. EXPOSIÇÃO de Belas-Artes. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 3 set. 1903, p. 3. - Egba

EXPOSIÇÃO de Belas-Artes. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 3 set. 1903, p. 3.

De Egba

Inauguração da 10 exposição anual. - As Belas-Artes e os malazartes. - A concorrência. - Os expositores. - Notas.

A 10 Exposição Geral de Belas-Artes foi anteontem, ao meio dia, inaugurada a capucho, isto é, sem a presença do presidente da República que, preocupado com os malazartes de várias espécies, que o cercam, não tem cabeça para Belas-Artes.

Em compensação estiveram lá os ministros do interior e da viação, que, acompanhados pelo professor Bernardelli [Rodolpho Bernardelli], diretor da Escola Nacional de Belas-Artes, percorreram as duas salas do costume [sic], onde este ano, nos pareceu ver menos quadros e piores, na generalidade, do que no anterior certame.

Cinquenta expositores de pintura apresentam 199 quadros a óleo, pastel, aquarela, guache, cola, crayon, ovo e têmpera; sendo a escultura representada por três nomes e quatro trabalhos; a arquitetura um nome e um projeto, o da Escola de Belas-Artes, de Morales de los Rios, executado no atelier Bernardelli, por Joaquim Fontes Soares, figurando ainda entre as especialidades artísticas muitos trabalhos de gravura, de medalhas e pedras finas do professor Augusto Girardet; quatro águas-fortes de Modesto Brocos; três xilografias e dois desenhos de João Ricardi Cattaneo; 14 objetos de cerâmica de Elyseu Visconti e espécimes de trabalhos de fotogravura e fotolito dos Srs. Bevilacqua & C.

Os expositores de quadros são: Henrique Bernardelli, Rodolpho Amoedo, Modesto Brocos, João Baptista da Costa, Fiuza Guimarães, Raphael Frederico, Joaquim Augusto Marques Guimarães, Augusto Petit, Carlos Reis, Elizeu Visconti, Alina Teixeira, Araújo Fróes, Jonas de Barros, Ed. Bevilacqua, Pedro Bolato, Gaston Cariot, Raoul Carré, Carlos [Carlos Chambelland] e Rodolpho Chambelland, Alberto Childe, Clelia de Castro Nunes, Anna [Anna Cunha Vasco] e Maria Cunha Vasco, Gustavo Dall'Ara, Carlos de Agostini, Alberto Delpino, Dinorah da França Meyrelles, Elvira Gomensoro Ferreira, Evencio Nunes, Luiz Mario Filippo, José Monteiro da França Garrido, Georgina Moura Andrade, Helena Vaz Pereira de Viveiros, Irene de Andrade Ribeiro, Eugenio Latour, Ledrina da Gama Rodrigues, Lucilio de Albuquerque, Marietta da França Meyrelles, Augusto Matisse, Minna Mee, Jorge de Mendonça, Francesco Napolitano, Richard Rauft, Luiz da Silva Ribeiro Filho, Sarah Del Vecchio, Helios Seelinger, Virgilio Lopes Rodrigues.

Deles, cinco são ou foram professores na Escola Nacional de Belas-Artes e outros institutos, quatro, tiveram prêmios de viagem, nove, receberam medalhas em outras exposições e onze, mereceram menções honrosas.

Não é nosso empenho fazer critica às manifestações artísticas nacionais reunidas nas salas da Escola de Belas-Artes, pelos poucos que ainda se esforçam na nossa pátria por fazer alguma coisa mais valiosa do que maldizer quanto resulta do engenho daqueles que não são seus apaniguados elevando estes aos píncaros da glória.

Limitamo-nos a reproduzir a impressão que rapidamente recebemos nas poucas horas que nos detivemos ontem em frente dos quadros expostos no nosso Salon.

Pareceram-nos geralmente pobres de concepção os poucos quadros de composição; menos maus alguns retratos, dois ou três bons e também - não nos lembra quantos maus.

Os trabalhos de aquarela são em grande numero, relativamente, figurando entre eles como, a nosso ver, dignos de registro, os de Amoedo e Bernardelli (Henrique) e os das senhoritas Anna e Maria Cunha Vasco, discípulas de Benno Treidler.

Apresentam as gentis e aplicadas jovens 20 quadros de interior e paisagem, em que revelam fina observação e justeza de cores.

Dos quadros a óleo achamos bons alguns, que não mencionaremos, para não desgostar os autores dos que nada valem e especialmente um ... não vale desgostar a mocidade atirada.

Deixemos que tal façam os austeros mestres da crítica, que vão estampar por estes dias nos diferentes órgãos de publicidade o seu juízo inflexível e amadurecido.

Os trabalhos de cerâmica artística queimada ao fogo de Mufla nas manufaturas dos srs. Ludolf & Ludolf, apresentados por Eliseu Visconti, são uma tentativa feliz merecedora de incitamento e proteção; boas as águas-fortes de Brocos, assim como as medalhas e gravuras em pedras finas de Girardet, e dignas de registros as xilografias de Cattaneo.

O diretor da Escola apresenta um busto do dr. Brissay, em bronze, muito parecido e bem executado e seus discípulos Correia de Lima e Julieta França expõem: o primeiro um busto de criança, em gesso, e um pescador, também em gesso e a segunda, Cupido, em atitude de quem, depois de haver disparado uma flecha, olha, escarninho para a sua vítima.

Atitude é graciosa e a expressão do travesso Deus muito parisiense.

A exposição foi muito visitada por senhoras e senhoritas e muitos artistas, amadores e críticos, vendo-se também ali juízes, ministros do Supremo Tribunal e outros altos funcionários, o Sr. Ministro de Portugal e seu secretário, representantes da imprensa, etc.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

EXPOSIÇÃO de Belas-Artes. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 3 set. 1903, p. 3.

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