. G. DE O. ARTES. O prêmio de viagem no salão deste ano. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 6 set. 1913, p.5. - Egba

G. DE O. ARTES. O prêmio de viagem no salão deste ano. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 6 set. 1913, p.5.

De Egba

Iniciando hoje rápido estudo sobre o salão deste ano, parece, melhor não poderíamos fazê-lo do que observando a obra dos quatro candidatos ao prêmio de viagem, cujos retratos ilustram sobremodo estas pálidas notas.

São eles, em vista da norma obrigatória entrada em vigor este ano, d. Angelina Agostini, Miguel Caplonch, Guttman Bicho e Baptista Bordon, isto é, aqueles, dos candidatos do salão passado, que obtiveram medalha de prata.

Com sinceridade devemos deixar desde já assinalado que nenhum deles se apresenta mal aparelhado agora, atestando assim o aproveitamento esperado nesse lapso de tempo com o incitamento da recompensa obtida.

Entrando, porém, mais particularmente no domínio da obra de cada um desses moços artistas, cabe-nos render as homenagens a que faz jus d. Angelina Agostini, pelos trabalhos expostos, que afirmam, sem dúvida, além de um esforço de louvar, uma acentuada noção artística.

As compras e sobretudo Vaidade são duas telas que desafiam a assinatura mesmo dos consagrados, sem que lhes proporcionassem razões para os desestimar. Não se concluirá daí que constituam afirmações definitivas de um temperamento artístico.

Efetivamente, assim não é, e sendo a verdadeira crítica o reconhecimento dos valores estéticos, exorbitaríamos aqui da nossa função máxima, se desse modo exagerássemos os méritos evidenciados pela distinta senhora.

D. Angelina é uma artista de raça, com personalidade já positiva, conquanto, com franqueza o dizemos, muito lucrará, por certo, quando de todo libertada da tutela da escola, e, mais, daquela do sr. Bernardelli.

Nada lhe falta, nem mesmo paciência e perseverança, para a vitória final: técnica tem-na ela bem sua, a serviço de uma fatura comedida e inteligente. Sua obra denuncia grande capacidade de trabalho a que se entrega sem arrojos, mas também sem desfalecimentos.

Com inteiro destemor se poderá dizer mesmo que é quem melhor apetrechada vai ao encontro do veredito julgador.

É verdade que d. Angelina tem como concorrentes três moços trabalhadores e, pode-se dizer sem receios de que nos taxem leviano ou bendizente, já assaz experimentados nos mistérios da Arte, que escolheram.

Miguel Caplonch, todos sabem um delicado pintor, ativo, inteligente, cuidadoso, capaz mesmo de mais fazer do que nos apresenta agora.

Para confirmar, ali tivemos quarenta e cinco dias a fio, Salomé, o excelente tríptico com que obteve a medalha de prata do salão passado.

Com os pequenos defeitos, que desassombradamente apontamos oportunamente, não a julgamos inferior a nada do que ora expõe.

O seu episódio Wagneriano é uma composição arrojadíssima, de que não deve estar satisfeito, convencido que de que se fazem vítimas voluntárias, mesmo os grandes pintores mundiais, quando se abalançam a entrepresas dessa ordem. De dificultosa interpretação, pelo nebuloso do assunto concebido, num meio estranho, à hora cheia de tropeços, o motivo do quadro de Caplonch é uma verdadeira cruzada, a que fora temeridade ajustar-se alguém, neste acanhadíssimo Rio de Janeiro.

Já não assim o seu retrato decorativo [Imagem] que, sem favor, lhe assegura um posto relevante entre os seus iguais.

Infelizmente, a par das duas figuras bem desenhadas, o pintor teve, a nosso ver, a má ideia de estilizar parte da composição, o que emprestou, sem dúvida, grande dose de antipatia ao seu trabalho. Não há negar que Caplonch faz com rara habilidade esse gênero de pintura, mas retrato decorativo é uma extravagância, que se não autoriza facilmente a um pintor.

A razão de ser da arte decorativa, de que se fez tão denodado paladino Roger Marx, desaparece quando se pensa no retrato, e isso mais se acentua pela desigualdade que com ele se faz nascer, desde que se não pode estilizar também a figura ou figuras sem [...]

Afora, porém, esse modo de ver, absolutamente pessoal, parece que o artista não foi feliz também na escolha do sítio para a sua composição. De fato, o sol entrando, naturalmente, por cima do muro do fundo, só vem beijar furtivo um pedacinho da sombrinha (não estilizada) e aí fica todo absorvido na seda clara, e esquece de seguir na trajetória mal falada até o gramado do primeiro plano, em que aliás entram mal as figuras repousadas.

Mas com tudo isso, o observador para com satisfação diante das telas de Miguel Caplonch.

Em relação a Guttman Bicho, toda a gente está de acordo em que o seu “Lylü e Lay” é superior ao medalhado do 19º salão, não sendo, ao que suponha, essa circunstância surpresa para os que o conhecem como pintor. Bicho pinta e pinta muito e, conquanto haja nesse ministério um tanto de anarquia, ainda assim muito aproveita, quando mais não seja em matéria de fatura e de técnica.

