. J. M. ARTES E ARTISTAS - BELAS ARTES. O Paiz, Rio de Janeiro, 20 ago. 1918, p.5. - Egba

J. M. ARTES E ARTISTAS - BELAS ARTES. O Paiz, Rio de Janeiro, 20 ago. 1918, p.5.

De Egba

Edição feita às 23h34min de 28 de Março de 2013 por Egba (Discussão | contribs)

Ligeiras impressões do “salon”.

Como profanos, todos os sistemas e feituras nos parecem admissíveis na pintura de cavalete, desde que se destinem a exprimir a ideia ou o sentimento que o artista quis despertar em nós, e não pretendam interessar-nos exclusivamente pelo seu caráter, apuradamente clássico, ou extravagantemente revolucionário.

Como profanos, nos é indiferente que A, em vez de se utilizar de pincéis como B e C, se sirva de escovas ou esponjas, e que recorra ao efeito do alto relevo, por meio da sobreposição da tinta empastada, ou que lhe prefira o das tenuidades do espeganço [sic] - se com isso pôde exprimir o que pretendia. Mas, se apenas o preocupou o empenho de prender a nossa atenção pelas singularidades do 'processo, por mais individual que ele pareça, temos o direito de não apreciar em alto grau a sua arte, e de dizer que tal artista não vê a natureza através do temperamento, mas que se serve dela simplesmente como pretexto para a aplicação, mais ou menos engenhosa, das suas astúcias de artífice.

E já não será, então, para nós o artista, mas, apenas o ...arteiro!

*

Finalmente, qual a impressão obtida do atual salon?

Excelente! Não o dizemos com vibrações de entusiasmo calculado, mas com a sinceridade, embora de um visitante desejoso de ver com os olhos da boa fé.

Há naquelas salas coisas notavelmente inferiores e algumas impiedosamente rejeitáveis, mesmo por profanos, como nós?

Seria rematada hipocrisia negá-lo!

Mas, existem para isso duas razões igualmente ponderáveis.

Primeira: A conveniência de aceitar tudo, para não desanimar os que começam...(e parece que até os que... ainda não começaram).

Segunda: A necessidade que os aristas tem, de viver, como toda a gente. Porque se há um ideal, que é a aspiração da suprema perfeição nunca atingida, ou, segundo a vulgarizadíssima expressão de Guizot, a pura essência da poesia, desventuradamente ainda há um outro, não menos empolgante e a cuja realização absoluta até os artistas são constrangidos - para felicidade do senhorio, do vendeiro, do sapateiro, do alfaiate...

Isso explica perfeitamente a falta de seleção de alguns artistas nas suas próprias remessas, isto é, porque - a par de trabalhos seguros e dignos do maior apreço - eles enviam, às vezes, coisas tão insignificantes, que chega a ser difícil atribuí-las ao mesmo autor.

Mas, que remédio, senão contar com a boa vontade dos amadores... econômicos, visto que o número dos outros continua a sr infinitamente inferior ao dos famosos trezentos de Gedeão?...

E seria tão fácil aumentá-lo!

Bastaria que as altas individualidades do país (nem só de política vive o homem!) e as agremiações de elite, como o Clube dos Diários, o Jockey Club, o Derby, e todos os outros agrupamentos representativos das classes mais cultas e abastadas da nossa sociedade, se interessassem um pouco mais vivamente pela nossa arte, que é, em toda a parte do mundo, a expressão mais sensível do progresso e da cultura!

Se os artistas nacionais se reconhecessem assim aparados, animar-se-iam, certamente, a esforços mais amplos e completos, e dar-nos-iam tudo quanto logicamente podemos deles esperar!

Foram estas as reflexões que nos despertaram as visitas feitas ao salon, depois de termos percorrido aquelas salas, onde tão claramente se oferecia a arte já definitiva - se assim podemos dizer - de uns; o esforço leal e brilhante de outros e as eloquentes promessas dos novos.

*

Além dos trabalhos a que já atrás nos referimos, muitos outros merecem a atenção demorada do visitante, e entre eles citaremos, pela ordem do catálogo: Liz (50), de Bracet, um nu harmonioso e de excelente tonalidade ambiente; Lagoa Rodrigo de Freitas (58), de Pedro Bruno; Praia de Gragoatá (69), de Christofle [sic]; Romano (81), de Coelho Magalhães, boa impressão, de estudo e o Retrato, (78), fosco, mas de desenho equilibrado; dois retratos, (96 e 97), de Raul Deveza, ambos executados com visível honestidade e a singeleza de quem pretende ir pelo melhor caminho, principalmente o 96, que contém contrastes compreendidos com discrição, porque é serenamente interpretado; Agonia da Tarde (123), de Fanzeres, um pequeno pastel de mancha, bem vista; Plazuela del Socorro (135), e Porto de Santo André, (136), de Gottuzo, sombras largas e transparentes, verdadeiro ar e verdadeira luz; Primeira separação (170), de Maria Pardos, ambiente traduzido com inteira segurança de valores; No atelier (172), de Timotheo da Costa [[[João Timotheo da Costa]]]; Porque me abandona? (230), de Rocco, a que já nos referimos, sem a indicação do número, nem do autor; Guida (224), escultura de Francesco Andrade; Bustos (228 A a 228 D), de Correia de Lima, todos magistrais (é o caso de dizer), e dos quais o mais gracioso é o Retrato de senhora e o de mais caráter o de Raul Pederneiras, mais desembaraçadamente executado; Rêveur (230), de Debrie; inquestionavelmente uma das joias da seção de escultura; On ne passe pas!/ (232), de Kanto, talvez mais teatral e menos sentido do que se podia desejar; Colix (240), de Hildegardo Velloso, um cão de Hulm de movimento arrojado, mas obtido, e que revela no autor raras e preciosíssimas qualidades de observação, que o céu conserve; Senhora A. L. A., de [[Margarida Lopes de Almeida//, busto modelado com agradável singeleza e uma sobriedade voluntária, pouco comum nos que começam, e [http://www.dezenovevinte.net/egba/index.php?title=Imagem:1918_rbrasil_pcouto.jpg Barão Homem de Mello, estudo em gesso, de Pinto do Couto, obra de artista seguro dos seus meios de execução, e que os utiliza com todo o valor.

*

- Mas, afinal, em que consiste a sinceridade, em arte?

Não será apenas nisto: em fazer conscienciosamente o que se pôde, com segurança, sem pretendermos dar aos outros a falsa impressão de que se é capaz de mais?... - J .M.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição Natalia Mano Goulart Saraiva

J. M. ARTES E ARTISTAS - BELAS ARTES. O Paiz, Rio de Janeiro, 20 ago. 1918, p.5.

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