. J. B. EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. A Noticia, Rio de Janeiro, 18-19 out. 1894, p. 2. - Egba

J. B. EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. A Noticia, Rio de Janeiro, 18-19 out. 1894, p. 2.

De Egba

Santa Olalla. – Entre as telas deste pintor, uma, O Pescador, é boa. A figura tem naturalidade, e o desenho é correto. Além disso, o colorido todo é de uma grande exatidão, as manchas são francas e a água tem muita transparência. Na Cascata, a água ainda é boa, o colorido é vivo, há savoir faire, mas o conjunto não respira a mesma poesia, agrada menos do que a primeira. A Aboboreira já tem menos qualidade; nota-se nesta tela um grande desleixo, e dir-se-ia ter sido feita por brincadeira.

Os Cajús, n. 150, são detestáveis, não quanto ao colorido que é justo, mas na proporção que falta absolutamente. Se ficaram menores do que a mesa foi por acaso.

A paisagem da Barra da Tijuca é agradável, doce de tintas e harmonioso de luz.

Nos seus desenhos é pena, o Sr. Santa Olalla revela que estudou; vê-se que teve mestres, que lhe disseram, a tempo, qual a importância dos croquis. Os seus estudos a lápis e à pena são corretos, especialmente a cabeça de velho andaluz (n. 152), e uma cabeça de um colono (n. 154).

Uma paisagem, em aquarela, exposta sob o n. 157, tem boas manchas e denota conhecimento do processo.

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Freidler. [sic] - A exposição deste artista é quase que exclusivamente de aquarelas que não são más, mas a que falta vigor de manchas e facilidade.

Os seus trabalhos a óleo, dois quadros, não tem qualidade alguma digna de menção. No n. 163 ainda há uma tal ou qual justeza de cores; mas no n. 172, em que quer fazer um estudo de natureza e de costumes do Minho, erra completamente, falha os tipos e os vestuários, e falseia a natureza. É mau, simplesmente.

D. Maria Agnelle Forneiro. – Esta senhora é discípula do Sr. Fachinetti, com quem colabora em diferentes quadros.

Reconhece-se logo, depois de examinar os quadros do mestre e da discípula, que esta possui faculdades de assimilação. Assimilou a maneira, o colorido e o gosto do Sr. Fachinetti. Se tivesse tido um bom professor, é de supor que tivessem mais merecimento os seus trabalhos. É do mestre que lhe vieram todas as qualidades que imprimiu às suas telas.

Para mim. O Sr. Fachinetti é um pintor detestável. Nem a pintura do bonitinho me agrada, nem posso considerar arte preconcebidos efeitos dados às telas com o mero fim de agradar, sem uma parcela sequer da satisfação íntima que todo o artista sente ao produzir uma obra boa.

Não discuto as suas obras, que por vezes se me afiguraram oleografias. Mas não posso deixar de apontar a sua nefasta influência sobre esta senhora. Deu-lhe todos os defeitos, sem lhe dar a única qualidade que tem, que é a nitidez das tintas.

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Souza Pinto. - 5 telas boas. Sabe pintar; já teve uma medalha no Salon, é hors-concours. Somos amigos, e tudo quanto eu dissesse de bem pareceria parcial. Calo-me, pois, dizendo todavia que é bom o que expôs.

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Valle Souza Pinto - Não é como o irmão, nem tudo é bom. Uma Natureza Morta, que expôs, não é má; o Vapor Sepetiba é detestável, não é pintura.

Quanto aos seus desenhos a lápis e à pena, vê-se que tem larga prática do gênero, embora não revele bom gosto e nem sempre execute bem.

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Aqui e ali, rebuscando, pudera ajuntar notas e corrigir as que vão publicadas. Não vale, porém, a pena. Nem o público se interessa por essas coisas, nem os artistas me julgariam, por isso, mais sincero.

Agora, que detalhadamente vi a exposição, uma observação me salta do conjunto das telas que foram expostas: entre os artistas novos há verdadeiros artistas e entre os já consagrados alguns há que não merecem a consagração, mas que, sobretudo, não devem ser tomados para mestres.

Isto não significa má vontade. Isto quer traduzir somente o que o grande número sente, mas cala; o que a própria escola sabe, mas parece ignorar. Uma reforma completa de ensino deveria ser feita. Ei-la ali, iniciada por esta exposição.

Que se abandone o gênero rococó da escola italiana e se busque na arte nova, na arte que acompanha as letras e as ciências em sua evolução atual, o ensinamento que a arte de homem não pode trazer.

Rompa-se, porém, com essa mania de pensionistas na Itália; mandem-nos para a França ou para a Espanha e verão como todos esses temperamentos que afloram neste momento adquiriram pujança de concepção e de execução.

J. B.


Digitalização de Fundação Biblioteca Nacional Acessível em: http://memoria.bn.br/

Transcrição de Karina Perrú Santos Ferreira Simões

J. B. EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. A Noticia, Rio de Janeiro, 18-19 out. 1894, p. 2.

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