. J. BELAS-ARTES. O salão dos artistas brasileiros - A PINTURA. O Jornal, Rio de Janeiro, 25 ago. 1925, p. 7. - Egba

J. BELAS-ARTES. O salão dos artistas brasileiros - A PINTURA. O Jornal, Rio de Janeiro, 25 ago. 1925, p. 7.

De Egba

Prosseguindo no registro de impressões sobre o salão deste ano, trataremos ainda da seção de pintura, a que maior campo oferece à observação do visitante por ser a que maior número de trabalhos reúne.

Em primeiro lugar citaremos o nome que culmina a pintura feminina no Brasil: a Sra. Georgina de Albuquerque. Pertence-lhe, sem dúvida, a mais bela nota de cor do atual certame. É a tela “O segredo da flor”, trabalho feito com largueza e cheio de uma encantadora frescura. Soberbo momento de feliz inspiração, esse em que a artista conseguiu tirar da sua palheta aquela verdadeira torrente de harmonias. Não há hesitações. As pinceladas correram sobre a tela com a segura precisão dos efeitos desejados, formando aqueles tons quentes, voluptuosas e macios. A maneira é simples, sem rebuscados, mas lá ficou tudo quanto de expressivo e delicado a pintora quis dar àquela figura de mulher que tem dentro da alma todo o misterioso segredo de uma flor.

Além desse trabalho a Sra. Georgina de Albuquerque enviou mais três, todos com qualidade muito apreciáveis. Não nos agradou, entretanto, a perspectiva aérea do fundo dado ao cenário das duas criaturas que palestram “No terraço”. Casas, baía e montanhas, deviam ter ido mais para longe, de modo a estabelecerem, pela distância, uma proporção mais equilibrada com o tamanho das figuras, que ocupam o primeiro plano.

Leopoldo Gotuzzo parece que tem a volúpia de vencer dificuldades nos seus estudos de nu. A consciência com que ele observa a construção anatômica dos modelos, dão-lhe individualidade inconfundível. No “Turbante azul” e em “As pérolas”, temos a admirar, além da carnação sadia e moça, da graça e do vivo frescor que envolve a cabeça desta última, toda aquela riqueza de panejamentos e acessórios que tanto concorrem para bem predispor o meio ambiente.

Um interior meticuloso, o “Tricot”, do Sr. Guttman Bicho. Aquela figura, assim de perfil, tem delicadeza e poesia.

O artista que abre o catálogo da presente exposição é de nacionalidade alemã e enviou 19 trabalhos!! Mais um pouco e poderia o Sr. A. Gartmann ter feito uma exposição individual. Trata-se de um artista que enfrenta todos os assuntos com desembaraço. Possui o Sr. A. Gartmann, o que falta a muita gente boa: seguros conhecimentos do desenho. Sobremodo interessantes seus retratos a sanguínea e a carvão, principalmente o de Frei Pedro Sinzig. No retrato a óleo deste sacerdote não foi o artista tão feliz quanto naquele, pois deu-lhe um caráter avelhantado e ríspido, ao passo que na sanguínea a bondade está aliada não à rispidez mas à energia. Há certa falta de vibração no colorido da paisagem colhida no Leblon, mas o seu interior da Igreja de S. Francisco (Bahia) com aqueles pretos a orar, constitui uma nota de fino lavor artístico.

O Prof. Lucilio de Albuquerque apresenta, ao lado de outros trabalhos, “O arrastão”, um aspecto da vida dos nossos pescadores. É um trecho da bela praia de Icaraí, banhado por intensa luz. Os homens do mar, sobre a brancura do areal, pés fincados na areia, retesados os músculos, estão entregues à faina de arrastar para terra a grande rede que lhes deve trazer, com o bom pescado, a recompensa ao árduo labor diário.

Sugestivo e espiritual o grande quadro com que Augusto Bracet desenvolve o tema do seu “Fim do calvário”. A humanidade vai galgando, na dolorida procissão do sofrimento, a encosta escarpada da vida. Carrega cada um a sua cruz a caminho do seu calvário. O sagrado madeiro está ali como símbolo de sofrimento e de dor. O assunto capital do tema ocupa a parte dominante do quadro. É uma figura de mulher - um nu em tamanho natural - que lá atingiu o fim do seu calvário. Deixou a cruz e vai ascender ao céu, ajudada por outras figuras em que o artista simbolizou a fraternidade humana.

O pintor Augusto Bracet também expõe o retrato do Dr. Ramos Montero, ministro do Uruguai.

O gênero retrato foi o que mais afluiu ao salão deste ano: lá estão reunidos mais de setenta! Só o Sr. Gartmann mandou 15 e o Sr. Portinari 5, sendo que destes alguns já expostos cá fora! Citemos alguns trabalhos desta especialidade.

Comecemos pelo do Sr. Manoel Constantino que resolve com garbo dificuldades de cor e de atitudes, não temendo mesmo o acabamento das extremidades. Seus retratos (208, 209 e 210 do catálogo) tem vida, graça e expressão. O jovem artista foge das atitudes clássicas e estudadas, cria conflitos com as cores vivas formando contrastes arrojados, mas, ao fim de tudo, consegue apresentá-las em agradável harmonia.

