. L. F.. O SALÃO DE 1913 V. O Paiz, Rio de Janeiro, 18 set. 1913, p.7. - Egba

L. F.. O SALÃO DE 1913 V. O Paiz, Rio de Janeiro, 18 set. 1913, p.7.

De Egba

O SALÃO DE 1913

V

Em um dos nossos anteriores artigos dissemos que o Sr. Carlos Oswaldo é um artista, cuja obra vem irrompendo fecunda e radiante. Vem irrompendo - é apenas uma maneira de dizer. A sua obra é já a de um verdadeiro artista, que com o superior talento que está revelando, será sem dúvida um dos grandes mestres e um dos maiores pintores brasileiros.

É o que nos autoriza dizer o seu magnífico grupo de 10 trabalhos, com os quais concorre ao salão.

É um dos que com mais brilho ali se apresentam; e por isso se torna digno de entusiasmos encômios, que aqui lhe deixamos consignados com viva satisfação. Os seus quadros são todos bons, pintados com sentimento, inspiração e inteligência, não sendo fácil, se a isto fôramos obrigados, a fazermos dentre eles qualquer seleção. É de efeitos surpreendentes o trabalho a que intitulou - Estudo de reflexos. É quadro de mestre, cheio dos encantos e qualidades da verdadeira arte. Representa um corpo nu de mulher, banhado pelos reflexos de várias tonalidades, que se harmonizam com admirável justeza. O de n. 181 - Cabeça de velho, é outro, que, talvez, em nada seja inferior àquele.

É admirável como Carlos Oswaldo, de quadro a quadro, sabe variar de processos. A maioria dos seus quadros parece ter sido feita por artistas diversos e com sentimentos diferentes. Comparemos, por exemplo, o quadro n. 185, Tocando Debussy, com o de n. 179, o Supremo esforço; este, com o Estudo de reflexos, ainda este com a sua grande tela As forças da Pátria. Somente os de ns. 178 e 183; 179 e 180 se assemelham entre si.

Entretanto, essa mudança de técnica em nada afeta o valor dos trabalhos.

Constituirá ela, porventura, uma qualidade, uma virtude digna de ser louvada?

Certamente. Ao nosso ver tais mudanças são manifestações de que só são capazes os bons talentos, as inteligências ricamente dotadas.

No seu grande quadro, que, apesar de não ser o melhor, é um trabalho de valor, apenas há a prejudicar-lhe um pouco a ideia infeliz do artista de estender ao fundo do quadro a bandeira nacional, de modo a dominar todo o trabalho, causando mau efeito e prejudicando o conjunto das forças da Pátria. Estas são representadas pela ciência, pela arte, pelo trabalho, pela liberdade, pela justiça e pela instrução. A figura que simboliza a arte foi tratada com inspiração, procurando o pintor representá-la num tipo expressivo, de cor acentuadamente alva e de perfil que logo denuncia um perfil grego.

Em resumo, todos os seus trabalhos são bons e o seu nome está em indiscutível destaque, não somente entre os expositores, como também entre os artistas da geração a que pertence.

Os professores Modesto Brocos e De Servi, que, com os Srs. Baptista da Costa, Henrique Bernardelli e Pedro Peres, formam o júri incumbido de conferir os prêmios na atual exposição, nela também se apresentam.

O primeiro, o Sr. Brocos, apenas expõe uma aquarela e uma gravura a água forte.

Na aquarela, que representa uma leitura à noite, as figuras não agradam, principalmente a da mulher, não tendo conseguido o artista tirar os efeitos que naturalmente procurou obter. Apreciamos mais a gravura, onde há vestígios de pincel amestrado.

São dois quadrinhos que não dão a medida do merecimento do pintor, justamente conceituado em o nosso meio, onde é tido como bom professor. E, por isto mesmo, para um distinto professor, os seus trabalhos são insignificantes.

O segundo, o Sr. Carlos De Servi, apresenta uma maior bagagem. Maior e melhor. São todas figuras, sobressaindo o retrato de uma distinta senhora e de um conhecido amador. É um retrato de grandes dimensões e que, se não é uma obra de todo impecável, é sem dúvida trabalho executado com maestria, sentindo-se em todo ele tamanha simplicidade, que para [...] atrai a atenção de modo muito agradável. É comum, no gênero retrato chegar o artista ao exagero das tintas, de modo a tornar a figura muito cheia e empastelada, ou chegar ao extremo oposto, isto é, alisá-la, de modo a tirar-lhe a beleza artística, aproximando-a de uma fotografia.

