. J. B. EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. A Noticia, Rio de Janeiro, 6-7 out. 1894, p. 2. - Egba

J. B. EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. A Noticia, Rio de Janeiro, 6-7 out. 1894, p. 2.

De Egba

Lopes Rodrigues. - A escola de Paris foi a influência decisiva sobre o talento de Lopes Rodrigues. Espírito lúcido, de uma clarividência rara, seguiu a corrente de hoje: tomou o desenho como base imprescindível à sua arte. Desenha muito, e desenha já hoje bem. O que é a sua pintura, dizem-no os quadros que tem na exposição.

Paisagista, tem doçura de tintas, precisão de desenho, sentimento, vigor de colorido e esse quê de inexplicável que é o ar na tela, que é a luz incoercível materializando-se, essa harmonia do quadro com a natureza vista, que só os temperamentos predestinados apreendem. Nas duas paisagens que expoôs, observam-se as qualidades que aponto: tem elas os ns. 113 e 117. São duas telas pequenas, feitas com uma grande segurança de processo, vivas, claras, alegres como a natureza, sentidas como a verdade.

Na Cabeça de Velho (n. 114) e Cabeça de Velha (n. 115) define-se a fatura de Lopes Rodrigues: larga, a pinceladas firmes, com franqueza de manchas, marcando forte os cambiantes. Como estudo, a cabeça de velho é mais exato e mais expressiva.

As outras telas de Lopes Rodrigues reúnem as condições apontadas acima e têm, por isso que as telas são maiores, mais largueza de processo, mais audácia, mais coragem de contrastes e revelam nos pormenores o conhecimento da técnica, cabal, perfeita, de pintor que entrou na posse de toda a sua pujança artística.

A tela n. 116, Orquestra volante, é uma prova do que afirmei; nela se encontram as manchas francas, as largas pinceladas, o colorido e estudo de pormenores, que são as qualidades dominantes neste artista. E em todas as suas telas o mesmo vigor e firmeza igual, desde Interior de atelier, que é rebuscado, e com excesso de pormenores, até Sans Souci, fina obra de um artista seguro do seu métier, senhor do pincel que maneja e das tintas que lhe mancham a paleta.

Claro é que tem aqui e ali defeitos; no Retrato, do n. 120, por exemplo, há uma notável falta de naturalidade; aquilo é contrafeito e violento.

Mas há desenho, saber pintar e sobre Oscar Pereira da Silva tem a vantagem de uma forte educação subsidiaria, constituída de estudos conexos com a pintura e de estudos gerais sobre outras artes, uma sólida orientação estética e um conhecimento da decoração raro.

Oscar P. da Silva é mais ilustrador, pensa mais na correção e no acabamento. Lopes Rodrigues, não; cada pincelada que dá ao pintar tapeçarias ou roupas é uma marcha certa, exata, é aquilo, mas não se deteve a arrastar a tinta para dar o liso, nem teve dúvidas sobre a execução de pormenores. Já está firme, conhece a luz, vê bem a cor, surpreende as tonalidades, dominou enfim, o métier. É um vigoroso, um desses artistas robustos de compleição e talento.

Aurelio de Figueiredo. - Nas três telas deste pintor noto uma tal disparidade de processos e de execução que me é difícil, sem o catálogo e sem a assinatura, atribuí-las ao mesmo artista.

Assim no n. 16, Pátio etc. (o nome é enorme), há um colorido justo, há desenho de detalhes bem feito, e no fundo do pátio há luz e ar, o solo é bem tratado e o todo respira naturalidade e observação, ao passo que o retrato exposto com o n. 18 é sem expressão, sem vigor de tintas, não tem nada de notável no desenho das roupas, é acanhado e estreito de fatura, de um convencionalismo banal e frio.

Já no copo de água varia de todo de processo, o desenho é bom, o vestido é transparente e justo, a cor é bem valorizada e o fundo, escolhido com bom gosto, faz destacar a figura, cuja correção, longe de ser amaneirada, é exata na própria seriedade da criança, para quem levar um copo de água é uma coisa séria.

Esta hesitação suponho que é devida antes ao fato de uma incompleta educação artística do que a defeito essencial do artista.

No que ele tem de bom, manifesta-se, sem dúvida, uma vocação, e entrevê-se um temperamento de artista. Completar, sob uma orientação uniforme e lógica, a técnica adquirida é o que falta e deve ser todo o cuidado do Sr. Aurélio de Figueiredo.

Castagnetto - Com o Sr. Castagnetto não sucede o mesmo que com o Sr. Aurélio de Figueiredo. Os seus quadros são de uma grande igualdade de processos e até de assunto. É um pintor de marinhas e só expõe marinhas.

Um tom claro, de ar transparente e de luz refrangida na superfície das águas, sai de suas telas, em que falta a nitidez do traço, mas sobre a vida do conjunto, e sobrenada uma luz harmoniosa e agradável.

Entre as telas que expôs, para nós a melhor é Efeito da Neblina, em que o tom velado da atmosfera e do mar é exato, e em que há sentimento da beleza das marinhas, que nem sempre existe nas outras suas telas.

O Sr. Castagnetto tem sem dúvida uma maneira pessoal e um colorido original. Precisa alargar o campo da sua pintura, fazer menos mar, fazer mais rochedos, o que quer que seja que tire às usas telas o ar que tem e de que resulta guardar-se de todas a mesma reminiscência.

J. B.


Digitalização de Fundação Biblioteca Nacional Acessível em: http://memoria.bn.br/

Transcrição de Karina Perrú Santos Ferreira Simões

J. B. EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. A Noticia, Rio de Janeiro, 6-7 out. 1894, p. 2.

Ferramentas pessoais
sites relacionados