. J. B. O FIM DO SALON. A Noticia, Rio de Janeiro, 30-31 out. 1894, p. 1. - Egba

J. B. O FIM DO SALON. A Noticia, Rio de Janeiro, 30-31 out. 1894, p. 1.

De Egba

A exposição de belas artes acabará, ao que parece, por uma tombola em que se há de fazer a liquidação dos trabalhos que não encontraram compradores.

Não sei por que, mas, em assuntos de arte, repugna-me sobremaneira ver ir de roldão o respeito, que pelo trabalho artístico se tem, e o valor que um trecho, ínfimo embora, representa sempre, como produto de um escorço de momento, seja qual for o seu resultado final. A obra de arte deve anular-se quando a sua significação não sirva para definir nem uma individualidade, nem uma organização, nem um processo.

Que desta conclusão, porém, se não infira que preciso seja lançar em pregão de venda aquilo que, por valer pouco, ou por não encontrar quem saiba ou queira dar-lhe preço, restou como se fora stock em um armazém de gêneros. Não; a obra de arte ou vale ou deve ser recolhida, como reprimenda ao autor, à sua coleção particular, aquilo que, na vida literária, se chama obra de gaveta.

E nestes casos uma obra que tem que ser corrigida, que é indispensável que o seja, e que, portanto, o autor conserva pelo interesse pessoal de não descer.

Mas querer terminar o Salon da escola de Belas Artes pela venda a quem dá mais do que lá fica, será, porventura, um meio extremamente prático de contentar Deus e toda a gente, mas é também, e com certeza, o estabelecimento de uma igualdade, que é falsa, e a supressão de um estímulo - o da venda - que se faz mister em todas as vidas e muito particularmente na dos artistas.

Isso, bem evidente é, nem aproveita à arte, nem trás lucros ao corpo dos artistas brasileiros. Não aproveita à arte, porque ilude o gosto pouco educado do público, e nada avança para os artistas porque os coloca a todos num pé de igualdade que mais os humilha do que auxilia.

E no fundo é imoral. Parece até que os artistas, que com tão boa vontade acorreram ao apelo da escola, se sentem vexados, com este princípio, se ele se tornar um fato. E tem razão.

A escola entra a estabelecer precedentes pouco recomendáveis. Se a tombola é do regulamento, é um erro da lei e mais valerá não lhe dar execução.

De passagem nos ocorre um outro ato da escola de Belas Artes, que é também estranhável. É o último concurso ao prêmio de viagem, aberto com a exclusão dos alunos da antiga academia, e estatuindo, como predicado essencial, a frequência da atual escola.

Equivale a concorrência da agora a um diploma de incompetência, dado, sem julgamento de fato, a artistas que podem vir a ser glorias, mas que não tem como único o ensino acadêmico.

Estes fatos são incontestáveis defeitos de doutrina e prejudicialíssimos precedentes. Mas o que é de uma gravidade moral, que fere a lesa a arte, é a tombola. Não só porque é jogo, assim pensamos, mas também porque desvaloriza, quase anula os artistas incipientes.

A tombola que se quer fazer é a declaração, por parte do próprio o júri, de que na exposição há trabalhos que lá não deveriam figurar, pela pequenez do seu mérito.

E, além disso, inclui uma como que comiseração e compaixão pelos expositores menos felizes, que mal se concebe que parta daqueles mesmos que lhes franquearam a porta do Salon.

J. B.


Digitalização de Fundação Biblioteca Nacional Acessível em: http://memoria.bn.br/

Transcrição de Karina Perrú Santos Ferreira Simões

J. B. O FIM DO SALON. A Noticia, Rio de Janeiro, 30-31 out. 1894, p. 1.

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