. J. M. ARTES E ARTISTAS - BELAS ARTES. O Paiz, Rio de Janeiro, 20 ago. 1918, p.5. - Egba

J. M. ARTES E ARTISTAS - BELAS ARTES. O Paiz, Rio de Janeiro, 20 ago. 1918, p.5.

De Egba

(Diferença entre revisões)
Revisão atual (23h37min de 28 de Março de 2013) (ver código)
 
(4 edições intermediárias não estão sendo exibidas.)
Linha 37: Linha 37:
<nowiki>*</nowiki>
<nowiki>*</nowiki>
-
Além dos trabalhos a que já atrás nos referimos, muitos outros merecem a atenção demorada do visitante, e entre eles citaremos, pela ordem do catálogo: ''Liz'' (50), de [[Bracet]], um ''nu'' harmonioso e de excelente tonalidade ambiente; ''Lagoa Rodrigo de Freitas'' (58), de [[Pedro Bruno]]; ''Praia de Gragoatá'' (69), de [[Christofle]] [sic]; ''Romano'' (81), de [[Coelho Magalhães]], boa ''impressão'', de estudo e o ''Retrato'', (78), fosco, mas de desenho equilibrado; dois retratos, (96 e 97), de [[Raul Deveza]], ambos executados com visível honestidade e a singeleza de quem pretende ir pelo melhor caminho, principalmente o 96, que contém contrastes compreendidos com discrição, porque é serenamente interpretado; ''Agonia da Tarde'' (123), de [[Fanzeres]], um pequeno pastel de mancha, bem vista; ''[http://www.dezenovevinte.net/egba/index.php?title=Imagem:1918_rbrasil_gotuzzo.jpg Plazuela del Socorro]'' (135), e ''Porto de Santo André'', (136), de [[Gottuzo]], sombras largas e transparentes, verdadeiro ar e verdadeira luz; ''Primeira separação'' (170), de [[Maria Pardos]], ambiente traduzido com inteira segurança de valores; ''No atelier'' (172), de Timotheo da Costa; ''Porque me abandona?'' (230), de [[Rocco]], a que já nos referimos, sem a indicação do número, nem do autor;
+
Além dos trabalhos a que já atrás nos referimos, muitos outros merecem a atenção demorada do visitante, e entre eles citaremos, pela ordem do catálogo: ''Liz'' (50), de [[Bracet]], um ''nu'' harmonioso e de excelente tonalidade ambiente; ''Lagoa Rodrigo de Freitas'' (58), de [[Pedro Bruno]]; ''Praia de Gragoatá'' (69), de [[Christofle]] [sic]; ''Romano'' (81), de [[Coelho Magalhães]], boa ''impressão'', de estudo e o ''Retrato'', (78), fosco, mas de desenho equilibrado; dois retratos, (96 e 97), de [[Raul Deveza]], ambos executados com visível honestidade e a singeleza de quem pretende ir pelo melhor caminho, principalmente o 96, que contém contrastes compreendidos com discrição, porque é serenamente interpretado; ''Agonia da Tarde'' (123), de [[Fanzeres]], um pequeno pastel de mancha, bem vista; ''[http://www.dezenovevinte.net/egba/index.php?title=Imagem:1918_rbrasil_gotuzzo.jpg Plazuela del Socorro]'' (135), e ''Porto de Santo André'', (136), de [[Gottuzo]], sombras largas e transparentes, verdadeiro ar e verdadeira luz; ''Primeira separação'' (170), de [[Maria Pardos]], ambiente traduzido com inteira segurança de valores; ''No atelier'' (172), de Timotheo da Costa <nowiki>[</nowiki>[[João Timotheo da Costa]]<nowiki>]</nowiki>; ''Porque me abandona?'' (230), de [[Rocco]], a que já nos referimos, sem a indicação do número, nem do autor; ''Guida'' (224), escultura de [[Francisco Andrade]]; Bustos (228 A a 228 D), de [[Correia de Lima]], todos ''magistrais'' (é o caso de dizer), e dos quais o mais gracioso é o ''Retrato de senhora'' e o de mais caráter o de [http://www.dezenovevinte.net/egba/index.php?title=Imagem:1918_rbrasil_clima.JPG Raul Pederneiras], mais desembaraçadamente executado; ''Rêveur'' (230), de [[Debrie]]; inquestionavelmente uma das joias da seção de escultura; ''[http://www.dezenovevinte.net/egba/index.php?title=Imagem:1918_rbrasil_kanto.JPG On ne passe pas!]'' (232), de [[Kanto]], talvez mais teatral e menos sentido do que se podia desejar; ''Colix'' (240), de [[Hildegardo Velloso]], um cão de Hulm de movimento arrojado, mas ''obtido'', e que revela no autor raras e preciosíssimas qualidades de observação, que o céu conserve; ''Senhora A. L. A.'', de [[Margarida Lopes de Almeida]], busto modelado com agradável singeleza e uma sobriedade voluntária, pouco comum nos que começam, e ''[http://www.dezenovevinte.net/egba/index.php?title=Imagem:1918_rbrasil_pcouto.jpg Barão Homem de Mello]'', estudo em gesso, de [[Pinto do Couto]], obra de artista seguro dos seus meios de execução, e que os utiliza com todo o valor.
 +
 
