. EXPOSIÇÃO de Belas Artes - O “VERNISSAGE”. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 1 set. 1905, p. 2. - Egba

EXPOSIÇÃO de Belas Artes - O “VERNISSAGE”. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 1 set. 1905, p. 2.

De Egba

Dia pálido e brumoso próprio para ver quadros; tempo úmido, convidando ao morno ambiente de uma exposição de arte.

Grande e fina concorrência à hora em que chegamos, artistas, jornalistas, literatos e a grande massa anônima dos snobs que vão a toda a parte onde parece elegante “ser visto”.

Muitas senhoras em roupas de inverno e bôas macias, de penas.

É difícil dar uma notícia perfeita da exposição; os quadros são em grande número; e não há um catálogo, um guia, uma indicação qualquer que seja, com que se conduza o visitante.

Como os expositores estão espalhados, é impossível saber o número de trabalhos de cada um.

E os títulos dos quadros?

Muito menos. Batizá-los-emos por nossa conta e risco de acordo com o assunto tratado; perdoem os autores o mau gosto do padrinho.

Mas não há outro remédio.

Há na sala entusiasmo e interesse; murmura-se nos grupos contra os expositores de melancias e cajus, que transformam a exposição em praça do Mercado.

Diga-se em verdade que os quitandeiros rarearam este ano; esperamos que aos poucos se liquidem todos eles, o sr. Petit à frente.

Há muita bota; oh! Muita!

Mas, enfim, ponhamo-las de parte e vejamos o que há de bom e apresentável.

O clou da exposição é um belíssimo retrato de senhora, devido ao pincel educado de Visconti; muita vida, muita expressão naquele olhar cheio de brilho e de meiguice; um retrato psicológico: adivinha-se no modelo um caráter firme e voluntarioso; as tintas bem distribuídas, sem o escândalo de originalidade dos melhores quadros do artista.

Entretanto, o seu colorido é inconfundível; Visconti sabe imprimir aos seus trabalhos um cachet especial, muito seu, que dispensa e assinatura.

Os retratos de Bernardelli [Henrique Bernardelli] são os de sempre: trabalhados com a habitual maestria, quase todos em tons escuros, muito acadêmicos, sem ousadias ou pretensões revolucionárias.

Há três muito de apreciar, os dos srs. Ubaldino do Amaral, Machado de Assis e Carlos Rodrigues.

As paisagens de Baptista da Costa. Mas haverá necessidade de dizer o que são as paisagens de Baptista da Costa?

O belo artista expõe bom número delas.

Há um pôr-do-sol (batizamo-lo assim) de grande e intensa beleza; o colorido do horizonte é de absoluta verdade.

Uma outra, cremos que de Poços de Caldas, impressiona pelo verde macio da folhagem, o nosso verde alegre e quente, coberto por um céu luminoso e suavíssimo.

Rodolpho Chambelland, aluno da Escola, faz progressos rápidos e notáveis.

Dos seus quadros destacamos as Bacantes em festa, um estudo de acadêmico muito bem executado, malgrado a deficiência de modelos; Passatempo - (uma tocadora de violão) e Leitura.

Carlos Chambelland, seu irmão cadet, apresenta bons estudos que honram o nome da família.

Lucilio expõe um belo retrato de senhora, é, com perdão da chapa [sic], uma grande promessa de grande artista se continuar a se aplicar como até a aqui.

Malagutti dá-nos um excelente retrato de senhora com uma criança ao colo; este artista original, personalíssimo, agrada com quase todos os seus trabalhos pela ousadia da execução.

Este retrato é nebuloso e triste, os traços mal se debuxam na tela e entretanto as fisionomias são riquíssimas de expressão e alma.

Malagutti é um revolucionário, sem […] mas com um grande talento […]

[…]

Vicio Fatal, Lar infeliz ou que melhor nome tenha, é um quadro sugestivo, impressionante.

É um ébrio que chega em casa, esbordoa a mulher, derruba os móveis e agora já […] estado de coma alcoólica, […] sobre a mesa, os olhos congestos, os lábios numa expressão de angústia indizível; em torno a mulher e os filhos choram; os móveis jazem pelo chão em pedaços.

[Eugenio Latour] Expõe mais um esplêndido Nu, um grupo de três mulheres, lendo confidencialmente uma carta [Imagem], e ainda alguns outros bons estudos.

É um artista que emprega otimamente o seu tempo.

Falaremos amanhã de outros trabalhos expostos.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

EXPOSIÇÃO de Belas Artes - O “VERNISSAGE”. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 1 set. 1905, p. 2.

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