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F. R. BELAS ARTES. O SALÃO DE 1924. O Paiz, Rio de Janeiro, 13 ago. 1924, p.5.

De Egba

A abertura do Salão Nacional constitui sempre o maior acontecimento artístico do ano.

É de justiça dizer que o público já começa a interessar-se pelo certame, vendo naquelas coleções mais do que uma simples galeria de quadros. É o esforço do Brasil que se evidencia cada ano, no desejo de revelar os sentimentos e os ideais estéticos de uma cultura em formação.

Para quem acompanha, no entanto, a evolução artística moderna, onde se destacam, principalmente, a França e a Espanha, na pintura, - é por demais claro que ainda não atingimos à capacidade criadora para acompanhar os desdobramentos técnicos que se realizam na Europa.

Não quero dizer que é o apogeu da imitação. Tampouco que julguem necessário esconder ou eliminar o passado, para, então, conseguir aperfeiçoamento nas artes do desenho.

Mas é de todo ponto evidente que nos deixamos ficar em demasiado retardo, no que diz como compreensão dos modernos problemas estéticos. Continuamos a empregar “fórmulas” obsoletas que já fizeram o seu tempo.

Por várias vezes tenho eu clamado contra os processos antiquados, anti-pedagógicos, que se continuam a empregar no ensino artístico brasileiro.

E meu reclamo é tanto mais justo quando apelo, com franqueza, para que se dê maior liberação aos jovens estudiosos.

De modo geral, quem vê a pintura brasileira, de hoje, fica aturdido com a ideia espírita de que são figurarias de tempos idos que, pelo milagre de taumaturgos, continuam a projetar-se nas telas.

Imagine-se um escritor novo a efetuar novelas, com a mesma técnica dos romances de capa e espada. Não muito diferente é a situação - falo de modo genérico - dos pintores brasileiros.

As poucas exceções que se assinalam, não chegam ainda a constituir núcleo bastante coordenado, com vida autônoma, para poder dizer-se que abrem uma nova fase, na arte nacional.

Acredito, porém, que, se aqueles limitados elementos perseverarem, acabarão por constituir corrente definida e característica. Teremos, então, dentro de alguns anos, outras, e mais belas, manifestações da pintura brasileira.

Se pretendesse, nesta espécie de introdução às notas do Salão Nacional, fixar audaciosamente, as maiores ausências que verifico, com frequência, na pintura, entre nós, diria que elas se podem resumir em duas modalidades: no que diz com a sensibilidade das cores, e no que toca com a densidade da forma.

A maioria dos nossos pintores - e a exposição atual é testemunho flagrante - não atinge a acuidade visual necessária para a percepção de que a matéria participe das cores que a cercam. Menos ainda de que a natureza não existe como epiderme. Há profundidade nos volumes: e é dessa penetração, revelada, às vezes, pela linha, que vive todo o segredo impressionante da arte. Sem aqueles dois condões - chamo-lhes assim - a pintura seria facilmente vencida pela fotografia. Pois que, em alguns exemplares de arte, já se obtém até mesmo uma certa atmosfera, onde os corpos nadam.

Acredito que é esse um dos perigos a ameaçar a arte, para o futuro.

E o artista precisa, cada vez mais, compenetrar-se daquele sentimento para que a pintura continue a ser a grande fonte de emoção humana.

F. R. [Fléxa Ribeiro]


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

F. R. BELAS ARTES. O SALÃO DE 1924. O Paiz, Rio de Janeiro, 13 ago. 1924, p.5.

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