As figuras do seu quadro são positivamente boas, bem desenhadas e [...], o que se realça e assegura como verdade indiscutível, se se observa cada uma de per si, em abstração difícil mas possível.

Há talvez um pouquinho de dureza, que não seria suficiente para diminuir-lhe o valor.

Juntos, entretanto, como estão, já se acentua o único defeito do seu trabalho, ainda assim muito recomendável. Bicho é um empolgado pela arte, que estima mais do que a si próprio; enamora-se dos efeitos, deixa-se absorver pela encenação do assunto e desvaira-se a ponto de se não aperceber das minúcias e detalhes.

Em “Mme. G.”, de 1912, havia sérios erros de desenho, que hoje se não surpreenderão, facilmente, em Lylü e Lay, entretanto, há sério descuido de valores na ambientação das figuras e o observador custa a acreditar no pintor, quando colocou em primeiro lugar a que, de fato, não está na frente da outra.

Mas, Guttman Bicho deve, apesar disso, estar contente, porque os mestres aí estão para consolá-lo com as suas aberrações de colorido e os seus flagrantes erros de valores.

Finalmente, resta-nos Baptista Bordon, o discípulo amado de Baptista da Costa, com as suas Velhas árvores. Trata-se de um artista novo, ao qual nunca regateamos aplausos, de que, aliás, sabe fazer-se criador com o seu inaudito esforço e sinceridade artística.

Beijos de Sol foi um sucesso no ano passado e sucessos foram as suas exposições, principalmente, a primeira, ali na Associação dos Empregados no Comércio.

Há na substanciosa obra de Bordon pedaços deliciosos das nossas paisagens, que, embora semelhantes em fatura às de seu grande mestre, o mágico interpretador de um dos aspectos da nossa natureza, excede-os justamente porque assinalam, com verdade absoluta, novas feições, horas outras, ambientes diversos dos consagrados já, e tão legítimos como os que mais o forem.

Acostumamo-nos a ver no modesto autor de Casuarina, essa página poética do nosso Campo de Sant’Anna, um curioso paisagista para quem confiantemente se pode augurar o posto máximo desse gênero da pintura nacional. Somos, pois, radicalmente insuspeitos para dizer-lhe agora do quadro com que se apresenta.

Velhas arvores é um quadro bem no gênero preferido de Bordon e agrada, absolutamente, à primeira vista.

Há uma encantadora poesia no assunto, para o que se concertaram o nosso sol glorioso, coado através da rede de verdura, e as cantilenas da água transparente, deslizando nos pedrouços do riacho, que serpeia entre os arbustos, sob o dossel que a fronde entretece.

Mas, com o demorado do olhar observador, vão aos poucos surgindo os tropeços encontrados e não vencidos pelo estudioso pintor. E para apontar alguns, na rapidez que estas notas comportam, basta que denunciemos a maneira descuidada porque tratou as folhas secas que tapetam os dois primeiros planos, o verde excessivamente cru de grande parte da vegetação e até mesmo o colorido das tranças da grande árvore, aquém do rio, dos quais um parece longe, e isso afirmariam todos, se a sua base se não viesse inserir bem junto aos outros.

São, porém, pequenos cochilos que só assinalamos por tratar-se de um pintor afeito a vencer estas e outras dificuldades sem esforço, motivo mesmo que lhe trouxe a pesar nos ombros uma tremenda responsabilidade.

Assim esboçada a nossa pálida opinião pessoal, conhecido o nosso modo de ver em relação ao prêmio de viagem, é claro que a qualquer dos concorrentes poderia o júri concedê-lo, pois todos estão aptos para aproveitá-lo. Qualquer deles teve suficiente aprendizagem para que a estadia na Europa, em contato com os mestres, e, o que mais é, em meio apto e culto, proporcione elementos decisivos à eclosão do seu mérito ou desmentido formal da sua impotência. G. DE O.

As festas do “Salon” de 1913

A comissão organizadora do “Salon” de 1913, teve a magnífica lembrança de organizar este ano as palestras literárias e musicais, tal qual se faz em Paris. Segunda-feira realiza-se a primeira com o concurso dos poetas Goulart de Andrade, Luiz Edmundo e Bastos Tigre.

A seguir devemos ter também uma sessão musical, na qual serão executados trechos da ópera Galaor, do maestro brasileiro Araujo Vianna, interpretado pelas senhoritas Maria e Marietta Campello, e os srs. Dufriche e Levy Costa.


Imagem

OS CANDIDATOS O PRÊMIO DE VIAGEM DO “SALÃO” DE 1913: ANGELINA AGOSTINI, MIGUEL CAPLONCH, GUTTMANN BICHO E BAPTISTA BORDON


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

G. DE O. ARTES. O prêmio de viagem no salão deste ano. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 6 set. 1913, p.5.

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