. GUANABARINO, Oscar. ARTES E ARTISTAS. O Paiz, Rio de Janeiro, 24 set. 1898, p.2. - Egba

GUANABARINO, Oscar. ARTES E ARTISTAS. O Paiz, Rio de Janeiro, 24 set. 1898, p.2.

De Egba

Exposição

ESCOLA NACIONAL DE BELAS-ARTES

Dentre os sete quadros expostos por Felix Bernardelli, o talentoso moço que atualmente se acha no México, só um, o de n. 67, deixa de agradar imediatamente.

Nesses quadros, assinados Lix Bernardelli, não só se apreciam as qualidades técnicas do pintor, sempre minucioso no desenho, bem detalhado e colorido simpaticamente, como também o assunto, não vulgar e procurado.

Há pintores que, por mero passatempo, fazem uns exercícios reproduzindo telhados velhos, paredes de fundo de quintais, casas partidas ao meio e outras esquisitices, e que expõem essas coisas em que a arte foi excluída por um realismo impossível e mesmo inadmissível. Nem tudo quanto é verdadeiro e existente na natureza merece atenção do artista, que no seu trabalho tem de dar a parte mais nobre da sua alma - o sentimento artístico, a idealização de um fato.

Saber pintar é uma questão técnica; o resto depende da educação do artista, e este o que deve procurar, quando se apresenta em público, é justamente o seu modo de interpretar e de exprimir.

Felix Bernardelli, entretanto, peca às vezes, justamente por não ligar grande importância à técnica, procurando apenas a cena que o impressionou, como bem se depreende ao examinar atentamente o quadro n. 61 - A cancela do sitio, em que há tão pouca tinta que se chega a ver a tela; mas o efeito desejado, esse não lhe escapou.

Ao vermos o n. 62, Águas mortas, anotamos o catálogo com o adjetivo - belo, e cremos que isso acontecerá à maioria dos visitantes daquela exposição.

São muito apreciáveis as suas qualidades de paisagista, como na Rua principal do povoado, com um punga cansado, e no Lago da Chapada.

Trouxemos magnífica impressão do quadro O filho de meu filho, uma cena encantadora, bem disposta e digna de um artista.

Depois de Felix Bernardelli é difícil tratar do Sr. Bolato, com 16 quadros expostos.

Pode-se dar parabéns ao pintor pela quantidade exibida; mas quanto ao valor, é muito pouco, basta dizer que em tão grande coleção só nos satisfez o de n. 68 - A casa do cão. Os outros, ou são sujos com emplastro verde (Morro da Providência), ou feios (Cancela), ou pálidos (Frutas), ou mau assunto (Quintal), ou pouco observados (Rancho), ou de cor falsa (Tronco de jaqueira).

Mas se há ali um quadrinho bom, por que não virão outros?

O remédio será pintar menos, procurando produzir melhor.

Deixamos de citar outros quadros deste pintor, mas assim tem acontecido com outros, e para não irmos muito longe basta lembrar que, tratando da exposição de Henrique Bernardelli, não mencionamos o seu Estudo (n. 49), um cavalo e um asno de escorço.

Dizem que aquilo é uma alusão, mas não atinamos com ela. O quadrinho deixa a impressão de uma anca de cavalo e uma cabeça de asno. No entanto talvez fosse clara se lá estivesse, em vez disso, uma corcova de camelo e uma cabeça de asno.

E basta por hoje, ficando para o próximo artigo o pintor Brocos.

OSCAR GUANABARINO.


Transcrição de Fabiana Guerra Granjeia

Atualização da grafia por Andrea Garcia Dias da Cruz

GUANABARINO, Oscar. ARTES E ARTISTAS. O Paiz, Rio de Janeiro, 24 set. 1898, p.2.

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