma rapariga de fantasia encarnada. Essa figura está magistralmente tratada, não só na posição em que se acha, de uma completa naturalidade, como na expressão do seu rosto, que não poderia ser apanhado com mais justeza. O ambiente de todo o quadro foi também apanhado com rara felicidade.

Ladeando-o, estão dois retratos do mesmo autor, que também são bem trabalhados.

As extremidades de uma figura servem sempre de pedra de toque das dificuldades do gênero e da segurança do pincel do artista. Nos dois trabalhos aludidos há de fato alguma coisa que revela a firmeza do pintor. As cabeças têm relevo. O tronco, sobretudo o do retrato n. 57, tem consistência. As mãos, porém, não só deste, como de outro retrato, deixam a desejar. No primeiro, há qualquer coisa de inacabado na mão direita; no segundo, a forma e colorido das mãos não agradam. Neste, admiramos o tom levíssimo do vestido e a expressão fisionômica.

Comparados entre si os dois trabalhos, o último se nos afigura melhor.

Carlos Chambelland apresenta também dois retratos - La dame au gant e o retrato do Dr. Oliveira Lima. Este é de uma naturalidade inexcedível. Com relevo talvez demasiado, é a cabeça do distinto, simpático e competente intelectual apanhada com exatidão, sentindo-se, através do trabalho, que o artista pintou com prazer e carinho. Pode ser que a posição de intimidade em que foi apanhado o original se preste a qualquer observação procedente; mas o que é fora de dúvida é que a arte deve ser sempre verdadeira e sincera; e ninguém dirá que aquele retrato não seja a expressão real e exata do ilustrado escritor brasileiro.

Com igual, senão superior carinho, sente-se ter sido feito o outro retrato, obra sem dúvida de maior fôlego e de maiores dificuldades que o primeiro, e por si só capaz de muito bem recomendar o artista.

Não somente pela posição em que se acha, mas pelo destaque da figura, é o trabalho que o primeiro atrai agradavelmente a atenção de quem entra no salão. Julgamo-lo um trabalho extraordinário, sem embargo de leves senões, que poderiam ser observados numa das mãos e nos lábios.

São também figuras salientes no grupo dos nossos atuais artistas os irmãos Timotheos - o Arthur [Arthur Timotheo da Costa] e o João [João Timotheo da Costa]. Deste já nos ocupamos em notas anteriores.

Arthur Timotheo expõe três quadros. O maior e o de maior importância é o Dia seguinte. No seu conjunto é um quadro que agrada, porque inegavelmente tem qualidade assaz apreciáveis.

Com muito pesar, observando atentamente o trabalho, temos restrições a fazer-lhe. Desde logo se vê que o artista prejudicou o mérito da sua obra, visto não a ter acabado. Vejam-se os braços das figuras. Não se pode ocultar a desagradável impressão que eles causam.

Os do chauffeur somem-se, os do carnavalesco que, em estado de embriaguez, se ampara à parede, e é seguro por um dos encarregados da limpeza das ruas, não estão bem desenhados, nem bem pintados; os do que varre a calçada dão a impressão de não parecerem braços, e assim os das demais figuras. E foi lamentável que tal sucedesse, porque, se o quadro tivesse sido convenientemente concluído, seria um trabalho de primeira ordem.

Bem sabemos que ao autor não escasseiam qualidades de um bom artista, e é muito capaz de fazer excelentes obras.

Em inúmeros trabalhos há revelado o seu merecimento.

Além do Dia seguinte, tem uma paisagem da Quinta da Boa Vista, muito delicada e interessante e um nu - Adormecida.

Luiz Christophe é outro artista de talento reconhecido e de boa reputação entre nós.

Figura no salão com três bons trabalhos. Há a acentuar-lhe nos seus processos, e na sua maneira de ver, um certo quê de original e de inconfundível. No quadro de n. 140 - Ilha da Boa Viagem, ao pôr do sol, parece, à primeira vista, que se exagerou nos tons, mas na nossa baía, a quem observar, não são estranhos aqueles efeitos. Em certas tardes são realmente aqueles os reflexos produzidos pelo sol nas montanhas. São toques momentâneos em que a faixa rubro-violácea do horizonte se reflete daquele modo.

Dos seus trabalhos, porém, preferimos a Praia do Arpoador. Há aí uma vaga que se lança na praia e outra na iminência de arrebentar-se, que traduzem momentos felicíssimos do inteligente artista. É magnífica essa última vaga. Só por si vale um quadro; e grande deveria ter sido o esforço do pintor para conseguir o que fez.

Fiuza Guimarães apresenta um grande quadro - a Guerra e outro menor - Cabeça de camponês.

Por mais que possuído da mais viva simpatia, observamos, o primeiro dos trabalhos não nos agradou.

Sentimos que há nele, além de traços inapagáveis da inspiração do artista, toques de mestre. Mas confessamos que nos perdemos na indecisão do quadro, e não sentimos a consistência, nem a expressão das sua [sic] figuras.

É possível que ele possa ser comparado a um trecho musical, profundamente clássico, e com ele aconteça o que comumente sói acontecer com este. Preferimos, porém, declarar que não o entendemos, e por isto mesmo não o pudemos apreciar, o que já não sucede com o outro trabalho, que julgamos muito bom, e no qual muita coisa há a apreciar - boa expressão de fisionomia, bom desenho, destaque completo da cabeça, colorido natural e sincero.

Igual simpatia temos pelo Sr. Dall'Ara, artista que, sem impulso de audácia e exagero, tem sabido cercar a sua obra de um certo quê de moderação, que sempre agrada.

O seu quadro n. 78 - Tarefa pesada, é trabalho muito bem feito. As figuras são todas bem cuidadas, principalmente a que conduz a lata d'água; e as sombras são feitas com a maior naturalidade. O artista, porém, não conseguiu tirar certos efeitos, que seriam naturais.

A árvore, por exemplo, que recebe o sol em cheio, ressente-se da falta de tons iluminados, não sendo verdadeiro o colorido que às suas folhas imprimira o artista, que, aliás tão belo colorido soube dar às figuras.

A Ronda é igualmente um bom quadro, talvez um pouco frio, mas de uma sinceridade e realidade que seduzem.

No Sr. Dall'Ara há esta observação a fazer. O que lhe sai do pincel tem algo de frio, mas sempre agrada.

Rio, setembro de 1913.

L. F.

Exposição de belas artes

Acha-se aberta, hoje, das 10 horas da manhã às 5 da tarde, a exposição geral de belas artes, instalada em uma das espaçosas galerias da Escola de Belas Artes, à Avenida Rio Branco.

Hoje, sábado, é considerado dia chic para a visita a este salon.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

L. F.. O SALÃO DE 1913 VI. O Paiz, Rio de Janeiro, 20 set. 1913, p.3.

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