. J. B. EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. A Noticia, Rio de Janeiro, 7-8 out. 1894, p. 2. - Egba

J. B. EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. A Noticia, Rio de Janeiro, 7-8 out. 1894, p. 2.

De Egba

Visconti - Entre os artistas que figuraram na atual exposição, um dos mais interessantes é o Sr. Visconti.

É tão rara nesta exposição a nota de chic que constitui a grande qualidade de Marold, Myrbach, José Roy, Chéret e todos esses inimitáveis ilustradores franceses, que o Sr. Visconti, sendo o único representante desta feição no Salon da Escola de Belas Artes, toma um lugar destacado e saliente e se apresenta como um artista à parte, tendo de ser analisado sob um ponto de vista inteiramente diverso dos demais expositores.

Antes, porém, de me ocupar desta sua feição, devo referir-me a outros quadros que expôs e em que se revelam qualidades apreciáveis, embora menos salientes e caracterizadamente pessoais. Expôs várias paisagens, entre as quais merecem especial observação as de ns. 186, 187 e 192.

No n.186, Lavadeiras, a paisagem é vigorosa de colorido, e nota-se muita justeza de valores. A dispersão da luz sobre a roupa estendida a corar é bem notada e faz destacar do fundo verde as figuras, dando-lhes um realce cheio de verdade, que não prejudica o conjunto e torna mais viva a tela.

No n. 187, Bananeiras, as figuras são mal desenhadas, acanhadas, constrangidas a estarem ali. Aqui, já os valores não são guardados como na tela anterior e a roupa pendurada; se tem falta de transparência, tem igualmente uma desarmonia de tons que se batem, que se repulsam e agridem numa flagrante insociabilidade.

A paisagem do n. 192 é boa. Os tons são suaveis [sic], guardam harmonia, e uma figura de negra, contra uma casita e uma barraca tosca de madeira, sobressai sem esforço e sem prejudicar o desenho da casa e da barraca, cujas tintas, embora escuras, não morrem pela vizinhança da figura.

Nestas três telas o que eu noto como dominante é uma grande beleza de colorido, uma cuidada execução das folhas e mesmo das árvores, uma esplêndida escolha do verde, que é caso raro na exposição, o verde daqui, o verde verdadeiro, considerada a luz como exata.

Mas, por certo que não é a paisagem o gênero a que se dedica amorosamente o Sr. Visconti. Não.

Espírito inteligente, organização de artista, sabendo tirar todo o partido da palheta, vendo justo, toda a sua arte tem que pairar no estreito âmbito das observações do chic, mais ou menos notáveis, conforme a perfeição fatural, mas convencional na sua essência íntima.

Será um grande ilustrador, […]tor bom, como é o ilustrador […] mas, não tendo profundeza de […]ção, não possuindo facilidade […]teses, e sem ser dotado do […] fantasia e da potente [...]rold, permanecerá fazendo bonitas telas sem sonho e sem vida observada.

Tomará os modelos para poser em convencionais cenas de gabinete de toilette e de vida elegante, saberá usar as tintas e poderá ser um extraordinário diletante da palheta; mas em tanto quedará, se, pelo estudo e pela educação da imaginativa até agora prejudicada pela visão exclusivamente exterior, não procurar despertar faculdades dormentes e criar motivos de evocação e fontes de emoção.

No verão, por exemplo, é uma tela que confirma o que acima vai exposto: não havendo uma observação profunda do assunto a tratar, a preocupação da cor quase baça e a procura de efeitos tirados do ondeado das roupas da cama, falha completamente e vai até ao ponto de revelar um descuido grande no tocante a anatomia, de que só aponto a coxa, cujo desenho mal parece de Sr. Visconti.

Na Leitura (184) patenteia-se o artista de chic. Uma grande segurança de pincelada, simples e fácil e o proposital desleixo na conclusão firmam e indicam a maneira pessoal do artista. Aqui, o colorido, que é raro, esquisito, de uma originalidade deliciosa, tem efeitos de verdade. O desenho é bom, a posição - de mão no queixo e os olhos atentos - é bem notada. A cabeça está bem tratada, e o manto tem sobre a testa uma justa tonalidade que faz destacar o rosto. A fatura tem largueza.

A Leitura é em resumo uma bonita tela, mas sem sugestão, defeito que ainda se nota na Distração (185). Neste quadro o desenho é esplêndido, a fatura é deliciosa, e o colorido é muito superior ao da Leitura. Há expressão na fisionomia dessa mulher formosa e doce. E dos pormenores tratados com um fino gosto emerge uma tal impressão de conforto e de moleza, que, para mim, esta é a melhor tela do Sr. Visconti.

As roupas são tratadas com arte, com conhecimento dos recursos do ofício, e a luz é boa, bem dispersa, igual e sem violências nos reflexos.

Dito isto, que ninguém conclua que a minha opinião tem a mínima agressão feita ao Sr. Visconti. Aponto defeitos que são reais: a falta de educação artística, o desábito dos trabalhos intensos de análise interna, a observação exclusivamente exterior e a inércia imaginativa. Mas a par disto há o reconhecimento de grandes qualidades de colorido e de desenho, e a homenagem prestada a um dos melhores talentos deste artista, o talento de ilustrador. Ao passo que estas qualidades são fixas, os defeitos são transitórios, podem corrigir-se. A questão é de vontade e de muito trabalho.

J. B.


Digitalização de Fundação Biblioteca Nacional Acessível em: http://memoria.bn.br/

Transcrição de Karina Perrú Santos Ferreira Simões

J. B. EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. A Noticia, Rio de Janeiro, 7-8 out. 1894, p. 2.

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