. J. B. EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. A Noticia, Rio de Janeiro, 14-15 out. 1894, p. 1-2. - Egba

J. B. EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. A Noticia, Rio de Janeiro, 14-15 out. 1894, p. 1-2.

De Egba

Weigartner - Um dos expositores que mais quadros enviaram foi o Sr. Weigartner.

Nas 13 telas deste artista há por vezes qualidade de cor e de luz, mas uma predileção por estudos locais tomou-lhe por tal forma o pincel que mais seria para analisar o ponto de vista dos costumes do que propriamente a pintura.

E, francamente, a pintura não é boa. Tem o não sei que de impressionante, que atrai, mas, observado detidamente, o desenho é cheio de incorreções e tem o ar de feito de fotografia a apagar os efeitos bons que o colorido não raro dá às suas telas.

Onde há figura, o desenho do Sr. Weigartner é incorreto invariavelmente. Fez antes bonecos do que homens. Não lhes deu vida nem expressão, nem teve a ciência do conjunto. Quase sempre que faz um grupo de cavaleiros (193, 200, 201, 202), nota-se a falta de desenho; os cavalos são sem proporções; os cavalos que fez nem são do Rio Grande nem de parte alguma, e os cavaleiros que os montam tem que dar graças a Deus de estarem em tintas, porque se fossem verdadeiros os cavalos estariam há muito tempo por terra.

Na paisagem revela o Sr. Weigartner a sua vocação artística; tem harmonia de tintas, tem facilidade de fixar valores, e a luz, essa grande dificuldade, dominou-a este artista notavelmente. Na tela 193, a paisagem é boa e o todo respira a vida simples desses casinholos, a poesia da vida ingênua que muito raramente se fixa na tela.

Nas outras telas em que há paisagem mais ou menos estas qualidades persistem, embora conjuntamente com os defeitos de figura.

Às vezes o colorido é violento, como na tela 201 em que os valores não são guardados com justeza.

A tela 205, Projeto de viagem, é um trabalho chic, feito de cor sem vida. A concepção é nula, e a decoração, que é a preocupação do quadro é insignificante.

Além destas telas há o retrato do Sr. Ubaldino do Amaral, mal feito sem dúvida, em que a epiderme parece escoriada, mas com mais expressão que o retrato que o Sr. Brocos fez do presidente do senado.

Madruga filho. - Nas cinco telas deste artista há boas qualidades a notar.

No n. 128, Uma tarde em Riachuelo, o reflexo do poente é exato, o céu é de uma tinta doce, as nuvens são bem tratadas e uma grande transparência de ar dá ao quadro um efeito de verdade que falta na Paineira em flor, n.131, em que o fundo azul, seja nuvem, seja fantasia, é um erro, e uma prova de mau gosto.

No n. 130, A bela vivenda, que por sinal é de horrível aparência, uma coisa me impressiona e é a atenuação do azul, feita de forma a demarcar claramente o mar e o céu, resultando uma boa nota de verdade e ao mesmo tempo de franqueza.

A Ponta do Bispo e a Choupana do Pescador tem outras qualidades. O mar é bem feito, o céu é transparente, as nuvens tem uma grande suavidade de cores e a praia clara e de um doce reflexo faz destacar a paisagem da terra numa harmonia tranquila de cor e de luz.

Não há nem largueza de fatura nem arrojo nestas telas: mas há uma poesia delicada por vezes e uma amorosa execução que oculta esforço e vontade de progredir.

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Fabbi. – Este pintor expões a Algeriana. Uma tela complicada esta, em que o lado decorativo toma proporções exorbitantes e em que a execução das roupas, aliás boa, se ofusca e anula ao embate de cores violentas e ao gritante de cores cruas.

A figura não é mal feita. Peca por essa preocupação do bonito, em tanta escala fornecido pela arte italiana. Os pormenores tem uma tal saliência que fazem do quadro uma grande confusão de coisas, todas de igual importância.

Os pincéis na mão do Sr. Fabbi devem ser objetos familiares; mas isso não basta para que se seja um bom artista.

É preciso mais, é preciso ter sonho, ter alma, saber, por exemplo, da execução justa das roupagens que fez neste quadro tirar o efeito que a acumulação de pormenores aqui atenuou excessivamente. Não há que ver, a escola italiana atual é uma declarada decadência. Falta-lhe a fantasia que dá a audácia, falta-lhe a observação que dá a vida, falta-lhe o bom gosto que dá a beleza decorativa. É espetaculosa e fútil.

J. B.


Digitalização de Fundação Biblioteca Nacional Acessível em: http://memoria.bn.br/

Transcrição de Karina Perrú Santos Ferreira Simões

J. B. EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. A Noticia, Rio de Janeiro, 14-15 out. 1894, p. 1-2.

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