. GUANABARINO, Oscar. ARTES E ARTISTAS. O Paiz, Rio de Janeiro, 4 set. 1898, p.2. - Egba

GUANABARINO, Oscar. ARTES E ARTISTAS. O Paiz, Rio de Janeiro, 4 set. 1898, p.2.

De Egba

Exposição

ESCOLA NACIONAL DE BELAS-ARTES

Seguindo a ordem do catálogo da exposição geral de belas-artes, encontramos, depois do nome do artista Angelo Agostini, o de D. Alina Teixeira, que expõe cinco quadros, com os respectivos preços marcados em lista especial, o que prova estarmos em presença de uma pintora profissional.

Vê-se que a autora dos quadros expostos avalia os seus trabalhos com mais desembaraço do que pinta: 500$ pela Avozinha, 350$ pelo Flamboaiãs em flor e 400$ por qualquer dos intitulados Inverno ou Ponteando meias - o que nos parece excessivo, e isso porque a Avozinha é um quadro feio, inda que desenhado com certo cuidado.

Os velhos e velhas são, não o negamos, bons estudos - mas como assunto só é arte nas mãos hábeis de artistas amestrados, capazes de dar a sua individualidade a uma tela; no Flamboaiãs em flor há falta de perspectiva e uma pilastra fora do prumo; o Ponteando meias, uma velha que examina a linha com que cose - é uma figura parada, e finalmente o que se intitula Lendo, é acanhado. Essa coleção lucraria muito, apresentada como trabalhos de amadora, sem preços no catálogo, pois chamaria sobre si as indulgências da crítica e dos pretendentes.

Encontra-se, depois desse nome, o do pintor paulista Almeida Junior, que expõe seis quadros, entre os quais a Partida da monção (n. 20) com a seguinte legenda no catálogo:

“Os antigos paulistas assim denominaram (partida da monção) a caravana que saía do Porto Feliz, descendo o Tietê, para Cuiabá. As de que se trata eram organizadas simplesmente por destemidos e ousados sertanejos, que, inspirados pelo amor do desconhecido, descoberta de minas e civilização dos bugres, em toscos batelões cobertos de palha e simples canoas, partiam conscientes de que iam arrostar com sacrifícios inauditos toda a sorte de aventuras, constituindo-se por isso uma tradição. O quadro exposto representa a partida desses heróis que, depois da missa na igreja de Nossa Senhora da Mãe dos Homens, acompanhados do padre, capitão-mor e povo, embarcavam-se, no Porto Geral, recebendo a solene benção da partida.”

A grande dimensão do quadro do pintor paulista devia trazer-lhe, como realmente se deu, uma série de dificuldades que nem sempre foram vencidas.

Artista inteligente, conseguiu muitas figuras que se tornam notáveis no seu quadro; o agrupamento é harmonioso, no meio daquela porção de gente, e o efeito da garoa bem apanhado - mas entre muitas belezas nota-se, em primeiro lugar, o tom de esboço na grande tela, além de muitas figuras que não foram estudadas com modelo vivo, servindo para isso o manequim, que dá durezas insuportáveis e às vezes impossíveis!

Veja-se, por exemplo, o negro que no primeiro plano procura carregar uma canastra, que evidentemente está vazia, e indague-se se aquela é a posição que tomaria um homem em tal mister.

Não queremos entrar em pequenas minuciosidades, tais como o enorme chapéu do capitão-mor, capaz de abrigar uma família inteira, ou o padre, em praça pública, sem o solidéu - são coisas que passam, inda que se tornem essenciais em quadro histórico - mas há figuras que se destacam e que não estão convenientemente dispostas.

A proa de uma das canoas, prontas a partir e em plano saliente, há, por exemplo, um sertanejo que procura avançar a sua embarcação espiada sobre uma estaca. Achando-se a canoa em um remanso, bastava pequena tensão da retenida para o deslocamento do corpo flutuante, e no entanto lá se vê um sujeito em posição de quem procura, com o laço, estacar um animal em disparada. A posição é a mesma - escorado.

Quem ignorar o nome do autor desse quadro, dificilmente descobrirá nele o pintor do Negaceando. É que o artista, além de querer contrariar o seu estilo, não tem, em S. Paulo, elementos para dar execução a um quadro daquela ordem.

São boas as suas duas telas Velha beata e Cabeça de estudo; o Futuro artista é bem desenhado e forma um quadrinho simpático, mas nenhuma impressão trouxemos das Lavadeiras. Restam dois quadros: Água represada e S. Jerônimo (esboceto); no primeiro há o defeito de estar deserta a paisagem, quando ali tudo se animaria com uma lavadeira e alguns animais; no segundo, apesar de esboceto, exposto por 400$, erro de título - aquilo não é S. Jerônimo, e muito lucraria o quadro, se no catálogo se lesse - Velho maluco querendo apanhar uma mosca pousada no alfarrábio.

Porque, evidentemente, o suposto S. Jerônimo vai-se levantando cautelosamente de mão pronta, e a gente percebe-lhe a intenção...

Só falta a mosca.

OSCAR GUANABARINO


Transcrição de Fabiana Guerra Granjeia

Atualização da grafia por Andrea Garcia Dias da Cruz

GUANABARINO, Oscar. ARTES E ARTISTAS. O Paiz, Rio de Janeiro, 4 set. 1898, p.2.

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