. L. F.. O SALÃO DE 1913 IV. O Paiz, Rio de Janeiro, 13 set. 1913, p.4. - Egba

L. F.. O SALÃO DE 1913 IV. O Paiz, Rio de Janeiro, 13 set. 1913, p.4.

De Egba

O SALÃO DE 1913

IV

A fantasia na pintura constitui um gênero, para quem queira admiti-lo, muito predileto de determinados espíritos. Se nas letras podemos admirar e aplaudir os chamados escritores de ficção, como entre nós o tem sabido ser Coelho Netto, na pintura são falíveis os resultados do artista que por esse caminho se aventura.

O que há desde logo a condenar nesse gênero é que ele dificilmente conseguirá ser a expressão da verdadeira arte na pintura. Gênero mais apropriado à decoração, não passará dos imediatos efeitos que possa produzir.

Dos nossos artistas é o Sr. Helios Seelinger o que mais se inclina à fantasia. Os seus trabalhos sempre acusam os excessos da imaginação. É o nosso pintor de ficção. Por isso mesmo é difícil à crítica dizer dos seus méritos com certa segurança, pelo muito de imaginário, de fantástico e, portanto, de arbitrário, que encerra a sua produção.

Artista da geração atual encontra o Sr. Helios um êmulo no Sr. Carlos Oswaldo; mas este não se entrega de todo, como faz o primeiro, aos vôos da imaginação; não se desprende da realidade. Por isso mesmo, a sua obra vem irrompendo fecunda e radiante.

Expõe o Sr. Helios Seelinger um só quadro, e este de pura fantasia. É um incêndio, em todos os seus horrores, que pretendeu transportar para a tela. Resultado obtido - negativo.

O primeiro efeito que procurou obter foi o de um contraste entre o fogo e a noite. Ninguém, porém, consegue saber se é à noite que aquelas figuras de bombeiros, sob a impressão das labaredas que já se alteiam, no ângulo superior e à esquerda da tela, se esforçam por abafar o incêndio. Tais figuras são pouco animadas, principalmente a do cocheiro que conduz o carro, que chamaríamos de um clown estonteado, se a isso não nos vedasse a fantasia do pintor.

Outra figura também defeituosa é a que ampara nos braços o corpo de uma menina desfalecida. Veja-se como está duro e em posição absolutamente falsa o braço pendente deste menina. Enfim, sem desconhecermos o talento do artista, confessamos que o seu único trabalho, ora exposto, O fogo, que no catálogo tem o n. 198, não nos agradou.

Com um só quadro também se nos apresenta o Sr. Navarro da Costa. Este, porém, vem como cavaleiro conscientemente vitorioso das dificuldade de um gênero em que não é dado a qualquer facilmente conquistar louros. Marinhista, exclusivamente marinhista, entregou-se com ardor ao cultivo da sua arte, a que quer com a sinceridade de um crente. Vibrátil, febricitantemente nervoso, o seu temperamento é de um verdadeiro artista. Há na sua produção, a atenuar-lhe quaisquer deficiências que porventura ainda se observem, a circunstância de se estar revelando um bom pintor, à custa dos seus próprios esforços, sendo um autodidata no real sentido da palavra.

Entre nós, os marinhistas têm sido raros. Ocorrem-nos no momento os nomes de De Martino e Castagneto, como os principais, seguindo-lhes Emilio Rouéde e Julio Ballá.

A Castagneto, porém, nenhum excedeu. Foi artista que se impôs à admiração, menos pela profundidade da sua obra do que pelo cunho especial do seu estilo, revestido sempre de muita liberdade e largueza. Não deixando grandes quadros, extravasando-se em uma produção de pequenos trabalhos, de impressões ligeiras, conseguiu, todavia, tornar-se pintor notável, por ter sabido acentuar a sua individualidade de modo inconfundível, com o seu processo a la diable de fazer.

Navarro da Costa que, como Castagneto, é um revoltado, que quer andar só, e aprender consigo mesmo, será, sem dúvida, o continuador das glórias do grande marinhista. Nele já se sente uma individualidade que melhor se firmará com a continuação da obra que vem fazendo com grande talento, vivida inspiração e abundância de sentimento.

E tais são as qualidades que revela [sic] o seu bom quadro Sol de inverno.

Este trabalho é dos que deveriam pertencer à nossa galeria pública. Serviria para a documentação futura da formação e desenvolvimento da obra de um pintor que amanhã será um dos grandes representantes da nossa cultura artística.

Não nos cansamos de repetir o que já anteriormente dissemos. Não é acertada e nem tem sido bem inspirada a orientação da nossa escola, no que concerne à aquisição de quadros.

Em primeiro lugar, necessário se faz que a compra deles seja feita por intermédio de um júri constituído de professores da própria escola; e, depois, que esse júri se inspire em sentimento de maior apreço pelos nossos artistas patrícios, e estrangeiros que estejam incorporados ao nosso movimento, os quais, de fato, só se consagram à arte pelo muito amor que a ela tem e não porque se sintam cercados do indispensável estímulo e das recompensas de que não podem prescindir.

Estamos certos de que a formosa tela de Navarro da Costa, como os excelentes trabalhos de Baptista da Costa, de Carlos Oswaldo, dos Chambellands [Carlos Chambelland e Rodolpho Chambelland], de Menge, dos Timotheos [Arthur Timotheo e João Timotheo] e de outros, voltarão aos ateliês, e não irão ocupar nas galerias da escola os lugares que, de acordo com o modo de sentir ali predominante, devem ser ocupados por quaisquer artistas estrangeiros que, por aqui transitem, e que para logo se transformam, no conceito da crítica indígena, em notabilidades mundiais.

Não vemos razão para que, no momento presente em que está aberto o nosso salão, e em detrimento dos nossos, sejam adquiridos quadros de estranhos, agora entre nós, bons artistas realmente, mas que estão longe de serem vultos que se imponham. É assim, porém, que comumente se faz, e arbitrariamente se pratica. Contra esse proceder impatriótico e desarrazoado, aqui fica o nosso protesto.

Rio, setembro - 913

L. F.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

L. F.. O SALÃO DE 1913 IV. O Paiz, Rio de Janeiro, 13 set. 1913, p.4.

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