. GUANABARINO, Oscar. ARTES E ARTISTAS. O Paiz, Rio de Janeiro, 1 out. 1894, p.2. - Egba

GUANABARINO, Oscar. ARTES E ARTISTAS. O Paiz, Rio de Janeiro, 1 out. 1894, p.2.

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Edição de 04h17min de 1 de Maio de 2013

Escola Nacional de Belas-Artes

EXPOSIÇÃO GERAL

Foi grande a nossa surpresa e grande o nosso contentamento ao entrarmos ontem na sala em que estão reunidos os trabalhos de pintura enviados à exposição de belas-artes.

A pintura progride, como nenhuma das outras artes, no domínio da República; e basta comparar a atual exposição com a melhor que conseguiu o antigo império em 1884, quando a academia tinha conselheiros e comendadores a dirigi-la, para vermos o quanto temos caminhado.

A pintura histórica, tão recomendada e exigida, apresentava sempre fatos históricos, que nenhuma relação tinham com a nossa vida. Pedro Américo, professor de arqueologia, caindo em constantes erros dessa matéria, dava-nos Joana d’ArcMoisés, Judite, Heloísa e Abelardo,Voltaire, e tantos outros quadros de assunto estrangeiro, quando a nossa história ainda estava, como está, por explorar; e como esse pintor era quem dava a nota naquela época, todos os outros seguiram-lhe nas águas e lá vinham as coleções bíblicas, em que o S. Jerônimo não falhava.

Atualmente aparece uma arte, que, se não é francamente nacional, acentua bem a tendência para isso.

Nesse ponto temos três artistas notáveis, que pintam cenas brasileiras, produzindo quadros magníficos - Almeida JuniorBrocos e Weingärtner.

O pintor ituano, autor de alguns quadros existentes nas galerias da escola nacional, tais como - O modeloCaipiras negaceando, Derrubador  brasileiro, e mais dois outros bíblicos - A fuga para o Egito e Remorso de Judas aparece-nos agora com três telas brasileiras - A pescariaA queda do VotorantimAmolação interrompida e O caipira.

Na Pescaria a cena passa-se em um rio pouco caudaloso, com as margens alagadas e invadidas pelo tabual; na barranca estão os dois pescadores. É um quadro bem de cena vulgar; sem o espetaculoso do panejamento e sem o grito das cores pomposas arrumadas para fazerem efeito.

Na Queda do Votorantim há pouco estudo da água; parece uma queda de gesso, sem transparência, sem umidade, sem ruído. Almeida Junior não está no seu elemento, mas em compensação lá temos o Caipira, tipo exato do sertanejo paulista, indolente, sentado a picar fumo para cigarro com a grande faca de ponta. Há muita observação nesse tipo, aliás difícil.

O Amolador interrompido também é um tipo brasileiro e bem brasileiro. A tela tem grandes dimensões e obriga o pintor a muitos detalhes, que prendem a atenção do observador.

Almeida Junior é sempre o mesmo artista de traço largo, fiel desenhista e de colorido natural, banindo da palheta cores inúteis, que só servem a quem quer produzir o agradável a vista, sem se importar com a verdade.

Brocos, perfeitamente identificado com a nossa natureza, apresenta uma série de paisagens mineiras, salientando Os bateadores; mas o seu melhor trabalho é o Aqueduto, quadro que já esteve exposto antes de partir para Chicago.

Entre os artistas que procuram nacionalizar a arte, estudando os nossos costumes e surpreendendo a cor do nosso ambiente, tão difícil de ser apanhada pela inconstância da luz, devemos colocar em um dos primeiros lugares este pintor, de grande atividade e sempre fiel a verdade.

Weingärtner não se limita a ser brasileiro - torna-se bairrista. Atualmente os seus quadros são cenas do Rio Grande, ou pelo menos do Sul.

A exposição ainda não está catalogada, de modo que é difícil citar os quadros pelos seus títulos ou pelo menos indicar o seu número; mas entre muitos que atraíram a nossa atenção, recordamo-nos de um piquete de lanceiros em plena campanha.

O assunto presta à variedade; os soldados só têm uniformizados os armamentos, e a pala e as bombachas dão o tom característico dos trajes do sul onde todos querem passar por guascas, procurando efeitos na gauchada.

O brasileirismo obrigou-nos a deixar para o fim o quadro que mais simpatia nos despertou - A feiticeira, de Henrique Bernardelli; esse quadro, que figurou na exposição de Chicago, é de grande merecimento, qualquer que seja o lado por que se encare. Verdade é que o assunto também é dos melhores para chamar a atenção dos visitadores e dos críticos - a mulher preparada para o baile - e dizemos para os críticos, porque a mulher é a mais perfeita manifestação do belo, e é o belo a constante indagação da crítica.

Felix Bernardelli exibe um quadro de grande sentimento, Uma espera à janela, mas falta-nos espaço e deixaremos para outra ocasião não só esse quadro como também um outro idêntico, mas exercido pela criada, assim como uma dançarina que finge ouvir os conselhos de sua mãe.

Devíamos citar nesta primeira notícia uma cabeça envolta em véu róseo, trabalho magnífico de Rodolpho Amoêdo, e destinado, segundo nos consta, a um jornalista fluminense; mas o espaço priva-nos desse intento e por essa mesma razão não falamos hoje no Jaca de laranjas de Pedro Alexandrino, nos trabalhos de L. Rodrigues, pensionista do Estado; na Escrava de Oscar P. da Silva e tantos outros em cuja frente estivemos parados algum tempo.

OSCAR GUANABARINO.


Transcrição de Fabiana Guerra Granjeia

Atualização da grafia por Andrea Garcia Dias da Cruz

GUANABARINO, Oscar. ARTES E ARTISTAS. O Paiz, Rio de Janeiro, 1 out. 1894, p.2.

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