. GUANABARINO, Oscar. ARTES E ARTISTAS. O Paiz, Rio de Janeiro, 1 set. 1899, p.2. - Egba

GUANABARINO, Oscar. ARTES E ARTISTAS. O Paiz, Rio de Janeiro, 1 set. 1899, p.2.

De Egba

ARTES E ARTISTAS

Exposição de belas-artes

Inaugura-se hoje, ao meio-dia, a exposição geral de belas-artes; na Escola Nacional, solenidade essa que foi, como de costume, precedida da visita prévia para o envernizamento das telas, o que de fato se realizou ontem com bastante concorrência de artistas, amadores e representantes da imprensa fluminense.

A atual exposição, posto que apresente quadros de alto valor artístico, é, na sua feição geral, muito pobre, mormente em si fazendo uma comparação com a grande afluência de trabalhos que acudiram ao último certame ali realizado.

Com a sua recomendável assiduidade, figuram, como sempre, os finos trabalhos do professor Girardet, cujas medalhas e gravuras em pedras finas são exemplares modelos no seu gênero.

A falta do catálogo, que só hoje será distribuído, nos impede de entrar em minuciosidade sobre os objetos expostos; mas da visita que fizemos ontem, trouxemos a mais agradável impressão deixada pelos quadros do pintor paulista Almeida Junior cujo talento, sempre em exercício, tem aperfeiçoado o artista de um modo digno de louvor.

A tela n. 10, uma velha pobre, nos degraus de uma escada de pedra, com a mão estendida à caridade pública, é a sua obra-prima nesse torneio artístico.

A cabeça da velha é um estudo admirável e todo o quadro apresenta uma nota harmônica, suave e serena.

Na mesma parede está colocado um outro quadro desse mesmo autor, sob o n. 12, em que há uma mulher que contempla, com os olhos rasos de lágrimas, a fotografia de um ente querido.

O efeito de luz nesse quadro é belíssimo.

Ainda de Almeida Júnior é o n. 13, um caipira sentado ao peitoril tange a viola, acompanhando uma mulher da roça que canta. O quadro é bom, é nacional, genuinamente brasileiro em todos os seus detalhes, mas a maior das dificuldades não foi vencida - a mulher cantando.

Lá está ela de boca aberta em atitude lânguida de quem se enternece com a melodia das nossas modinhas - mas não canta, não se sentem as contrações dos músculos que entram no fenômeno da emissão de sons vocais.

No fundo da sala, ocupando quase toda a parede, está o quadro - Tentação de Santo Antônio, de R. Frederico, que se acha em Roma.

Muitas belezas encontram-se nessa tela bem combinada e com os grupos em magnífica disposição; mas o Santo Antônio não responde a tradição e mais se parece com um pandego, disfarçado em frade, do que com o lendário sacro do cristianismo.

Citaremos ainda o quadro de J. Baptista n. 35, um açude em meio de floresta. Poucas vezes temos visto água assim, dando perfeita idéia do líquido estagnado, dando a gente vontade de apanhá-la.

É um primor de paisagem.

Benjamin Parlagreco ocupa lugar honroso nessa exposição. O seu quadro n. 114, um carro de bois, carregado e exposto ao sol, ao sol dos nossos campos, tudo inundando de luz intensa, tem atrelada a junta do cabeçalho.

São dois animais vivos, perfeitamente destacados, envolvidos em ar, o que é sempre difícil de obter, e desenhados com muita observação.

O dia de hoje não se presta para uma visita com o fim de ver os quadros de modo a tratar deles, inda que em crônica ligeira.

Começaremos, portanto, esse trabalho amanhã.

OSCAR GUANABARINO [1]


Transcrição de Fabiana Guerra Granjeia

Atualização da grafia por Andrea Garcia Dias da Cruz

GUANABARINO, Oscar. ARTES E ARTISTAS. O Paiz, Rio de Janeiro, 1 set. 1899, p.2.

[1] Nota da transcritora: Este artigo não está assinado, mas é citado posteriormente por Oscar Guanabarino.

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