. F. R. BELAS ARTES. EM TORNO DO RETRATO. O Paiz, Rio de Janeiro, 15 ago. 1924, p.5. - Egba

F. R. BELAS ARTES. EM TORNO DO RETRATO. O Paiz, Rio de Janeiro, 15 ago. 1924, p.5.

De Egba

Há dias falava eu da situação embaraçosa em que, cada vez mais, se havia de encontrar a pintura, em face dos extraordinários progressos da fotografia.

E revendo o Salão Nacional, na coleção de retratos que lá se exibem, maiores foram minhas inquietudes. Os pintores brasileiros continuam preocupados com a reprodução exata do hábito externo das personagens. É vulgaridade materialista. Tanto na maneira dita clássica, como na modernidade da cor, que se tenta implantar entre nós.

Não devemos esquecer que a semelhança física é dada, na sua totalidade, pela fotografia. Neste campo revelador, acredito inúteis os esforços dos pintores: serão sempre, e cada vez mais, suplantados pela objetiva. Tanto mais que a similitude não é somente de planos nem de massas, mas, principalmente de pormenores. Todas as minudências do retratado, no que diz com semblante, como no que se refere aos acessórios, à chapa imprime com flagrante nitidez.

Eis porque costumo preferir a fotografia, aos maus retratos pintados. As vantagens são numerosas: desde a rapidez, custo, até a parecença.

Basta a imobilidade de uma pose, o sorriso exigido, e não piscar, para que se tenha nos piores casos, a nossa efígie, fisicamente verídica, estampada.

É precisamente neste tomo que a arte se diferencia, e toma expressão inconfundível.

O artista não copia. Transcreve a sua interpretação. Apreende, de todos os momentos ativos da figura, o tempo característico. E dá, na síntese pictural, o conjunto representativo.

Se o artista se limitasse à cópia da natureza, creio não existir quem não preferisse o modelo...

E tanto é verdade o referido que bastará examinar a luta aberta entre o modelo e o seu intérprete. Aquele se oculta, sob mil disfarces; este busca-o com sofreguidão; caça-o nas luras [sic] Recônditas dos supostos modos de ser, até conseguir, com penetrante argúcia, apurá-lo no que ele tem de legitimamente seu e que, malinamente [sic], pretendia esconder.

O retrato é como a paisagem moral do individuo. Expande no ambiente. Nele se devem evidenciar, como energia criadora os nada efêmeros, e que são a sua eternidade. Como seria possível viver-se sem o ar que respiramos? De tal sorte a personagem há de ter atmosfera própria: só aí suas qualidades subjetivas, essenciais de vida interior, agirão em profundidade, trazendo com frequência humana, o que há de real no individuo, como ser diferenciado da espécie.

É necessário, nesta altura do problema, não esquecer que a igualdade é uma aparência. A natureza não se repete. Tudo são dessemelhanças. E as diferenças morais, as disparidades esteto-psicológicas são infinitamente maiores e mais profundas do que as da aparência exterior.

O retratista terá que proceder como o botânico: não se fiar nas exterioridades lineares e coloridas, quando estiver classificando os modelos...

Se não tomasse ares de paradoxo, dever-se-ia afirmar que os seres se caracterizam mais no que possuem de feio do que nos dons da beleza.

É nesse registro que vive o condão individual ele resulta do sofrimento de emoções com que a personagem se formou. Aformoseá-lo será roubar-lhe o que lhe é próprio, pessoal - e dota-lo de alindes comuns que pertencem ao clichê inofensivo, e que se encontra em todas as receitas ... para fazer retratos que agradem muito aos modelos.

F. R. [Fléxa Ribeiro]


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

F. R. BELAS ARTES. EM TORNO DO RETRATO. O Paiz, Rio de Janeiro, 15 ago. 1924, p.5.

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