. J. B. EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. A Noticia, Rio de Janeiro, 13-14 out. 1894, p. 1. - Egba

J. B. EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. A Noticia, Rio de Janeiro, 13-14 out. 1894, p. 1.

De Egba

D. Diana Cid. - A poesia chegou aos decadistas, a pintura chegou ao simbolismo místico. Movimentos que se acompanham e que se desenrolam dentro de um plano único, a poesia e a pintura derivaram a esta arte de mistério e de dúvida em que a banalidade tanta vez sobrepuja o talento.

Era natural que a tortura da forma e a perversão moral apoteotisada por vanglória vesânica, mantendo na mocidade uma tensão sensacional transbordante, superior ao nervosismo dela; era natural que esses fatores de desequilíbrio alicerçassem apenas uma obra literária postiça e fictícia, em que a neurose, a histeria e a loucura - casos patológicos definidos - tomaram foros de normalidade e surgiram como uma qualidade inerente às organizações poéticas.

Neste campo, colocados fora do que a própria intelectualidade apreende, aberraram todos esses poetas simbólicos e, querendo seguir a corrente mórbida de Baudelaire e a escola idealista, aristocrática e dolorosa de Villiers de L’Ysle Adam, singelamente se ativeram ao uso do vocábulo raro, ao abuso das onomatopeias e, lentamente, insensivelmente, ei-los em uma marasmática confusão, sem saberem que rota seguir, entregues à própria impotência e à celebridade, quase extinta já, de um momento em que pelo novo tiveram as palmas da opinião.

Na pintura, porém, este movimento, que só podia vingar no seu lado idealista e simbólico, era uma inutilidade, como escola, por isso que já existia de longo tempo como simples gênero. Pois não havia a alegoria? Puvis de Chavannes não fez a Apoteose de Victor Hugo, que é simbólica como todas as alegorias? Aman Jean não fez as Estações? E todas essas alegorias que são senão pinturas simbólicas? Vede a tela de Almeida Junior, A Pintura. Que é ela senão uma tela simbólica?

O simbolismo pictural era, pois, uma superfluidade, uma inutilidade.

Eis porque, diante dos trabalhos da Exma. Sra. D. Diana Cid, um grande receio me acomete: - o de criticar, como escola, a essa altura, o que, como gênero, é detestável. E este receio casa-se com outro - o de ter de discutir a obra de uma senhora e não simplesmente a de um artista. Se o faço, porém, é porque a Sra. Diana Cid é o representante único da escola novíssima, e, como tal, rompendo com os moldes clássicos, marca uma tentativa revolucionária, que tendo de cair, merece todavia ser discutida.

O simbolismo na arte de pintar e um processo ineficaz quando feito a todo o transe, sistemática e propositalmente. É símbolo a obra que exprime, no consenso de seus observadores, um fato ou um estado de alma. O símbolo pictural da debacle de 1870, por exemplo, é aquela tela, que todos vimos em oleografias, em que um soldado francês tenta erguer-se de sob as patas de um cavalo montado por um prussiano. Simboliza um fato.

Mas nos quadros da Sra. D. Diana Cid não há nada de parecido. Fantasia em rosa? Mas quem compreende a intenção da artista? Mistério? Com certeza que nada simboliza. Aquilo é quando muito a viuvez. Flor marinha, por seu lado, é uma coisa incompreensível, com aqueles montes e aquela água, que podem ser o que se quiser. A Meditação é um horror; aquele barco mal desenhado, aquela meditação sobre as águas e o colorido são tão estranhos, tão inatingíveis que, (talvez a culpa seja minha) não os percebo. E O Adeus? E a Flor de Maio? E Agosto, Setembro e Novembro?

Não, decididamente não é nesta pobreza de colorido, neste violento embate de tons, nesta falta de valores, nesta fúria premeditada de usar certas cores impróprias ao assunto; não é neste transvio, nesta aberração que a arte nova há de encontrar o alento que lhe falece o brilho que ainda não teve.

A Sra. D. Diana Cid tem qualidades, no entanto. Já na Fantasia em rosa, se nota uma certa beleza decorativa, sopro vago da influência dos mestres japoneses na pintura de hoje; há tal ou qual colorido, um desenho regular das flores e mesmo das roupas.

Ainda se revelam certas qualidade no Estudo, exposto com o n. 86, em que há vestígios da arte pagã, no tipo a um tempo religioso e lúbrico da figura…

A Leitura em que o desenho é sofrível em um ou outro ponto, resulta um absurdo quando olhado em seu conjunto, com uma espécie de noiva - todas as figuras da Sra. D. Diana Cid parecem noivas - com uma paisagem sem cor e sem gosto em que perambula a desolada leitora.

Donzela (n. 83) em que há manchas boas, alguma expressão, e em que o desenho da roupa é por vezes correto, perde também pelo fundo, onde há camadas de tintas quase puras, definidas com violência, fazendo atenuar os valores, enfraquecendo o essencial da tela para satisfação do capricho impressionista.

O n. 213, A música proibida, é uma tela superior às que tenho apontado. Não predomina aqui o propósito prévio de escola. As figuras tem alguma expressão, o colorido um pouco baço, é possível, e não brigam as cores como habitualmente.

A melhor tela desta artista é a paisagem de n. 212, Caminho quotidiano.

É uma boa tela, que denota qualidades que só a vontade poderia ter obliterado. Grande suavidade de tintas, bom desenho de figuras e luz agradável.

Este era naturalmente o gênero a que se deveria consagrar a Sra. D. Diana Cid. Não entende assim. Lamento-a, porque o simbolismo cai, mas arrasta, inutilizando-os, todos os que procuram, na falsidade desta arte nova, o ruido de um intante [sic].

A pintura é uma. Os artistas podem diferir, mas a arte é a mesmíssima. Quando se pensa o contrário, a pintura é uma fotografia de um mundo de cera.

J. B.


Digitalização de Fundação Biblioteca Nacional Acessível em: http://memoria.bn.br/

Transcrição de Karina Perrú Santos Ferreira Simões

J. B. EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. A Noticia, Rio de Janeiro, 13-14 out. 1894, p. 1.

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