. Exposição geral de belas-artes. HENRIQUE BERNARDELLI. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 7 out. 1894, p.2. - Egba

Exposição geral de belas-artes. HENRIQUE BERNARDELLI. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 7 out. 1894, p.2.

De Egba

Dá-se os nossos artistas que vão completar na Europa a sua educação artística um fenômeno que poucas vezes sofre exceção: produzem muito na Europa e aqui pouco ou nada. Depende isso de muitas causas justificáveis: falta de modelos, de emulação, de incitamento [sic] abundância de encomendas privadas ou de lições etc... causas suficientes para esfriar qualquer temperamento ardente e qualquer entusiasmo.

Henrique Bernardelli representa porém uma das exceções, e as cinco telas que expõe são uma prova cabal da sua fecundidade e da sua disciplina no trabalho. Algumas foram feitas na Itália: Volta do trabalho (n. 53), História eterna n. 49, e À saúde da bela n. 51. Duas nasceram aqui; Em tempos coloniais n. 50, e Feiticeira n.52 que um erro imperdoável do catálogo chama de Faceira confundindo assim esta obra com a esplêndida estátua deste nome que é uma das obras-primas de Rodolpho [Rodolpho Bernardelli].

Quer na Itália, quer no Brasil, e é lícito deduzir, quer em qualquer outra parte do mundo. Henrique Bernardelli não deixa de trabalhar sempre com o mesmo entusiasmo e com o mesmo gosto, por conseguinte com o mesmo resultado.

A Volta do trabalho, cuja péssima colocação não deixa que se aprecie convenientemente, é uma daquelas cenas melancólicas em que o temperamento do autor sintetiza o assunto mais preferido da época moderna, tão preocupada com os problemas sociais e com a glorificação do trabalho.

A cena é um bonito efeito de sol posto, as figuras feitas sem preocupação estética, parecem intencionalmente destinadas a despertara tristeza. Numa situação quase idêntica Basquez e Willet souberam, com insuperável felicidade, reunir o sentimento da tristeza e o da beleza . Ainda assim este quadro merece ser muito considerado, apreciado e, antes de tudo, adquirido.

O Tempos coloniais é evidentemente um dos estudos que serviram ao artista como preparação pelo seu grande quadro Os bandeirantes, que é de propriedade de escola e que merece uma medalha de honra em Paris; e como estudo é bem precioso e bem interessante, embora o título não chegue a dar-lhe o tom e a pretensão de quadro.

Mas na história de quase todos os grandes artistas modernos os estudos sempre figuram como obras verdadeiras de arte, enquanto os quadros perdem não poucas vezes de valor ou de importância, por não serem a reprodução imediata da visão luminosa do artista. É bem difícil manter no conjunto do quadro a vida palpitante, o colorido fresco e movimento admirável que em certos estados o artista chega inconscientemente a roubar à natureza.

Assim, a linda aquarela que tem por título À saúde da bela é um esplêndido estudo, cheio de vida e de uma simpática fatura; mas poderia ter outro título e seria sempre bem aplicado .

A história eterna começa por ser um estudo, mas acaba por ser um quadro: a comédia dos namoros e dos pormenores que, apurando os desejos, preparam a fecundação do gênero humano, tem nesse quadrinho uma das suas cenas mais características e mais comuns; é gênero sem pretensão e sem grande brilho, mas bem simpático; é como um soneto de índole familiar saído do gênero de um escritor dramático .

A Feiticeira é, por consenso comum, o quadro mais importante da exposição: foi premiado em Chicago, impressionou desde o primeiro momento a todo gênero de pessoas: cultas e incultas, profanos ou artistas. O assunto representa um tipo que foi e é ainda hoje um dos elementos mais salientes e mais dominadores da vida.

A forma está em perfeita harmonia com o assunto e deixa sobressair egregiamente as qualidades mais vigorosas da palheta de Bernardelli, muito notável pela sobriedade das tintas. Os efeitos luminosos são obtidos com a máxima simplicidade. O desenho é correto, a silonette de toda a figura não podia ser mais apropriada e mais natural.

Feliz conjunto de qualidades artísticas, herdadas e adquiridas, em contínuo progresso, Henrique Bernardelli não tardará a fixar nas suas telas a feição mais forte da vida nacional.

Esperemos.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Bárbara Kushidonti

Exposição geral de belas-artes. HENRIQUE BERNARDELLI. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 7 out. 1894, p.2.

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