. J. B. EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. A Noticia, Rio de Janeiro, 2-3 out. 1894, p. 1. - Egba

J. B. EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. A Noticia, Rio de Janeiro, 2-3 out. 1894, p. 1.

De Egba

Ontem demos a impressão do conjunto, que a exposição nos deixou.

Começaremos hoje a considerar isoladamente, os expositores, apreciando-os sob um ponto de vista inteiramente pessoal.

Rodolpho Bernardelli. - O distinto escultor expos apenas um trabalho em bronze. É um retrato. Bem feito, largueza de fatura, vigor de traços e, sobretudo, vida natural. Pena é que este artista estivesse arredado dos seus labores habituais e não pudesse concorrer com mais trabalhos para o primeiro Salon a que a sua iniciativa tão ligada está.

Rodolpho Amoedo. - Um quadro a óleo, Cabeça de oriental, e um retrato a pastel.

A Cabeça de oriental é uma delicada obra em que há fatura e há alma. Desde a languidez até a beleza morna da oriental, tudo se exprime nesta tela. O colorido é justo, os valores são bons e a doçura das linhas só tem igual na macieza da pele aveludada da oriental. Do pastel do Sr. Amoedo não diremos outro tanto: frio, sem expressão e sem audácia, no próprio acabamento rebuxado [sic] de chinesice tem a sua condenação. Não é trabalho que possa ir fazer número ao lado dos que deram nome ao Sr. Amoedo. É incaracterístico como obra de arte e pobre como decoração.

Henrique Bernardelli - Enviou cinco trabalhos. Duas telas boas: Faceira, uma figura de senhora, tamanho natural, em que há riqueza de colorido, precisão de desenho, estudo de pormenores e essa ampla pincelada que só vem quando a obra sai de uma alma de artista; e a Volta do trabalho, uma grande paisagem, cheia de luz e de ar, de uma perspectiva deliciosa, de uma poesia simples e tranquila.

A tela n. 49, História eterna, tem falta de desenho. A figura de homem é mal traçada, mesquinha, e a mulher acanhada na sua espécie de ciúme ou amuo, que falta ainda reconhecer.

O quadro Em tempos coloniais tem uma figura bem traçada, mas a paisagem é pobre de cor e a tinta mais parece posta a esmo do que lançada com a compreensão da harmonia dos valores.

E para finalizar, por hoje, referir-nos-emos a uma aquarela do Sr. Henrique Bernardelli. À Saúde da bela que, em uma ampla fatura, a pinceladas largas, é uma verdadeira obra de arte, quer pela técnica de que todos os efeitos foram tirados, quer pela beleza do conjunto decorativo de um bom gosto, talvez sem igual na exposição atual.

Brocos - 13 quadros deste pintor estão expostos.

Muitas paisagens de Minas, algumas com qualidades de luz e colorido vivo, talvez cru demais. Uma excessiva atenção no desenho das pedras e do solo chega a dar a algumas telas o ar de reprodução de coisas que não existem. Chega-se a ter vontade de dizer: que rocha tão bem tratada! Mas em outras - não se entenda nos Garimpeiros e no Aqueduto da Carioca - há coisas bem vistas e bem realizadas como o Crepúsculo (n.55) em que o solo deve ser aquilo e a luz é justa. O Crepúsculo é uma boa paisagem.

O retrato do Sr. Ubaldino do Amaral não nos agrada; as roupas foram tratadas mal e a pele parece morta, tão arrastada foi a tinta. Perto deste retrato vê-se outro da mesma pessoa, feito pelo Sr. Weigartner, e pelo confronto se concluirá que temos razão. Este último vive mais, é menos género d’après photographie.

Além deste retrato e das paisagens, tem o Sr. Brocos duas telas - n. 54, Mulatinha, e n. 56, No pátio - que são incomparavelmente superiores aos demais quadros que ele enviou. No pátio, em especial, é bom, francamente bom. Há cor, há luz, há vida, há desenho, finalmente essa pequenina obra é o trabalho de um artista. Ali há artista; ali há arte. E, verdade, ao vê-lo, causou-nos uma agradável surpresa, achamos-lhe uma outra maneira, em execução muito diversa da dos quadros do mesmo autor que antes analisáramos. Por certo que o assunto mais se adequava ao ânimo do pintor; sem dúvida que o Sr. Brocos sentiu poucas das suas paisagens.

J. B.


Digitalização de Fundação Biblioteca Nacional Acessível em: http://memoria.bn.br/

Transcrição de Karina Perrú Santos Ferreira Simões

J. B. EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. A Noticia, Rio de Janeiro, 2-3 out. 1894, p. 1.

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