. J. BELAS-ARTES. O salão dos artistas brasileiros - A PINTURA. O Jornal, Rio de Janeiro, 19 ago. 1925, p. 7. - Egba

J. BELAS-ARTES. O salão dos artistas brasileiros - A PINTURA. O Jornal, Rio de Janeiro, 19 ago. 1925, p. 7.

De Egba

Intensifica-se a vida artística nacional. As exposições individuais sucedem-se e aí temos agora o salão dos artistas brasileiros despertando o mais vivo interesse, sempre animado pela presença de visitantes.

Felizmente, já vão longe os dias em que aquelas galerias permaneciam desertas e as almas dos artistas eram invadidas pelo desânimo. Conforta assinalar que as nossas exposições gerais vão melhorando de ano para ano, sendo de lamentar que delas se afastem, preconcebidamente, artistas de incontestável valor, cuja presença ali, com seus trabalhos, devia constituir uma obrigação moral, além de ser um exemplo altamente salutar.

O momento reclama o congraçamento de todas as energias em prol de um ideal comum, trabalhando cada qual para que novas fases de marasmo não venham estiolar a mais bela manifestação da cultura de um pouco.

A evolução que temos tido nesse terreno e a reforma do ensino parecem oferecer oportunidade para o estabelecimento de medidas mais severas quanto ao preparo intelectual a exigir dos que se destinam à carreira das artes plásticas. A organização do próprio salão também está a reclamar uma remodelação nas suas bases e a adoção de umas tantas providências entre as quais se poderá incluir a de não entrarem no mesmo trabalhos já expostos aqui, prática que se vem tornando abuso nestes últimos anos.

Feitas estas breves considerações à guisa de preâmbulo para o registro de impressões sobre os trabalhos enviados ao salão deste ano, começaremos por assinalar as cinco paisagens do professor Baptista da Costa, o sempre admirável intérprete da natureza brasileira, destacando entre elas por mais nos falarem à alma, “Dia nublado” e “Ao amanhecer”, dois magníficos flagrantes colhidos da terra paulista.

Edgard Parreiras confirma o merecido conceito em que é tido, com a sua “Manhã de Agosto”, uma paisagem quente, cheia de luz, apresentando interessantes efeitos de sol e sombra; os planos amplamente desdobrados, a atmosfera lavada, a brancura do areal e a rara vegetação da restinga, são como que um vivo e sentido testemunho do contato do artista com a natureza.

Das quatro marinhas de Garcia Bento, a mais forte é, por certo, “Dia de chuva”, empolgante aspecto de terra e mar levado para a tela com toda a sua grandiosidade, através o fino temperamento deste jovem pintor patrício. As nuvens pesadas e escuras vistas ao longe são um prenúncio de tempestade certa e a chuva está ali, positivamente assegurada pela umidade que vai envolvendo todo o ambiente. Nada mais simples, é verdade; mas, também, nada mais expressivo.

Armando Vianna entre outros trabalhos, apresenta “Flores ao sol”, uma feliz composição. As flores são três viçosas criaturas, gozando as delícias do pitoresco recanto plantado à beira-mar. Esse quadro oferece um conjunto de qualidades bastante apreciáveis. A paisagem é cheia de frescura e as distâncias bem proporcionadas, inclusive os longes. O céu tem a limpidez dos nossos belos dias de verão. As figuras que animam o primeiro plano gozam tranquilas o ar puro que ali se respira. Estão tratadas com graça e largueza. Elegante a silhueta da que se acha de pé. A luz é intensa e dá vida ao ambiente. Agradáveis e harmoniosas as notas de cor, justos os efeitos de luz que se coa através a sombrinha vermelha. Enfim, o quadro “Flores ao sol” do jovem pintor Armando Vianna, é um dos trabalhos que dão vida ao salão deste ano no qual os predicados superam com vantagem uma ou outra restrição que tivéssemos a fazer.

Pode ser considerado obra de mestre o retrato do dr. Marianno Junior (318 do catálogo) envio da sra. Sarah Villela Figueiredo. O fundo é neutro e o retrato em corpo quase inteiro tem grande relevo, sendo de salientar ainda a maneira feliz com que foram tratadas as mãos, o chapéu e bengala. Também merece ser citado o auto retrato a pastel (325 do catálogo).