No Sr. De Servi não se observam tais defeitos. Ele sabe manter-se em boa linha, não se afastando da simplicidade, que é talvez uma das mais salientes qualidades da sua técnica. Muitas vezes, com um só traço, que lhe sai espontâneo do pincel consegue resultados que por outros de técnica rebuscada não seriam obtidos sem ingentes esforços. Veja-se, por exemplo, os tons que obteve no rosto da figura daquele excelente esboceto, a que chmaou [sic] Insônia'. Que suavidade de tons! Quanto efeito agradável alcançado com tão grande moderação!

A simplicidade na pintura, sobre ser qualidade apreciabilíssima no pintor, desde logo traduz a sinceridade da interpretação. Pode-se admitir como princípio verdadeiro o seguinte: não há técnica revestida de simplicidade que não dê resultados sempre sinceros.

O retrato, que apreciamos, é um trabalho rico de tons. Apenas nele quereríamos um maior destaque na cabeça e que tivessem sido melhor acentuadas as dobras do vestido.

O quadro n. 83 Puberdade, é também um trabalho bem feito. Há excessiva delicadeza de tons neste quadro. O retrato do barão de Ergonte é a sua imagem perfeita, artisticamente reproduzida na tela.

Os dois outros trabalhos Saudades e Estudo de cabeça, são de menor importância.

Seria injusto da nossa parte o silenciar [...] boa impressão recebida do conjunto das obras do Sr. De Servi; e nenhum favor lhe faremos em aqui lhe deixarmos os nossos aplausos.

O Sr. Pedro Bruno expõe Harmonia das praias, Harmonia azul, Pedras marinhas, Árvore amiga. São patentes os progressos deste artista. Os seus quadros atuais provam a observação. Até há bem pouco tempo a sua maneira de fazer era indecisa, vacilante, tímida, e sem a precisa segurança e firmeza. Hoje, não. Os seus trabalhos, se não são obras perfeitas, são, contudo, reveladores de qualidade que só se alcançam com muito estudo, dedicação e talento.

Quem foi capaz de fazer um quadro como o que ele denominou Harmonia das praias, já é um artista que se vai impondo à consideração pública. É o melhor e o mais completo deles, sem que, aliás, deixe de ter senões. O quadro representa um canto de praia. Aí, junto a uma embarcação, se acham duas figuras de pescadores, ocupados no concerto de uma rede.

As figuras estão boas e têm qualidades. A rede, porém, não causa bom efeito, pela impressão de dureza e também pelo colorido, que não é aceitável.

Dispersas na praia há várias folhas caídas, nas quais parece não ter havido nenhuma justeza de desenho e proporções. Para serem o que representam, seria preciso que fossem folhas de exagerado tamanho, o que na realidade não são.

O quadro, porém, no seu conjunto, tem vida, é bem iluminado e bom. Os de ns. 47 e 49 são aceitáveis e interessantes, o que já não diremos do de n. 50 Árvore amiga.

O Sr. João Timotheo da Costa apresenta-se com dois quadros Epave (nu) e Último toque.

O primeiro, é quadro de não pequenas proporções, representando duas raparigas semi-abraçadas, ambas de costas para o observador. A impressão do quadro é boa, visto formar um conjunto harmônico, para o que também concorreu a feliz escolha da moldura e do passe-par-tout. Há relevo nas figuras, que são de bom colorido. O desenho, salvo as falhas que adiante assinalaremos, é firme, guardando os modelos, entre si, uma posição muito natural. Apreciado, porém, o quadro, em seus detalhes, não poderá fugir à análise o mau efeito de alguma coisa que parece um corte no pescoço da figura mais alta, de modo a dar a impressão de que os cabelos tendem a entrar pelo pescoço. É que o artista passou bruscamente do cabelo ao colorido da carne sem esbater suficientemente. Outro defeito não menor está na mão esquerda da figura mais baixa, que repousa sobre a cintura da companheira, cuja mão parece ter sido olvidada pelo pintor. Também não nos agradaram os cabelos, que dão a ideia de terem sido empastados.

No segundo quadro, há um velho de cachimbo à boca dando a última de mão [sic] em um trabalho, que executa sobre uma mesa. É um interior de oficina. A figura do velho escultor está bem feita, com feição definida, cabelos de bom colorido e leves, com agradável tonalidade no rosto e nas mãos.

A despeito das ligeiras observações aí feitas, o distinto artista apresenta-se condignamente no salão.

O Sr. Alberto Delpino, pintor residente na cidade de Barbacena, Minas, e aí professor de desenho, apenas mandou o pequenino quadro Cena pastoril, que, não obstante ter sido feito com certo sentimento, não dá ideia do talento de que é realmente dotado o artista.

Rio, setembro, 913.

L. F.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

L. F.. O SALÃO DE 1913 V. O Paiz, Rio de Janeiro, 18 set. 1913, p.7.

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