. J. B. EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. A Noticia, Rio de Janeiro, 5-6 out. 1894, p. 2. - Egba

J. B. EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. A Noticia, Rio de Janeiro, 5-6 out. 1894, p. 2.

De Egba

Oscar Pereira da Silva. - Entre as escolas modernas de pintura, uma existe que tem por ideal a pintura de Velasquez, o grande e incomparável artista de As meninas e desses retratos sem igual, como os de Felipe II, o do próprio pintor, e tantas outras telas em que o desenho e as cores produziram efeitos até hoje insuperados, até hoje inigualados. Essa escola em França tem nas suas fileiras Carolus Duran, Fernand Cormon e Aimé Morot, e em Espanha contou Casado e Casto Plasencia e hoje conta Gonzalo Bilbao, Arcos e Munoz y Cuesta.

É uma corrente de regresso a um estado transposto pela evolução artística, dir-se-á. Não. É apenas a grande afirmação de que na pintura, como de resto em todas as artes, só fica o que é humano, só perdura aquilo que saiu de um temperamento como a interpretação da natureza. Velasquez é eterno, porque mais do que ninguém soube em suas telas dar o conjunto harmonioso da natureza, notar em cada cambiante uma tonalidade da natureza e em cada traço deixou a verdade de um desenho, estranhamente fino e amplo, ao mesmo tempo, em que a mínima coisa lhe merecia o mesmo amoroso enlevo que as figuras principais e tudo é tratado com igual cuidado.

Esta escola, por isso que é a escola da natureza, tinha que vencer e venceu. Em toda a linha domina em França esta corrente que arrasta todos os novos e leva de vencida todos os consagrados.

Oscar Pereira da Silva é dos que, sob a influência do meio artístico parisiense, adapta essa nova fé e busca, muito embora sempre dentro do seu temperamento, essa perfeição de desenho que os velasquistas ergueram como bandeira de guerra.

Este jovem pintor é uma das mais completas organizações artísticas que tenho conhecido. Ama apaixonadamente a sua arte, adora a beleza até o culto religioso pelas grandes obras de arte e é tímido, de uma timidez de quem, durante a realização de uma obra, vai reconhecendo as imperfeições, sentindo a própria impotência de fazer o que se pode fazer, e sofre essa tortura que é resultado de talento e consciência.

Cada nova tela de Oscar P. da Silva é um progresso que se nota, marcado distintamente, uma conquista de novos meios e processos, definitiva e segura conquista selada pelo estudo e pela pertinácia.

Quem entra nesta exposição, seja qual for seu ponto de vista crítico, tenha esta ou aquela predileção, não pode deixar de se demorar na observação das telas deste moço desconhecido e admirar o que quer que seja de atraente e agradável que elas respiram. De todas sai uma nota de cuidado e de esforço para adquirir firmeza de desenho, todas tem o mesmo sentimento da natureza dominando o espírito observador e inteligente do autor.

Essa própria predileção pelos motivos de sofrimento, o mendigo, a escrava, e o ferro-velho, é uma prova de que, na pesquisa dos assuntos, a sua dolorosa análise da vida o lança para o lado interessante das lutas do pensamento que abrangem os problemas da miséria e as grandes questões sociais do momento.

É um espírito grave, com laivos de filósofo sobredourando uma organização intensa de artista.

Les mediants dand la cour, em que há incorreções de desenho, é no entanto um quadro de valor pela justa descrição de pormenores, pelo colorido firme e igual e pelo bom gosto, que, sendo uma das suas qualidades primaciais, sobe de ponto no Raccomodeur de faience e na Escrava, dois trabalhos que denotam, a par de uma observação aguda, muita verdade de desenho, riqueza de cores e uma decidida maneira pessoal de fazer, equilibrada e segura.

O Monge é uma tela boa: há desenho, há harmonia de valores, há expressão, há grandeza de traço e reconhece-se aqui uma firmeza de pincelada, que se mantém no Tronco de mulher, estudo que é um primor, uma revelação de conhecimento da anatomia, que para ser humana não precisa de ser marcada a vergões, mas pode bem ser de um cuidado desenho sem divisórias profundas, desde que tenha os relevos dados pela cor e não pelo amontoado da tinta.

A Leitora e a Cabeça de mulher são provas do que digo: a anatomia é bem estudada, e a fatura é correta, simples e natural.

Oscar Pereira da Silva é um dos novos pintores brasileiros que tem verdadeira vocação artística e segura intuição da beleza. Não será fácil encontrar em suas telas os erros de gosto, a impropriedade de decoração que muitos apresentam.

Essa amargurada luta pela perfeição fatural e profissional, esse ardente desejo do que ele próprio chama saber pintar, dão-lhe uma frieza de análise do próprio mérito de suas obras, tão notável e de tão alto grau que nunca as deixa de achar incorretas e de as considerar meros produtos da ignorância de mêtier e de muita vontade. Mas espera conseguir na próxima obra apagar alguns dos defeitos da de hoje. E é neste insistente esforço, que, dia a dia, vai fazendo progressos, marcando a sua individualidade, definindo a sua maneira e estabelecendo a sua visão interior.

J. B.


Digitalização de Fundação Biblioteca Nacional Acessível em: http://memoria.bn.br/

Transcrição de Karina Perrú Santos Ferreira Simões

J. B. EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. A Noticia, Rio de Janeiro, 5-6 out. 1894, p. 2.

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