O auto-retrato da Sra. Edith de Aguiar não pode estar de acordo com o modelo; não acreditamos que seja assim o seu braço esquerdo. Mas o outro (97 do catálogo) tem qualidades muito apreciáveis e que seriam maiores se os enfeites do vestido fossem apresentados com mais leveza.

Um bom retrato do Dr. Dunshee de Abranches, o que expõe o Sr. Meinhard Jacoby. Pena é que o interior, um gabinete de trabalho, não esteja mais arejado. O quadro “As irmãs” é interessante como grupo pela atitude graciosa das duas criaturas retratadas mas o colorido é anêmico e frio.

O Sr. Oswaldo Teixeira, que desfruta na Europa o seu merecido prêmio de viagem, está mal representado com aqueles dois retratos (261 e 262). Em tais condições parece-me que melhor fora não ter aparecido o seu nome no salão deste ano. Tendo passado, há pouco, por Lisboa, o jovem artista deve ter visto ali, se lhe aprouve, os quase divinos retratos de Columbano e, se os viu, sem pretensão estulta ou vaidade tola, compreendeu, por certo, quando lhe falta caminhar ainda para chegar vitoriosamente ao reino dos grandes eleitos.

O retrato em corpo inteiro (tela 331) enviada pelo Sr. Theodoro Braga, tem relevo e o tom ouro-velho do vestido foi alcançado com justeza.

Dos cinco trabalhos expostos por Yvonne Visconti, o único que nos interessou foi “Leitura”. O desenho do mesmo é ótimo; na encarnação do dorso parece sentir-se o sangue à flor da epiderme e a cabeça foi tocada com graça e largueza. É uma pequena nota em que há arte e espírito.

Arrebatado pelas asas da fantasia, o Sr. Manoel Santiago andou vagando pelo país das quimeras e do sonho. Foi de lá que ele nos trouxe, para este mundo de coisas reais e utilitárias, o “Noturno de Chopin” e a “Flor do Igarapé”. São dois nus trabalhados dentro de um puro idealismo. Olha-se com viva simpatia para esses dois quadros, mesmo abstraindo do convencionalismo que os envolve, tal a harmonia de suas linhas e tão grande a suavidade que deles transborda.

Se bem que mais terrena nas suas concepções artísticas, menos convencional na maneira de sentir a natureza, a Sra. Haydée Lopes Santiago, também se deixa empolgar um pouco pela fantasia ao criar os tipos de suas composições, nas quais há sempre movimento e a alegria bizarra do colorido.

Rosa soltas ao lado do violino e da palheta. Com esses elementos fez o sr. Bernardino Pereira um quadro de natureza morta. As rosas tem viço e frescor; as tonalidades estão bem equilibradas. Dos trabalhos que ele expõe é esse o mais feliz.

Uma paisagem sentida, posta em boa perspectiva e bastante arejada, a “Tarde de inverno em Teresópolis”, da sra. Angelina de Figueiredo. O ambiente é de frio seco e tem como que uma vaga brancura de neve.

Está envolvido em tranquila doçura religiosa, o interior de tempo enviado pelo sr. E. Latour; bem lançado o painel decorativo do sr. André Vento; boa figura de ar livre e amplo aspecto de praia, a tela do sr. Domingos Dias da Silva (90 do catálogo); injustificáveis certos descuidos de desenho em trabalhos do sr. Henrique Cavalleiro; interessante o aspecto de praia “Cajueiros”, do sr. Cadmo Fausto de Souza; amaneiradas as cinco produções do sr. Hernani de Irajá; cheios de qualidades muito apreciáveis os nove trabalhos enviados por Mario Tulio; desenhada com vigor, finalmente tocada e altamente exprissiva [sic] no sentimento que a envolve, a cabeça de “Velho mosqueteiro”, pelo sr. Gaspar Magalhães (Paris - 1918); executado com muita leveza e agradável de tons, o estudo para painel decorativo, do sr. Marques Junior; pouco ventilada e sem fundo, a paisagem do sr. Manoel Faria, mas o seu “Flamboyant” (132), tem melhores qualidade de cor e de perspectiva.

Encerramos aqui as nossas impressões sobre a seção de pintura. É possível que muita coisa haja escapado à nossa observação. Deixamos de fazer referências aos trabalhos já expostos cá fora pela razão natural de nos termos oportunamente manifestado a respeito dos mesmos.

Lamentamos, de passagem, a presença, no salão, de umas tantas extravagâncias, convindo não esquecer nunca que aquilo não é um certame de alunos, mas - o salão dos artistas brasileiros.

A seguir registramos impressões sobre seção de escultura. - J.


Imagem

"O arrastão" - quadro do professor Lucilio de Albuquerque


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Arthur Valle

Editando J. BELAS-ARTES. O salão dos artistas brasileiros - A PINTURA. O Jornal, Rio de Janeiro, 25 ago. 1925, p. 7.

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