. GUANABARINO, Oscar. ARTES E ARTISTAS. O Paiz, Rio de Janeiro, 20 set. 1898, p.2. - Egba

GUANABARINO, Oscar. ARTES E ARTISTAS. O Paiz, Rio de Janeiro, 20 set. 1898, p.2.

De Egba

Exposição

ESCOLA NACIONAL DE BELAS-ARTES

Os trabalhos de Henrique Bernardelli valem, por si só, uma exposição, não tanto pelo valor, como pela quantidade de quadros apresentados, pois ocupam a numeração de 38 a 60, o que prova grande atividade, exercício contínuo e amor à sua profissão artística.

Duas são, portanto, as relatividades que se impõem no estudo da exposição desse talentoso artista - a que se nota em referência à exposição em geral e a que não se evita dentro da sua própria coleção.

Qualquer dos seus trabalhos lhe daria lugar saliente entre os expositores, inda mesmo as pequenas paisagens feitas com rapidez, com aquela febre que se manifesta no artista quando ele quer surpreender um momento da natureza, um efeito passageiro de luz que caprichosamente torna fantástico este ou aquele ponto da paisagem tropical.

Henrique Bernardelli não teve preocupação de produzir quadros para uma exposição pública; deu o que tinha, e isso traz à critica a grande vantagem de conhecer o artista, que sente, em qualquer recanto da natureza, a nota poética da forma agreste e o tom melodioso que se destaca das harmonias do colorido; sente e traduz com a calma do seu temperamento e pinta sempre de acordo com a sua índole artística, sem visar à originalidade que às vezes degenera em maluquices e sem outra filiação de escola que não seja a que lhe é inerente.

A relatividade íntima dos seus quadros é manifesta por isso mesmo, e é assim que, no meio deles, tornam-se indiferentes O Dedo de Deus e o Fundão, que ali figuram modestamente sem que se lhes possa salientar boas nem más qualidades.

Tornam-se interessantes, porém, aqueles que conhecem o artista em questão e apreciam a delicadeza do seu trato, a sua modéstia e ar bondoso, a descoberta de certos movimentos de impaciência de pincel e verdadeiros arrebatamentos seus, prejudicando o quadro da mesma forma pela qual o tempo prejudica, às vezes, a harmonia a que estamos habituados em determinados panoramas. Daí o céu sujo que vemos no Tempo encoberto (60), na Garoa (51) e no Prenúncio de tempestade (54).

Repare-se na coincidência desses defeitos sempre nas perturbações da natureza. Vê-se que há fenômenos que alteram o bom humor do nosso Henrique, revoltoso com os revoltosos e brutal com os selvagens que lhe invadem o teatro de suas contemplações.

O n. 43, Caminho da senzala, é belo como paisagem; mas há um ponto difícil, o negro, dificuldade que foi vencida, mas que deu em resultado ficar o preto como se fosse de pedra; ainda faremos reserva quanto ao Calhambola, belíssimo, mas deixando ver que um outro céu traria mais suavidade ao quadro.

Agrada-nos muito quando esse artista produz no gênero da tela n. 44, Céu em cumulus, quadro excelente, rápido e bem tocado. A mesma impressão deixaram-nos os de ns. 52, Margens do Paraíba; 59, Solidão; 47, Enchente do Paraíba, e 46, Em pleno sol, com um canto por acabar, o que dá pouco vigor aos lírios dos pântanos que ali estão.

É de mestre a aquarela n. 39, Baccho tabaco e Venere, valentemente desenhado com largueza e muita flexibilidade; e o mesmo se dirá da Beata, quadro que achou logo comprador de bom gosto.

Nos retratos, Henrique Bernardelli tem sempre a sua nota artística, quer se trate de um trabalho de tamanho natural, como o do major Suckow, quer no de Mme. M..., de pequenas dimensões.

O autorretrato parece um condenado e dizem que ele assim se pintou para fazer realçar o belo retrato de seu irmão Rodolpho Bernardelli, retrato esse que talvez seja o melhor quadro da exposição.

E efetivamente lá se vê o grande estatuário vivo no seu ateliê e elevado pela idealização de um artista superior que num retrato impõe a figura pela superioridade da arte, deixando o visitante na contemplação de uma obra-prima em que tanto se admira a expressão de um ente vivo como os detalhes de todo o ambiente, a factura larga da roupagem e a quantidade de ar que circunda o vulto distinto do digno diretor da Escola Nacional de Belas-Artes.

OSCAR GUANABARINO.


Transcrição de Fabiana Guerra Granjeia

Atualização da grafia por Andrea Garcia Dias da Cruz

GUANABARINO, Oscar. ARTES E ARTISTAS. O Paiz, Rio de Janeiro, 20 set. 1898, p.2.

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