. J. C. ARTES E ARTISTAS - BELAS ARTES. O Paiz, Rio de Janeiro, 26 ago. 1921, p.5. - Egba

J. C. ARTES E ARTISTAS - BELAS ARTES. O Paiz, Rio de Janeiro, 26 ago. 1921, p.5.

De Egba

A EXPOSIÇÃO GERAL.

A primeira deliberação do júri da XXXVIII [sic] exposição geral de belas artes foi sábia.

Acaba ele de resolver não conferir a nenhum expositor a medalha de honra.

Dois grandes artistas estavam apontados para receber essa ilustre recompensa. Mas, como não seria justo preferir um ao outro, a medalha de honra não foi colocada.

Essa primeira resolução mostra uma boa disposição de ânimo, quando é hábito acusar-se os nossos artistas de más intenções uns com os outros. Ainda assim, a comissão recusou muitos trabalhos destinados ao salão.

Isto poderia trazer a ideia de que o salão deste ano estivesse constituído de bons trabalhos selecionados. Mas o que realmente merece algumas palavras é muito pouco.

Não se pode dizer que a nossa exposição geral, em 1921, seja uma organização que eleve a nossa cultura artística. Ao contrário, apesar da permanência de algumas afirmações anteriores, o conceito geral só pode ser precário, diante da pobreza mental, da falta de senso artístico, da indigência dos processos que em maioria se observam em uma exposição que apresentamos aos estrangeiros como estratificações de tudo que possuímos, que ganhamos, que refinamos durante um século, em matéria de artes plásticas.

Não há dúvida na existência de verdadeiros talentos. Mas as nossas telas são, em maioria, destituídas de origem séria. Verdadeiros pintores, como o Sr. Baptista da Costa, a se preocupar com cenas de teatro ligeiro, em peças inconsequentes; como Augusto Bracet, a fazer símbolos filosóficos de uma rara infelicidade. O pendor do nosso espírito fantasista como que nos vai apagando o senso clássico da arte pura e simples, para seguir escolas que jamais serão escolas, tendências mórbidas, que são, lá mesmo, nos grandes centros de arte, o doloroso sintoma de desagregação e de esgotamento, que nem ao menos marcam a ansiedade precursora dos renascimentos.

Não se pode, é verdade, condenar uma obra de arte exclusivamente pelo assunto que ela encerra. Mas é que a falta de sinceridade exclui o elo divino, que liga, pela inspiração, a obra artística à natureza.

E, em nosso salão, um único artista é sincero na externação da sua maravilhosa fantasia. É Helios Seelinger. Vê-se que ele sente e sabe exprimir o palor dos recantos de sonho ou o fulgor das forças desencadeadas de um mundo irreal, porém materializado nas possibilidades das coisas visíveis.

Possivelmente nos falta um ambiente superior, artístico, onde os nossos pintores pudessem apoiar o seu espírito, educar sua visão, constatar o aperfeiçoamento de sua técnica. Mas isto não justifica que tentemos escaladas à puerilidade, e melhor seria organizar um salão de exposição nacional com meia dúzia de telas, que encher o sombrio corredor do grande instituto com coisas de puro esforço físico, que estão longe de despertar a menor ideia, que não seja a desolação.

Não procurem os nossos artistas efeitos falsos. Pintem o que possam sentir. Nada há mais rico que a própria verdade. Nada mais insubsistente que a ficção. Entre as obras-primas de pintura, que os museus tão avaramente guardam, não se encontram arremedos e intermitências de lantejoulas, mas a expressão de uma alta sensibilidade na apreensão da natureza, em qualquer das suas mil facetas.

Mas não chegamos até aqui por achar imprestável tudo quanto se contém no salão oficial deste ano. Teremos mesmo um grande prazer em assinalar obras dignas de uma referência mais analítica do que as destas linhas apenas de impressão.

Auto-retrato, do professor Amoedo, por exemplo, é um desses trabalhos que fazem acreditar no ressurgimento de energias que se julgaria extintas.

Não nos leve a mal o ilustre mestre. Mas de muitos anos datam os seus trabalhos isentos de restrições irreverentes. Há muito que se acreditava Rodolpho Amoedo estacionário, se não decadente.

O seu auto-retrato, porém, dá-nos, felizmente, a prova de que lhe permanecem todas as suas grandes faculdades, conseguindo executar pelo difícil processo da aquarela um dos mais perfeitos trabalhos desse gênero.

Entretanto, a nossa falta de ambiente é realmente notável. Não nos conta que as faculdade de um verdadeira artista, em qualquer latitude do globo, possam escapar à regra natural do desenvolvimento pela constante relação das coisas da vida.

Só entre nós, ao que parece, tais faculdades esmorecem com o correr do tempo. Por quê? Possivelmente pela miséria artística do meio.

Não pode haver outra explicação para a evidente inferioridade das telas expostas este ano pelo Sr. Baptista da Costa, em que o Dia luminoso, de contornos ásperos e planos duros como de cartão recortado, nada tem das belas paisagens do seu antigo pincel, paisagens de doce expressão, cheias de ar finíssimo a envolver a estrutura oscilante das árvores e a refletir-se no espelho móvel das águas.

Pode-se, porém, francamente gostar de Madame Arai, de Gaspar Magalhães, uma dessas telas que inspiram confiança, onde tudo é harmonia e sinceridade, honestidade de processos. Deve-se elogiar Mocidade, de Angelo Cantú, uma riqueza de expressão, de colorido, demonstração de uma arte forte e bem sentida. Impossível deixar de parar com agrado diante dos retratos de Mlle. Jacy e de Angelo Lazary, feitos por esse modesto e magnífico artista, que é Raul Deveza. Quem não gostará de Acácias, tão cheia de luz e de frescura, da Sra. Gerogina de Albuquerque [sic] ? Sol da tarde, de Edgard Parreiras, é uma tela digna de ser admirada, como são magníficos os quatro trabalhos desse consciencioso artista que é Arthur Timotheo, principalmente o conglomerado de alguns colegas, cada um deles tratado com os recursos de que dispõe Timotheo, que lhes deu um caráter próprio e inconfundível. João Timotheo tem uma Cabeça excelente, e fez um assunto histórico muito bem tratado, Fernão de Magalhães. Levino Fanzeres, já consagrado, expôs três ou quatro estudos de uma grande tela comemorativa para o Espírito Santo, seu Estado natal, e Quietude, impressionante paisagem, em que tudo está revelado preciosamente, como só os grandes artistas o podem fazer.

Dois dos mais ilustres pintores brasileiros compareceram com trabalhos seus - Eliseu Visconti, pensionista da Escola de Belas Artes em 1892, e Antonio Parreiras. Mandou este o seu Caçador de esmeraldas, de que já nos ocupamos, e aquele alguns trabalhos antigos e modernos, todos primorosos e alguns já bem aceitos no salão de Paris.

A exposição não revela grandes progressos para o Brasil, infelizmente; mas, como acima dissemos rapidamente, vê-se que alguma coisa nos resta.

J. C.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

J. C. ARTES E ARTISTAS - BELAS ARTES. O Paiz, Rio de Janeiro, 26 ago. 1921, p.5.

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