Um artista que este ano não nos parece representado na altura do seu renome, é o senhor Eliseu Visconti. Reproduziu ele em pequena tela um aspecto curioso do bairro de Copacabana - “Vila Rica” - nome pejorativamente dado a aprazível e pitoresco recanto, onde a pobreza, para se abrigar tem construído miseráveis barracões. O verde dessa paisagem está, a nosso ver, muito diluído; é um verde fraco, lavado e cru; não evoca o forte vigor da nossa pujante natureza. Está claro que o trabalho do consagrado mestre tem qualidades decorativas das mais preciosas e finas, dificuldades vencidas com galhardia e inquestionável pureza de desenho.

Não víamos, de há muito, um trabalho de Navarro da Costa, depois da sua recente estadia na Europa. Foi com viva surpresa que nos defrontamos com a nova maneira desse apreciado marinhista. Habituados que estávamos à sua técnica primitiva, não podemos, desde logo, atribuir-lhe a autoria de “Veneza no outono”. Folheamos o catálogo: tela 241. Confessamos que ao contemplar esse quadro o nosso espírito evocou as produções de Bompard, maravilhoso pintor da cidade dos Doges.

Poder-se-á alegar que a maneira é bem outra e que não se haja ali alcançado, com aquela mesma admirável perfeição, a leveza rarefeita do ambiente, aqueles céus translúcidos, as sombras a se projetarem indefinidamente pelas massas líquidas dos canais, aquele sentimento de antiguidade que tudo envolve e define. Mas não será só essa evocação legítimo título de glória para o artista patrício? Estamos pela afirmativa. As tintas acumuladas gozam agora da sua predileção, maneja a espátula com rara facilidade, abusa mesmo algo do processo da acumulação, mas não há negar que os efeitos são conseguidos com a necessária precisão. As tonalidades são fortes e vigorosas, lançadas com aquela máscula virilidade que foi sempre uma das mais valiosas características desse pintor. Com quadro “Veneza no outono” o sr. Navarro da Costa abre uma nova clareira à sua arte e a confirma com os mesmos requisitos em “Canal flamengo” convindo acentuar nos dois trabalhos a observância de uma ótima e segura perspectiva.

Dos quinze (!) trabalhos enviados por Levino Fanzeres, apenas dois deviam ter sido aceitos. Os demais são pequenas manchas, cujo valor não vem a propósito apreciar. Ficariam bem numa exposição individual ou no atelier. Estão, porém, deslocados num salão anual. Dos dois quadros a que aludimos, o “Recanto de Vila-Velha” tem muito convencionalismo, mas o outro - “Vale da Alegria” - é uma paisagem cheia de qualidades, muito sincero e bem sentida.

Que excelente pintor de figuras ao ar livre se tem afirmado sr. Pedro Bruno! Com quem encanto reproduz aspectos da vida das praias! Desta feita escolheu ele interessantes motivos para os quadros com que se fez representar. Olhemos para “Hora feliz”. É a hora do banho para os pequenos. O menor agita-se nos braços maternos, desejo de voltar à tina d'água, onde está o irmão. O cenário é um trecho de praia. Do mar sopra a brisa enfunando a roupa nos varais. Há muita verdade nesse quadro. É tenra a encarnação dos pequenos, alegres carinhas redondas, rosadas e saudáveis. Sente-se, na expressão materna, a satisfação, o sorriso franco da alegria de uma existência a decorrer em lar sereno e feliz. Em “Raios de sol” e “Radiosa”, tem Pedro Bruno obras de igual valor artístico. Na tela - “Filhos do mar” - há vida e movimento, embora encontrássemos restrições para algumas figuras dessa composição.

São mais frequentes no salão deste ano os trabalhos a pastel, principalmente retratos. Citemos os que foram enviados pela sra. Gilda Moreira e Helena Frontin Hess.

Também se acha bem representada na presente exposição geral a sra. Solange Frontin Hess, com dois bons retratos, sendo que o “Leque de plumas” é um perfil bem interessante.

Ficam por aqui as primeiras impressões do salão. Prosseguiremos no registro das mesmas. - J.


Imagem

"Dia nublado" - paisagem paulista do professor Baptista da Costa


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Arthur Valle

J. BELAS-ARTES. O salão dos artistas brasileiros - A PINTURA. O Jornal, Rio de Janeiro, 19 ago. 1925, p. 7.

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