. GUANABARINO, Oscar. ARTES E ARTISTAS. O Paiz, Rio de Janeiro, 2 set. 1898, p.2. - Egba

GUANABARINO, Oscar. ARTES E ARTISTAS. O Paiz, Rio de Janeiro, 2 set. 1898, p.2.

De Egba

Inaugurou-se ontem a exposição regulamentar da Escola Nacional de Belas-Artes.

É a quinta festa, a quinta exposição geral, que ali se realiza; e quando menos se esperava, em uma época de verdadeiro desânimo, reuniram-se quadros de alto valor e em quantidade bastante para atestar o amor com que um vasto grupo de artistas se dedica ao trabalho nesse terreno de atividade espiritual e estética.

Os pintores brasileiros, que viam com pesar o frio acolhimento dos seus quadros na sociedade fluminense, esquecida do dever de proteger essas artes com o mesmo entusiasmo com que recebe a música, devem estar animados com os resultados da exposição retrospectiva que anteontem se encerrou naquele mesmo local. Aquele agrupamento de objetos raros e custosos veio demonstrar que existe no Rio de Janeiro uma roda perfeitamente educada que procura a sua convivência com os objetos que receberam a vida dos artistas e que traduzem o sentimento de uma alma pura.

Se a arte estrangeira mereceu dessa roda o apoio que se pode avaliar em soma superior ao capital de alguns bancos, claro está que há um mercado franco para os produtos da arte nacional, dependendo isso, apenas, de uma intervenção inteligente que saiba estabelecer relações entre os artistas e os colecionadores.

A imprensa fluminense é talvez culpada nesse atraso da pintura; os jornais fazem enorme propaganda da música, em todos os seus terrenos, havendo mais críticos musicais do que músicos, deixando-se, entretanto, no olvido as outras artes.

As exposições da Escola de Belas-Artes, no seu princípio, eram escoimadas. Lucrava com isso o agrupamento das telas, evitando-se as botas; mas os recusados adquiriam as simpatias de amigos que os tinham desde então como vítimas de preferências odiosas.

Isso não se deu agora, pois a comissão resolveu aceitar tudo quanto fosse enviado à exposição, deixando ao público visitante e à crítica imparcial o cuidado de fazer a seleção.

É nesse terreno que desejamos entrar, com poucas luzes, é certo, mas com toda a sinceridade, acreditando que benefícios serão os resultados, desde que a crítica seja severa e conscienciosa.

Comecemos pelo expositor, cujo nome se encontra em primeiro lugar no catalogo - Angelo Agostini, que apresentou 10 quadros, alguns dos quais muito bem observados, havendo, porém, desigualdade na coleção.

O n. 10, Tropeiros paulistas , por exemplo, é um primor de técnica, inda que a composição não seja das mais graciosas; mas é bastante o fundo da paisagem, um capoeirão brasileiro, com a verdade que pode ser atestada por todos aqueles que sabem observar a nossa natureza, para que o quadro se imponha imediatamente.

Os tropeiros estão bem estudados e os cavalos são feitos por mão de mestre, movimentados, vivos e nessa confusão natural e comum na vida do campo.

Esse quadro tem alto valor, pois lembra o estilo dos bons mestres, se bem que o autor tenha usado de um artifício para realçar o seu trabalho, e vem a ser o pouco detalhe do terreno do primeiro plano, obrigando o observador a se extasiar com a cena viva dos tropeiros esbatida na floresta de além.

Mas ao lado dessa obra-prima de Angelo Agostini apresenta-se o seu quadro n. 7 - O Dr. Rodrigues Barbosa mostrando aos índios do Amazonas o uso dos fósforos , cujo título, como um programa que é, se desvirtua diante do trabalho.

Quem, longe da exposição, ler no catálogo o título desse quadro, julgará que terá de ver um estudo dos nossos silvícolas, quando apenas encontrará uma fantasia - uma bela floresta com umas figurinhas que tanto podem ser Xavantes como Bororós ou Crichanás, entre os quais está uma figura, que será o Dr. Barbosa Rodrigues, porque lá está o fósforo em combustão; mas desde que se percebe o erro do título fica-se em dúvida sobre a autenticidade da floresta do Amazonas e da piroga.

No mesmo caso está a Caçada de antas, na serra de Teresópolis . Angelo Agostini não é caçador e nunca viu uma anta perseguida pela matilha - verdade é que se o ilustre pintor se perdesse na floresta virgem no momento de ser levantada a fera, com certeza fugia e adeus quadro.

A situação desse quadro é falsa - ou pelo menos pura fantasia do autor.

Outro tanto não acontece com o n. 8 - Pequenos engraxates , quadro interessante e verdadeiro como cena diária.

Lembramo-nos ainda de dois magníficos estudos desse mestre - Marieta e Petite parisiènne , merecendo preferência o segundo, bem expressivo e de efeito.

Perdem-se na exposição, não deixando boa nem má impressão, os três quadros A paraguaia, Carro de bois e Leitura; mas em compensação fica perfeitamente gravada na memória do visitante o n. 4 - Cavalaria brasileira perseguindo paraguaios.

Angelo Agostini desenha bem os seus cavalos e dá-lhes muito movimento, conseguindo vencer enormes dificuldades.

Nesse quadro, de valor histórico, há muito estudo e muita arte na composição dessa brilhante gauchada dos lanceiros, havendo muita harmonia em tudo.

Em resumo - Angelo Agostini é um artista que honra a nossa exposição de Belas-Artes.

OSCAR GUANABARINO


Transcrição de Fabiana Guerra Granjeia

Atualização da grafia por Andrea Garcia Dias da Cruz

GUANABARINO, Oscar. ARTES E ARTISTAS. O Paiz, Rio de Janeiro, 2 set. 1898, p.2.

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