. J. B. EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. A Noticia, Rio de Janeiro, 3-4 out. 1894, p. 1-2. - Egba

J. B. EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. A Noticia, Rio de Janeiro, 3-4 out. 1894, p. 1-2.

De Egba

Belmiro de Almeida. - Se é certo, como afirma Bourget, que ao estudo do mundo exterior e físico deve correr paralelo e concatenado o inquérito da vida interior e moral, para que a obra de arte seja humana e duradoura, - o Sr. Belmiro de Almeida nesta exposição só tem duas telas sobre as quais a crítica se possa devorar e nas quais se reúnam os requisitos de um trabalho sério e ordenado, tendendo a uma aspiração artística e conotando um estado na evolução do seu temperamento de pintor. Essas telas são: Tagarela (n. 34) e Nuvens (n. 37).

Quer nesta, quer naquela, o artista sentiu o assunto, foi levado, por esse estado de identificação do próprio espírito com a obra, a dominar a psicologia dos sujets e a lançar nas telas a harmonia entre a vida interior e a vida exterior - vida interior que é o estado da alma desses sujets, e a vida exterior que tem de se traduzir nas maneiras, na expressão fisionômica e na natureza envolvente.

Visionando desta forma, os dois quadros, a que nos vimos referindo, são bons.

Tagarela é a surpresa viva do natural: uma criada, de olhos curiosos, expressão entre risonha e sarcástica, uma dessas criaditas que a todo o instante param, interrompem a faina quotidiana para dois dedos de cavaco, uma palestrazinha, e que forçam cavacos e palestras a essa invariável análise da vida dos patrões e aos potins da vizinhança que tão alto lugar ocupam na história de todas as criadas.

Sentada, como que reconhecendo o direito a descansar de um trabalho que não teve, tagarela. E, ao lado, desprezado instrumento do trabalho, a a [sic] vassoura que deverá servir à limpeza já retardada.

E é tal o sentimento da verdade e da observação feita do assunto, que a fatura da decoração e da figura, a fixação de pormenores (afora o detestável mosaico do solo, descuidado e por acabar cheio de manchas de tinta e de reflexos oleosos), a combinação dos valores, a escolha das tonalidades, - tudo é de uma justeza que não raro falece em outras telas do mesmo autor.

Nuvens é a outra boa tela: numa bucólica paisagem, doce e velada ligeiramente, desenrola-se a eterna cena dos arrufos, nuvens passageiras que mal toldam o aberto céu dos amores juvenis. O colorido é raro, talvez que poucos os vejam, e até alguém me observou: - daquilo nunca vi… Mas ai de nós! Como se há de exigir a um pintor que veja o que outrem vê, se a sua organização é outra, se os seus sentimentos são diferentes, se os olhos são dele e não de outrem?... A visualidade é um fenômeno subjetivo, e a visualidade pictural cromática é tão subjetiva que Herbert Spencer chegou a exclamar algures:

“Quem sabe a cor, que me ensinaram a chamar azul, - sendo a mesma modalidade fenomenal que todos chamam o azul - quem sabe se essa cor não produz na minha retina a mesma impressão que sobre a retina de um outro produz o amarelo? Mas aquela impressão para mim é o azul, ao passo que o azul deste meu semelhante, como impressão, pode ser a mesma que em minha retina seja motivada pelo amarelo!”

O fenômeno em si, na sua natureza íntima, é subjetivo, variável portanto de indivíduo para indivíduo. Na sua exteriorização, porém, identifica-se por uma simples convenção.

É isto o que é preciso observar no caso do quadro Nuvens. Há harmonia? Há desenho? Sem dúvida. Pois bem. As cores são as que ele viu ou sonhou e desde que do conjunto dos tons, da vizinhança das cores não resulte a falsidade, que fere e que não ilude, não há que discutir.

Mas, passando destas telas às outras, não podemos manter o juízo feito até aqui. No n. 38, Vaso com flores, ainda há gosto, ainda há qualidades de cor e de conjunto decorativo, ainda há estudo de pormenores. Na Vendedora de fósforos começa a falta de seleção de tipo característico, e aquilo, que é um assunto puramente italiano, não é um tipo de italiana bonita, mas a sua face, que quer ser rosada, é antes escoriada, de equimoses. E, embora haja algum desenho, há com certeza uma notável falta de intuição artística. Não sendo um assunto a que um tipo disforme fosse indispensável, é claro que o artista devia escolher uma bela vendedora de fósforos, aliás vulgar. Era apenas uma questão de modelo, que segurasse a caixa que parece estar para cair, e que tivesse olhos, porque os olhos dessa vendedora irreal não são nem sequer olhos de vidro.

Mas o desenho, que por vezes é bom nas telas do Sr. Belmiro, desce a um ponto, que mal me explico, no quadro exposto com o n. 39, Depois da patroa, eu!, em que se vê uma cadeira, reminiscência pura dos desenhos com que nas escolas primárias as crianças soem deslumbrar as famílias, de resto naturalmente propensas a esses deslumbramentos.

O n. 41, Efeito do sol, é inextricável, sem beleza, sem vida e sem luz.

O n. 42, Cabeça de Contadina, bem desenhado no rosto, é uma coisa estranha, no colo sem as curvas definidas, sem a ondulada a natural descida do colo, incorretíssimo, incompreensível.

O envio do Sr. Belmiro é excessivamente grande. Com quatro telas, Tagarela, Nuvens, Vaso com flores e Vendedora de fósforos, teria sido um dos melhores expositores, teria provado que desenha com firmeza, que conhece os efeitos da luz, que tem no seu espírito a noção clara da harmonia das tintas e que, se por enquanto não atingiu à perfeição a que pode chegar, se esforça por marcar seriamente, com a consciência do mérito do que produz, as fases por que o seu talento e o seu temperamento tem fatalmente de passar. É pena a quantidade haja sacrificado a qualidade.

J. B.


Digitalização de Fundação Biblioteca Nacional Acessível em: http://memoria.bn.br/

Transcrição de Karina Perrú Santos Ferreira Simões

J. B. EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. A Noticia, Rio de Janeiro, 3-4 out. 1894, p. 1-2.

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