 +
<nowiki>*</nowiki>
 +
 
 +
- Mas, afinal, em que consiste a sinceridade, em arte?
 +
 
 +
Não será apenas nisto: em fazer conscienciosamente o que se pôde, com segurança, sem pretendermos dar aos outros a falsa impressão de que se é capaz de mais?... - [[J. M.]]
----
----

Revisão atual

Ligeiras impressões do “salon”.

Como profanos, todos os sistemas e feituras nos parecem admissíveis na pintura de cavalete, desde que se destinem a exprimir a ideia ou o sentimento que o artista quis despertar em nós, e não pretendam interessar-nos exclusivamente pelo seu caráter, apuradamente clássico, ou extravagantemente revolucionário.

Como profanos, nos é indiferente que A, em vez de se utilizar de pincéis como B e C, se sirva de escovas ou esponjas, e que recorra ao efeito do alto relevo, por meio da sobreposição da tinta empastada, ou que lhe prefira o das tenuidades do espeganço [sic] - se com isso pôde exprimir o que pretendia. Mas, se apenas o preocupou o empenho de prender a nossa atenção pelas singularidades do 'processo, por mais individual que ele pareça, temos o direito de não apreciar em alto grau a sua arte, e de dizer que tal artista não vê a natureza através do temperamento, mas que se serve dela simplesmente como pretexto para a aplicação, mais ou menos engenhosa, das suas astúcias de artífice.

E já não será, então, para nós o artista, mas, apenas o ...arteiro!

*

Finalmente, qual a impressão obtida do atual salon?

Excelente! Não o dizemos com vibrações de entusiasmo calculado, mas com a sinceridade, embora de um visitante desejoso de ver com os olhos da boa fé.

Há naquelas salas coisas notavelmente inferiores e algumas impiedosamente rejeitáveis, mesmo por profanos, como nós?

Seria rematada hipocrisia negá-lo!

Mas, existem para isso duas razões igualmente ponderáveis.

Primeira: A conveniência de aceitar tudo, para não desanimar os que começam...(e parece que até os que... ainda não começaram).

Segunda: A necessidade que os aristas tem, de viver, como toda a gente. Porque se há um ideal, que é a aspiração da suprema perfeição nunca atingida, ou, segundo a vulgarizadíssima expressão de Guizot, a pura essência da poesia, desventuradamente ainda há um outro, não menos empolgante e a cuja realização absoluta até os artistas são constrangidos - para felicidade do senhorio, do vendeiro, do sapateiro, do alfaiate...

