. EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. SOUZA PINTO. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 31 out. 1894, p.1. - Egba

EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. SOUZA PINTO. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 31 out. 1894, p.1.

De Egba

Irmão de um artista que, há trinta anos, se estabeleceu entre nós, Julio José de Souza Pinto [sic] concorreu a esta primeira exposição, mandando de Portugal, onde reside, cinco quadros que merecem a maior atenção.

Le Rendez-vous é o maior, quanto a proporções, e já figurou no Salon de Paris neste mesmo ano.

Representa uma cena de campo em tempo de primavera, como a grama fresca e abundante deixa perceber. No primeiro plano, uma moça, uma camponesa provavelmente, está esperando alguém; mas com os olhos fixos no solo, enquanto vê, e se compreende bem que vê, aparecer no fundo o que espera.

Seria difícil avaliar o caráter etnográfico dessa figura, que não tem nada que ver com os tipos portugueses e espanhóis, e que é uma espécie de mistura de bretã e holandesa: o costume é característico, muito parecido com o de uma irmã de caridade, e todo o ar da figura cheira um pouco de colégio; mas, apesar dessa discordância entre a intenção da composição e os caracteres salientes que deveriam justificar a posição psicológica da figura principal, o quadro tem qualidades simpáticas de palheta e não pode deixar de apreciá-lo quem gosta, em pintura, de efeitos suaves e de tintas meigas, plácidas, quase veladas. Parece que o valente artista se preocupa muito com a imitação de um dos mais conhecidos pintores modernos.

À beira-mar é um quadrinho de costume da Povoa de Varzim; está pintado como o Rendez-vous: a mesma técnica, igual entonação, igual predomínio da velatura, como se uma neblina leve e imperceptível ocupasse todo o ambiente do quadro; mas a figura daquele menino é bem interessante, tem um sentimento indefinido que agrada e atrai .

O estudo de Animais é também louvável, embora não saia dos limites de uma mancha simpática, bem feita, mas daquelas que o artista vai fazendo em todas as ocasiões quando fica impressionado por uma linha, por um efeito, por um perfil.

À mesma categoria pertencem os Arredores de Paris e Père Mathieu.

O primeiro é uma pintura muito delicada e muito fina; tem frescura de tintas e simplicidade de processo admirável ; a relação dos tons é muito boa; o conjunto está em harmonia com a impressão do ar grisalho e melancólico .

O Père Mathieu, uma verdadeira mancha, que à primeira vista parece obtida com uma tinta só, é o que mais revela a força do artista, não só em saber apanhar os traços mais característicos de um tipo, mas também em sabê-los representar com grande simplicidade de meios.

Nada há mais difícil do que o simples, em todo gênero de arte, e nessa mancha preciosa o bom desenhista e bom colorista revela todos os segredos de sua arte.

Seria imperdoável fechar esta notícia sem dizer aos leitores que estes quadros não são senão uma expressão medíocre do talento de Souza Pinto.

Esse artista é muito conhecido na França onde a Calça rota e a Vingança de Alexandre VI e outros quadros seus foram celebrados e ilustrados nos jornais de arte mais autorizados e conscienciosos.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Bárbara Kushidonti

EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES. SOUZA PINTO. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 31 out. 1894, p.1.

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