Isso explica perfeitamente a falta de seleção de alguns artistas nas suas próprias remessas, isto é, porque - a par de trabalhos seguros e dignos do maior apreço - eles enviam, às vezes, coisas tão insignificantes, que chega a ser difícil atribuí-las ao mesmo autor.

Mas, que remédio, senão contar com a boa vontade dos amadores... econômicos, visto que o número dos outros continua a sr infinitamente inferior ao dos famosos trezentos de Gedeão?...

E seria tão fácil aumentá-lo!

Bastaria que as altas individualidades do país (nem só de política vive o homem!) e as agremiações de elite, como o Clube dos Diários, o Jockey Club, o Derby, e todos os outros agrupamentos representativos das classes mais cultas e abastadas da nossa sociedade, se interessassem um pouco mais vivamente pela nossa arte, que é, em toda a parte do mundo, a expressão mais sensível do progresso e da cultura!

Se os artistas nacionais se reconhecessem assim aparados, animar-se-iam, certamente, a esforços mais amplos e completos, e dar-nos-iam tudo quanto logicamente podemos deles esperar!

Foram estas as reflexões que nos despertaram as visitas feitas ao salon, depois de termos percorrido aquelas salas, onde tão claramente se oferecia a arte já definitiva - se assim podemos dizer - de uns; o esforço leal e brilhante de outros e as eloquentes promessas dos novos.

*

Além dos trabalhos a que já atrás nos referimos, muitos outros merecem a atenção demorada do visitante, e entre eles citaremos, pela ordem do catálogo: Liz (50), de Bracet, um nu harmonioso e de excelente tonalidade ambiente; Lagoa Rodrigo de Freitas (58), de Pedro Bruno; Praia de Gragoatá (69), de Christofle [sic]; Romano (81), de Coelho Magalhães, boa impressão, de estudo e o Retrato, (78), fosco, mas de desenho equilibrado; dois retratos, (96 e 97), de Raul Deveza, ambos executados com visível honestidade e a singeleza de quem pretende ir pelo melhor caminho, principalmente o 96, que contém contrastes compreendidos com discrição, porque é serenamente interpretado; Agonia da Tarde (123), de Fanzeres, um pequeno pastel de mancha, bem vista; Plazuela del Socorro (135), e Porto de Santo André, (136), de Gottuzo, sombras largas e transparentes, verdadeiro ar e verdadeira luz; Primeira separação (170), de Maria Pardos, ambiente traduzido com inteira segurança de valores; No atelier (172), de Timotheo da Costa [João Timotheo da Costa]; Porque me abandona? (230), de Rocco, a que já nos referimos, sem a indicação do número, nem do autor; Guida (224), escultura de Francisco Andrade; Bustos (228 A a 228 D), de Correia de Lima, todos magistrais (é o caso de dizer), e dos quais o mais gracioso é o Retrato de senhora e o de mais caráter o de Raul Pederneiras, mais desembaraçadamente executado; Rêveur (230), de Debrie; inquestionavelmente uma das joias da seção de escultura; On ne passe pas! (232), de Kanto, talvez mais teatral e menos sentido do que se podia desejar; Colix (240), de Hildegardo Velloso, um cão de Hulm de movimento arrojado, mas obtido, e que revela no autor raras e preciosíssimas qualidades de observação, que o céu conserve; Senhora A. L. A., de Margarida Lopes de Almeida, busto modelado com agradável singeleza e uma sobriedade voluntária, pouco comum nos que começam, e Barão Homem de Mello, estudo em gesso, de Pinto do Couto, obra de artista seguro dos seus meios de execução, e que os utiliza com todo o valor.

*

- Mas, afinal, em que consiste a sinceridade, em arte?

Não será apenas nisto: em fazer conscienciosamente o que se pôde, com segurança, sem pretendermos dar aos outros a falsa impressão de que se é capaz de mais?... - J. M.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição Natalia Mano Goulart Saraiva

J. M. ARTES E ARTISTAS - BELAS ARTES. O Paiz, Rio de Janeiro, 20 ago. 1918, p.5.

Ferramentas pessoais
sites relacionados